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Quem Bolsonaro e Moro querem proteger no caso da portaria?, pergunta Freixo

Leonardo Sakamoto

02/11/2019 19h22

Foto: Rodolfo Buhrer/Foto Arena/Estadão Conteúdo

"Bolsonaro afirma que teve acesso aos áudios da portaria do condomínio em que mora. Seria mais uma estratégia para fortalecer a tática de Sérgio Moro para tirar as investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro e da Polícia Civil e levar para a Polícia Federal, sob seu comando? O que aparenta ser um despreparo do presidente pode ser uma estratégia. Quem querem proteger?"

A declaração foi dada ao blog pelo deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ), neste sábado (2), após o presidente Jair Bolsonaro afirmar, à imprensa, que havia recolhido os áudios das comunicações da portaria com as casas do condomínio. Investigações que envolvem o presidente da República devem ser feitas apenas pela Procuradoria-Geral da República e analisadas pelo Supremo Tribunal Federal. 

Despreparo? "Quantas vezes você viu um presidente afirmando que fez algo que não deveria ter feito? Parece tão evidente ser um despreparo que me leva a desconfiar que não seja", explica o deputado federal. O recolhimento dos áudios está sendo considerado obstrução de Justiça pela oposição ao governo no Congresso Nacional, que vai entrar com representação contra Bolsonaro.

"Nós pegamos [as gravações], antes que fosse adulterado ou que tentassem adulterar, pegamos lá toda a memória da secretária eletrônica – que é guardada há mais de ano. A voz não é a minha, não é do 'seu Jair'. Agora, o que que eu desconfio? Que o porteiro leu sem assinar, que é uma pessoa humilde, ou induziram ele a assinar aquilo. Agora quem está por trás disso? Governador, Wilson Witzel", afirmou Bolsonaro.

Bolsonaro teve seu nome mencionado na investigação sobre a execução da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. O porteiro de seu condomínio afirmou que um dos acusados, Élcio Queiroz, no dia do crime, teria dito que iria à casa do presidente, mas acabou indo para a residência de outro dos acusados, Ronnie Lessa. Sim, eles são vizinhos. Outro Queiroz, o Fabrício, amigo do presidente, tem relações com membros do Escritório do Crime, milícia a que pertence os dois acusados. O Jornal Nacional revelou os depoimentos, bem como uma planilha, ressaltando que o presidente estava em Brasília – ao contrário do que disse o porteiro.

"O caso Marielle tem quase 600 dias. A Polícia Civil e o Ministério Público do Rio de Janeiro, com todas as suas limitações, chegaram aos atiradores e desenvolvem suas linhas de atuação. Estranhamente, o ministro da Justiça, logo após o caso se aproximar da família do presidente, pede de forma açodada a federalização", afirmou Freixo. "O ministro Sérgio Moro, que nunca se manifestou no caso Marielle, disse que não tinha relação com isso e que as investigações eram estaduais. Por que esse súbito interesse?"

Freixo é do mesmo grupo político de Marielle e foi responsável pela vereadora entrar na política.

Na sexta (1), o ministro da Justiça, Sergio Moro, defendeu a federalização da investigação da execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. "Considerando a demora de identificação dos mandantes e essas reiteradas tentativas de obstrução da Justiça, talvez seja o caso realmente de federalização", afirmou.

A família e a viúva de Marielle, além de Freixo, divulgaram nota se colocando contra a retirada da Polícia Civil e do MP-RJ do caso. "Acreditamos que Sergio Moro contribuirá muito mais se ele permanecer afastado das apurações", afirmam.

Bolsonaro transmitiu uma live, a partir do hotel em que estava na Arábia Saudita, para retrucar a reportagem. De forma agressiva e violenta, negou as informações, xingou a TV Globo e insinuou que talvez a concessão da emissora não fosse renovada. E criticou o governador do Rio, a quem acusa de vazar a história. Sérgio Moro, ministro da Justiça, reagiu rapidamente para proteger o presidente, pedindo novo depoimento do porteiro pela Polícia Federal via ofício ao procurador-geral da República. Em coletiva à imprensa, três promotoras do Ministério Público do Rio de Janeiro afirmaram que os depoimentos do porteiro não batiam com as evidências. Citaram áudios que mostram conversas da portaria do condomínio, sem que a tal ligação para a casa 58 do presidente, autorizando a entrada de um dos acusados, estivesse listada.

Na quinta (31), elementos mostraram que a história está longe de se resolver. Primeiro, vazaram fotos de Carmen Bastos de Carvalho, uma das promotoras do caso, em que aparece fazendo campanha por Bolsonaro e no qual  surge abraçada com o deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL) – que rasgou uma placa com o nome de Marielle Franco após sua morte. Além disso, descobriu-se que a perícia do MP-RJ nos áudios foi feita nas pressas, que eles não foram colhidos do computador do condomínio, mas entregues de forma voluntária através de um CD e que peritos independentes disseram que era impossível verificar se algo não foi mexido ou apagado. Após longa reunião no MP-RJ, em que colegas pediram para a promotora se retirar do caso, ela teria saído "voluntariamente".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.