Topo
Blog do Sakamoto

Blog do Sakamoto

Categorias

Histórico

Da hiena ao peixe esperto: Top 8 do louco roteirista do Brasil nesta semana

Leonardo Sakamoto

02/11/2019 16h16

O roteirista imaginário da pornochanchada chamada "Brasil" superou-se nesta semana. Mesmo para os padrões tupiniquins, o país viveu dias de fúria que fariam parecer harmonioso e cheio de sentido o final de Game of Thrones. Para quem trabalha reportando e analisando a realidade, restou a resignação de nem bem entender um fato e já ser atropelado por outro, que vinha com o farol apagado na contramão.

A grande dúvida é: com a cobertura jornalística e o debate público dedicando-se a várias frentes simultaneamente, o que o governo deixou nas sombras? Abaixo, um pequeno apanhado do que aconteceu.

 1) Bolsonaro chama STF e bispos católicos de hienas

A semana abriu, na segunda (28), com um vídeo postado nas redes sociais de Jair Bolsonaro, comparando o presidente a um leão acossado cercado de hienas – animais carniceiros e que comem cocô. Elas representavam o STF, os partidos políticos (inclusive o PSL), os advogados da OAB, os bispos católicos da CNBB, a imprensa, entre outros. O leão era salvo por um outro, identificado como "conservador patriota" e, depois, trocavam afagos. Ministros do Supremo reagiram com irritação. No dia seguinte, Bolsonaro pediu desculpas, afirmando que o vídeo foi publicado por terceiros. Seu filho, Carlos Bolsonaro, retrucou – para ele, havia sido o presidente. Como consequência, um grupo de manifestantes cercou o carro de Dias Toffoli, nesta quarta (30), bateu na lataria e estendeu uma faixa "Hienas do STF".

2) O Condomínio dos Artistas

Portaria do condomínio Vivendas da Barra, onde mora Jair Bolsonaro. Foto: Pablo Jacob/Agência O Globo

Bolsonaro teve seu nome mencionado na investigação sobre a execução da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. O porteiro de seu condomínio afirmou que um dos acusados, Élcio Queiroz, no dia do crime, teria dito que iria à casa do presidente, mas acabou indo para a residência de outro dos acusados, Ronnie Lessa. Sim, eles são vizinhos. Outro Queiroz, o Fabrício, amigo do presidente, tem relações com membros do Escritório do Crime, milícia a que pertence os dois acusados. O Jornal Nacional revelou os depoimentos, bem como uma planilha, ressaltando que o presidente estava em Brasília – ao contrário do que disse o porteiro.

3) "Canalhice e patifaria", um surto das arábias

Reprodução: Facebook

Bolsonaro transmitiu uma live, a partir do hotel em que estava na Arábia Saudita, para retrucar a reportagem. Havia sinceridade, mas também planejamento. O tom de sua fala subia a cada vez que ele colocava os óculos e lia a orientação de alguém que estava por atrás da câmera do celular. O destempero, acima do tom até para o histórico do presidente, pode ter sido calculado para gerar o engajamento de sua militância e ajudar a reforçar sua narrativa, de que não houve ligação, nem autorização de entrada para Élcio. Xingou (muito) a TV Globo e insinuou que talvez a concessão da emissora não fosse renovada. E soltou os cachorros para cima do governador do Rio, Wilson Witzel, a quem acusa de vazar a história.

4) Sobrou para o porteiro

Dias Toffoli, Bolsonaro e Moro na posse de Augusto Aras, como novo procurador-geral da República. Foto: Isac Nóbrega/PR

Sérgio Moro, ministro da Justiça, e Augusto Aras, procurador-geral da República reagiram, protegendo o presidente. O primeiro pedindo para tomar novo depoimento do porteiro, o segundo apressando-se em dizer que tudo isso era um "factóide". Em coletiva à imprensa, três promotoras do Ministério Público do Rio de Janeiro afirmaram que os depoimentos do porteiro não batiam com as evidências. Citaram áudios que mostram conversas da portaria do condomínio, sem que a tal ligação para a casa 58 do presidente, autorizando a entrada de um dos acusados, estivesse listada. Seguidores dor Bolsonaro vieram à carga, chamando a imprensa de golpista.

5) Portaria Hits: Um caroço no angu 

Promotora Carmen de Carvalho, com camiseta de Bolsonaro e ao lado do deputado que quebrou placa com o nome da vereadora, acabou saindo do caso Marielle. Fotos: Instagram

Contudo, no dia seguinte, elementos mostraram que há caroço nesse angu. Primeiro, ficamos sabendo que uma das promotoras do caso teve sua imparcialidade questionada. Vazaram imagens de Carmen Bastos de Carvalho fazendo campanha por Bolsonaro e em que aparece abraçada com o deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL), que rasgou uma placa com o nome de Marielle Franco após sua morte. Além disso, descobriu-se que a perícia do MP-RJ nos áudios foi feita nas pressas, que eles não foram colhidos do computador do condomínio, mas entregues de forma voluntária através de um CD e que peritos independentes disseram que era impossível verificar se algo não foi mexido ou apagado. Como cereja do bolo, Bolsonaro disse, neste sábado (2), que havia feito cópia nos arquivos de áudio para que não fossem adulterados (ou seja, teve acesso às provas). Com isso, a oposição deve representá-lo por obstrução de Justiça. Após longa reunião no MP-RJ, em que colegas pediram para a promotora se retirar do caso, ela teria saído "voluntariamente".

6) Caía a tarde, feito um viaduto…

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e seu pai, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro – Sergio Lima/AFP

O deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho 03 do presidente, mas o primeiro na linha sucessória da família real, afirmou em entrevista à jornalista Leda Nagle, gravada no dia 28 e veiculada no dia 31, que, caso houvesse manifestações como no Chile, "uma resposta pode ser via um novo AI-5". Ele se referiu ao ato institucional que, em 1968, deu poderes à ditadura militar para fechar o Congresso, cassar direitos, censurar a arte e o jornalismo, descer o cacete. Após repercussão negativa, ele se desculpou, mas partidos pedem sua cassação mandato por atacar a democracia.

7) Peixe para ministro do Meio Ambiente

Praia em Maragogi (AL) impactada pelas manchas de óleo. Foto: Carlos Ezequiel Vannoni/Agência Pixel Press/Folhapress

"O peixe é um bicho inteligente. Quando ele vê uma manta de óleo ali, capitão, ele foge, ele tem medo", a declaração foi dada por Jorge Seif Júnior, secretário da Pesca do Ministério da Agricultura, nesta quinta (31), ao lado do presidente da República, em sua live semanal nas redes sociais. "Então, obviamente que você pode consumir seu peixinho sem problema nenhum. Lagosta, camarão, tudo perfeitamente sano." Ou seja, liberou o consumo à população, preferindo confiar na inteligência do peixe (ignorando que o alimento dos peixes pode estar contaminado) do que em pesquisas científicas – que ainda estão em curso. Além do peixe, outra coisa não cheirou bem: Bolsonaro ordenou que o governo federal não assinasse mais a Folha de S.Paulo em represália pelas reportagens do jornal.

8) Pau-de-arara como estímulo ao servidor público

Na mesma live, Bolsonaro disse que "quem quer atrapalhar o progresso, vai atrapalhar na Ponta da Praia". Ele se referia a servidores públicos que estariam demorando para conceder licenças para um empreendimento. Disse que não mandava neles, mas se pudesse, "cortaria a cabeça". "Ponta da Praia" se refere à base da Marinha na Restinga de Marambaia, no Rio, que teria sido usada como centro de interrogatório, tortura e execução durante a ditadura. O uso da expressão ocorreu na mesma quinta (31) na qual seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, foi criticado por afirmar que o governo poderá criar um novo AI-5. Não é a primeira vez que o presidente a usa, tendo dito o mesmo a militantes do PT nas eleições.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.