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"Peixe é inteligente, desvia do óleo": PSOL pede convocação de secretário

Leonardo Sakamoto

01/11/2019 19h19

Praia em Maragogi (AL), atingida pelas manchas de óleo. Foto: Carlos Ezequiel Vannoni/Agência Pixel Press/Folhapress

"Queremos convocar o secretário da Pesca do governo Bolsonaro para perguntar a ele sobre os estudos científicos que apontam que os peixes são tão inteligentes que são incapazes de ingerir petróleo."

O deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) afirmou ao blog que seu partido está entrando com um pedido de convocação do secretário da Aquicultura e Pesca, Jorge Seif Júnior, ligado ao Ministério da Agricultura, para que explique na Comissão de Defesa do Consumidor, da Câmara dos Deputados, a razão de ter liberado o consumo de pescado da área afetada pelo vazamento de óleo no Nordeste sem estudos que embasassem tal decisão. Teme que isso leve a um problema de saúde pública.

Biólogos têm pedido cautela à população uma vez que não há estudos o bastante para afirmar que não houve contaminação de peixes e frutos do mar, tanto pelo contato direto quanto pelo comprometimento de sua cadeia alimentar. Pesquisadores têm encontrado óleo nas vísceras de animais.

"O peixe é um bicho inteligente. Quando ele vê uma manta de óleo ali, capitão, ele foge, ele tem medo", disse Seif, nesta quinta (31), ao lado do presidente da República, em sua live semanal nas redes sociais. "Então, obviamente que você pode consumir seu peixinho sem problema nenhum. Lagosta, camarão, tudo perfeitamente sano."

"Obviamente, de vez em quando fica uma tartaruga ali na mancha de óleo – para não falar que ninguém fica, né? Um peixe, um golfinho pode ficar, mas tudo bem", disse o secretário. As reações nas redes sociais à declaração do secretário da Pesca dividiram-se entre a revolta, o riso e a incredulidade nesta sexta (1).

"O problema é sério. Por um lado, temos a questão do consumo de pescado por uma população que está com medo de ingerir produtos contaminados. Mas, por outro, temos o desemprego dos pescadores no Nordeste, uma vez que não estão conseguindo passar adiante os peixes exatamente porque o povo está apavorado", explica Ivan Valente.

"Ao invés de buscar acalmar a população, informando que estudos científicos ainda estão sendo conduzidos por universidades e pela Anvisa sobre o impacto nos peixes e frutos do mar e sobres os limites de consumo adequado, ele dá uma declaração dessa." De acordo com Ivan Valente, além de ser uma questão econômica e de saúde pública, um declaração como essa também afeta o direito do consumidor, que pode estar sendo enganado.

O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) informou ao blog que recomenda que os produtos oriundos daquela área devem ser consumidos com cuidado. Orienta aos consumidores que fiquem atentos às mercadorias e exija de seu fornecedor a origem do pescado. Lembra que o Estado deve zelar pela qualidade dos alimentos que estão no mercado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.