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Bolsonaro, Collor, Jânio... Olavo tem razão: a astrologia explica o Brasil

Leonardo Sakamoto

11/10/2019 10h07

Olavo tinha razão. A resposta para o Brasil pode estar nos astros. O guru intelectual da família do presidente da República, que já foi astrólogo, ficaria feliz ao reconhecermos que a política brasileira é regida pelas dores do retorno de Saturno – que é quando o gigante gasoso conhecido pelos anéis dá uma volta completa em torno do Sol. O que leva em torno de 29 anos. Representaria um fim de ciclo. Em nosso caso, contudo, subvertemos com uma visita ao passado, tal qual um grande Dia da Marmota.

Jânio Quadros foi eleito em 1960. Filiado ao PTN, brigou com o grande partido conservador de sua coligação, a UDN, já no início de seu governo. Era tido como instável.

O autoritarismo e o populismo foram seus traços característicos. Elegeu-se prometendo lutar contra a corrupção e limpar o país. Sempre demonstrou desprezo pela articulação política e pelos partidos, tendo trocado de legenda várias vezes em sua vida de acordo com suas necessidades.

Vinte e nove anos depois, Fernando Collor de Mello foi eleito em 1989. Filiado ao PRN, nunca teve gosto pela construção política, o que o distanciava do PFL, hoje DEM, que estava em sua base de apoio. Era tido como instável.

O autoritarismo e o populismo foram seus traços característicos. Elegeu-se prometendo lutar contra a corrupção e limpar o país. Sempre demonstrou desprezo pela articulação política e pelos partidos, tendo trocado de legenda várias vezes em sua vida de acordo com suas necessidades.

Vinte e nove anos depois, Jair Bolsonaro foi eleito em 2018. Filiado ao PSL, brigou com seu próprio partido e com espantalhos nos primeiros meses de governo. É tido como instável, para dizer o mínimo.

O autoritarismo e o populismo são seus traços característicos. Elegeu-se prometendo lutar contra a corrupção e limpar o país. Sempre demonstra desprezo pela articulação política e pelos partidos, tendo trocado de legenda várias vezes em sua vida de acordo com suas necessidades.

Jânio renunciou em uma jogada para conquistar mais apoio que, não só não deu certo, como ajudou a nos jogar em 21 anos de ditadura. Collor sofreu impeachment, após maciças manifestações populares, o que retardou nossa recuperação econômica e a construção de instituições. Terminaram, portanto, de forma melancólica seus mandatos. E Bolsonaro?

"Pode chegar o momento, daqui a três anos, em que Bolsonaro vai dizer 'não admito nenhuma alternativa que não seja minha reeleição'. Como já disse 'não admito qualquer coisa que não seja minha vitória', na eleição do ano passado." A avaliação é de Paulo Arantes, um dos mais importantes pensadores brasileiros, que formou décadas de filósofos na Universidade de São Paulo. Pessimista? Talvez? O sucesso do presidente, em 2022, depende do desempenho da economia – a geração de empregos formais, com carteira assinada, e o aumento da renda média das famílias. E, para o azar do país (e do seu próprio futuro político), isso não vai nada bem.

O Brasil vai sair do buraco apesar de Bolsonaro? A resposta deve estar escrita nas estrelas. Mas ninguém a encontrou até agora.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.