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Relação entre Queiroz e milícia acusada de matar Marielle precisa de luz

Leonardo Sakamoto

27/10/2019 12h34

O mesmo "Escritório do Crime" que estaria envolvido com o assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes tinha laços com o gabinete do então deputado estadual, Flávio Bolsonaro, graças a seu assessor Fabrício Queiroz. Apesar disso ser notório, a relação permanece pouco investigada, como se ignorássemos um elefante na sala.

Queiroz é amigo de longa data do presidente da República, a ponto de ter depositado R$ 24 mil na conta da, hoje, primeira-dama. Segundo Jair Bolsonaro, foi a devolução de parte de um empréstimo que ele teria feito ao camarada. E o resto? Voltou como? Silêncio.

Investigações que poderiam jogar luz nessa relação seguem suspensas por decisão do Supremo Tribunal Federal. Primeiro, pelo ministro Dias Toffoli, depois pelo ministro Gilmar Mendes, após um pedido da defesa do, hoje, senador Flávio. Ele reclamou que a investigação que envolveu ambos começou através de indícios de "movimentações atípicas" do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) sem autorização judicial prévia.

Conversas telefônicas, que fazem parte da denúncia assinada pela então procuradora-geral da República Raquel Dodge, mostram que a milícia estaria diretamente envolvida na execução de Marielle a serviço de Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro. O conteúdo obtido, com exclusividade, pelo repórter Flávio Costa, vem sendo divulgado em uma série de reportagens pelo UOL.

Um líder miliciano de Rio das Pedras apontou que três membros do Escritório do Crime estariam entre os assassinos de Marielle e Anderson, tendo apoio de Ronald Paulo Alves, major da Polícia Militar.

A Polícia Civil e o Ministério Público do Rio, por outro lado, afirmam que os executores são o policial militar da reserva Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, também integrantes dessa milícia em Rio das Pedras.  Ou seja, independentemente de quem acusa, o Escritório do Crime está envolvido.

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No gabinete do filho 01 do presidente da República na Assembleia Legislativa do Rio, por indicação de Queiroz, trabalhavam a mãe e a esposa de Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope, acusado de comandar o "Escritório do Crime" e que está foragido da Justiça. Ele também está no rol de suspeitos do envolvimento com a execução.

O ex-assessor confirmou, em depoimento por escrito ao Ministério Público, no começo do ano, que recolhia mesmo parte dos salários dos funcionários do chefe na Assembleia Legislativa. O destino, segundo ele, era remunerar, de maneira informal, outros "assessores" de Flávio na base eleitoral.  A isso, ele deu o nome de "desconcentração de remuneração". Disse que não acreditava ter cometido uma ilegalidade, pois o objetivo era "multiplicar e refinar os meios de escuta da população por um parlamentar".

Ou seja, explicou que fazia algo ilegal – desviar recurso público do salário dos funcionários do gabinete a fim de ampliar a base de Flávio – para afastar denúncias de algo mais ilegal ainda: que estava operando como laranja para viabilizar a conhecida "rachadinha", em que parte do salário do funcionário volta para o bolso do político que o contratou. Ou pior: que destinava parte desse recurso público para milicianos que operam no Rio.

O fato é que, segundo apontou levantamento da Agência Pública, o filho 01 foi o senador mais votado em Rio das Pedras, território da milícia, no ano passado.

Reportagens de Ana Luiza Albuquerque, Catia Seabra e Italo Nogueira, na Folha de S.Paulo, deste domingo (27), tratam de áudios em que Queiroz reclama por ter sido abandonado, dizendo que o pior está por vir. "É o que eu falo, o cara lá está hiperprotegido. Eu não vejo ninguém mover nada para tentar me ajudar aí. Ver e tal… É só porrada. O MP [Ministério Público do Rio de Janeiro] tá com uma pica do tamanho de um cometa para enterrar na gente. Não vi ninguém agir", disse. 

"Resolvendo essa pica que está vindo na minha direção, se Deus quiser vou resolver, vamos ver se a gente assume esse partido aí [PSL]. Eu e você de frente aí. Lapidar essa porra", afirmou a um interlocutor.

Em 2004, o então deputado estadual Flávio propôs uma menção de louvor e congratulações ao então capitão da Policial Militar Ronald Paulo Alves, o mesmo cujo nome aparece na denúncia da PGR, "pelos importantes serviços prestados ao Estado do Rio de Janeiro". Adriano da Nóbrega foi outro homenageado por Flávio Bolsonaro, em 2003.

Caixão com o corpo da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Na justificativa da moção 3180/2004, de março de 2004, cita uma operação policial realizada no Conjunto Esperança, no Complexo da Maré, naquele ano, que resultou na morte de um líder do tráfico e na apreensão de armamento e munição. Em nota, após a divulgação da condecoração, o deputado afirmou: "sempre atuei na defesa de agentes de segurança pública e já concedi centenas de outras homenagens".

Vale também lembrar que Jair Bolsonaro, quando deputado federal, elogiava milícias – grupos de bandidos oriundos das forças de segurança que ocupam bairros pobres com tortura, roubo e morte, sob a justificativa de garantirem a ordem contra tortura, roubo e morte.

Apesar da necessidade de combater as milícias e privilegiar a maioria de agentes de segurança, honestos, garantindo sua proteção e a de suas famílias, muitos políticos calam-se, mostrando que falta vontade e coragem. Ou sobra rabo preso.

Neste momento em que se busca a punição dos mandantes e executores de Marielle e Anderson e as verdadeiras razões por trás de suas mortes, seria importante que as dúvidas levantadas pela conexão entre Queiroz e o Escritório do Crime fossem dirimidas. Em tese, isso interessaria principalmente ao próprio clã Bolsonaro, sobre o qual pairam essas questões. Em tese.

Gostaria de dar a mesma sugestão que Jair Bolsonaro repetiu durante toda a campanha eleitoral, citando João, capítulo 8, versículo 32: "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará".

Não sei se libertará Queiroz, o mais provável é que seja o contrário, mas o povo do Rio de Janeiro e do restante do país certamente ficará mais aliviado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.