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WhatsApp admite sacanagem eleitoral, mas TSE parece ter vergonha de ir ver

Leonardo Sakamoto

08/10/2019 14h29

"Na eleição brasileira do ano passado, houve a atuação de empresas fornecedoras de envios maciços de mensagens, que violaram nossos termos de uso para atingir um grande número de pessoas." A declaração de Ben Supple, gerente de políticas públicas e eleições globais do WhatsApp, foi registrada por Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo. É a primeira vez que a plataforma admite isso publicamente.

A repórter investigativa foi pesadamente atacada e ameaçada de morte por sua reportagem, publicada em outubro do ano passado, que revelou que empresas de marketing foram contratadas por empresários apoiadores da candidatura de Jair Bolsonaro a fim de dispararem milhões de mensagens a seu favor e contra o adversário.

O envio em massa é considerado ilegal pelo Tribunal Superior Eleitoral e serviços eleitorais que não sejam declarados à Justiça podem configurar caixa 2. Por exemplo, a campanha do petista Fernando Haddad chegou a ser multada por impulsionar ataques contra Bolsonaro.

Mesmo com evidências gritantes, o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Jorge Mussi, não parece interessado em descobrir quem estava por trás dos disparos de mensagens pró-Bolsonaro, nem quem pagou um bom dinheiro por elas. Não quis que os jornalistas da Folha responsáveis por investigações testemunhassem no processo (aberto pela candidatura de Haddad após reportagem do jornal), nem os donos das agências envolvidas ou mesmo representantes do WhatsApp. Mas aceitou uma testemunha indicada pela defesa do presidente, que prestou serviços para a sua campanha, em 2018, e trabalha, hoje, em sua assessoria de imprensa.

Surreal, mesmo para o roteirista desta pornochanchada chamada Brasil.

Ao mesmo tempo em que o sistema de Justiça atua para que a sociedade fique sem respostas quanto ao passado recente, o Congresso Nacional agiu para que tenhamos um futuro mais turvo ainda. No projeto através do qual afrouxaram as regras eleitorais, partidos autorizaram a si mesmos a usar dinheiro de fundo público para impulsionar conteúdo na internet. Considerando que o TSE não tem demonstrado ser capaz de criar mecanismos para mitigar a manipulação ilegal do debate público eleitoral por via digital, imagina como vai ser com a porta aberta por essa mudança na legislação.

O WhatsApp reconhece tudo isso, mas foi e será corresponsável pelas consequências disso, não é um observador externo e independente. Ao não estabelecer mecanismos eficazes para identificar e mitigar o impacto da difusão paga de conteúdo, contribui para o cenário de terra arrasada.

A lei brasileira afirma que todo o financiamento de campanha deve ser público, mas candidaturas continuam contando com empresários bilionários que fazem o serviço sujo por baixo do pano.

No final, tudo fica por isso mesmo. Candidatos são eleitos. Empresários têm seus interesses apaixonadamente defendidos. Agências de marketing levam uma fábula. Políticos e magistrados continuam como proprietários do país. Aplicativos e empresas de tecnologia ficam cada vez maiores.

A culpa pela chanchada política, econômica, social e de justiça? Repetindo o mantra de nosso presidente, é do mensageiro, que não conta a história que "deveria" contar. Com jornalistas presos e redações fechadas, talvez o país alcance a paz da ignorância suprema. Como na ditadura.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

leonardo sakamoto