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Raiva de Bolsonaro transmitida pelas redes faz com que hienas saiam da toca

Leonardo Sakamoto

30/10/2019 18h04

Presidente Jair Bolsonaro em live transmitida da Arábia Saudita. Reprodução: Facebook

Bolsonaro (ou alguém por ele autorizado) postou o já icônico vídeo do casal de leões e das hienas. O presidente se desculpou posteriormente por ter comparado o STF a um mamífero selvagem, carniceiro e coprofágico (que come cocô), mas o vídeo já havia cumprido sua dupla função, como escrevi aqui: cortina de fumaça sobre os Queiroz Hits – áudios que foram um sucesso tão grande quanto uma pica do tamanho de um cometa – e alimento para seus seguidores mais fanáticos, excitando-os para a guerra política.

Nesta quarta (30), o vídeo dos leões e hienas começou a fazer efeito. Após dar uma palestra em um evento do jornal O Estado de S.Paulo, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, teve o carro cercado por 15 manifestantes, que chegaram a bater em sua lataria, de acordo com o registro de Carolina Linhares, da Folha de S.Paulo. Vestidos de verde e amarelo, gritando palavras de apoio a Bolsonaro e a Moro e reclamando do julgamento da prisão após condenação de segunda instância, estenderam uma faixa com os dizeres "Hienas do STF".

O presidente sabe que é considerado um herói para uma parcela da população. Indivíduos e grupos radicais, sentindo-se empoderados por suas palavras abandonam a percepção de limites e sentem-se à vontade para ameaçar e punir aqueles que veem como opositores do seu líder supremo. Os altos funcionários da República sentem isso apenas esporadicamente, quando os criticam em um avião. Imagine, contudo, a vida de fiscais ambientais e do trabalho e de profissionais de imprensa, escolhidos como alvos presidenciais recorrentemente?

Nos últimos dias, colegas têm relatado um aumento no número de ameaças via redes sociais. "Como gostaria de te encontrar na rua para te dar uma surra", "Vou te encontrar e te dar porrada" e variações disso são exemplos dos tipos de mensagens. A ameaça não vai se concretizar na maioria das vezes, mas nem precisa. Para muitos, isso é o bastante para rever uma postura crítica.

O fim das mais polarizadas eleições de nossa história recente já demandaria um exaustivo trabalho de redução de animosidades e de sinalização ao lado derrotado. O problema é que Bolsonaro apostou na manutenção da figura do inimigo (representado por todos que discordam dele) para manter sua influência sobre uma parte do eleitorado. Enquanto a equipe econômica governa para os mais ricos, ele administra o país pensando nos 30% que aprovam suas ações.

O capitão não se tornou presidente apenas dos 55% de votos válidos, mas também dos outros 45% que escolheram Fernando Haddad, sem contar os votos brancos e nulos e aqueles que, cansados da política, abstiveram-se. Não adianta se dizer defensor da Constituição e de liberdades. Tampouco afirmar que "não existem brasileiros do Sul ou do Norte", que "somos todos um só país". Precisa agir como chefe de Estado e não como alguém em guerra com parte de seu próprio povo.

A cena deprimente da noite desta terça (29), em que grita e xinga de forma alucinada em uma live, mostra que a saída que adota ao ser questionado é a violência e a agressividade. Não adianta pedir desculpas depois, como um pré-adolescente com dificuldades de controlar suas emoções. Bolsonaro é presidente da República e seus atos servem de referência para muita gente. Se agir como um ogro ao falar com a nação, qual será a mensagem que irá passar? Que a sociedade deve ser guiada pelo grito?

Se a intenção dele não foi essa, deve mudar urgentemente de estratégia. O país não aguenta as consequências de rompantes infantis. Mas se foi exatamente essa sua intenção, de fazer com que sua base de apoio absorvesse a agressividade e a usasse em sua defesa pelas ruas, então deve mudar urgentemente de cargo.

Protestos contra figuras públicas como Dias Toffoli fazem parte da democracia. Decisões da corte devem ser cumpridas, mas não significa que não possam ser criticadas. Ainda mais Dias Toffoli que, no desejo de representar uma espécie de poder moderador, não raro esquece que o seu papel é de guardião da Constituição Federal e não de proteção do governo de plantão. Mas manifestações deve tomar cuidados para não ultrapassar os limites do bom senso e atacarem a instituição.

O pior é que grupos de apoiadores de Jair ainda prestam um desserviço ao seu líder quando atacam o STF. Toffoli deu uma grande ajuda ao primogênito do presidente ao suspender a investigação que envolve ele e seu ex-assessor Fabrício Queiroz. Se ela continuasse, em breve, o faz-tudo da família Bolsonaro teria que depor, acompanhado de seus sigilos fiscal e telefônico quebrados, o que poderia ser complicado para a primeira-família. Afinal, há indícios do uso de Queiroz como laranja e há uma relação do roleiro com o Escritório do Crime, milícia do Rio de Janeiro, que precisa vir à luz.

Pensando melhor, continuem. Talvez assim o STF deixará de ser uma corte relutante diante do atual governo e temerosa das mensagens enviadas por representantes das Forças Armadas e passe a agir sempre como uma Suprema Corte.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.