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Augusto Nunes ensinou hoje que a falta de argumentos se resolve na porrada

Leonardo Sakamoto

07/11/2019 20h32

O jornalista Augusto Nunes bateu no jornalista Glenn Greenwald, ao vivo, no programa Pânico, da rádio Jovem Pan, nesta quinta (7). Greenwald havia o chamado de covarde diversas vezes por ter usado seus filhos pequenos no intuito de criticá-lo. Nunes resolveu provar que Greenwald estava certo e partiu para cima. Com isso, ensinou a seus muitos seguidores e fãs que, no limite, a falta de argumentos pode ser compensada por tapas e socos.

Ver um jornalista agredindo fisicamente um entrevistado é uma cena deprimente. Coloca em xeque a credibilidade do profissional, da equipe do programa e da própria emissora, que emitiu uma nota na qual pede desculpas a Glenn. Mas tão deprimente quanto é ver a reação selvagem de quem não gosta do editor do site The Intercept Brasil por conta de sua cobertura crítica ao governo Jair Bolsonaro. Ou de quem ficou irritado com a divulgação dos diálogos que expõem os bizarros mecanismos usados pela força-tarefa da operação Lava Jato e pelo então juiz federal Sérgio Moro. Sim, a cena juntou o naco mais agressivo de bolsonaristas e lavajatistas contra o jornalista.

O chorume correu solto pelas redes sociais. Apareceram pessoas alucinadas, dizendo que Greenwald deveria ter apanhado até sangrar ou que precisaria ser deportado. Políticos defenderam o agressor. Em uma situação normal, todos criticariam duramente o ocorrido, mas banalizamos a violência física como instrumento político.

O Brasil vem caminhando, desde 2013, para um estado de ultrapolarização. Desumanizamos quem defende posicionamentos diferentes dos nossos, defendemos que sejam calados e extirpados. À força, se necessário.

Após a execução da vereadora Marielle Franco, muitos foram os idiotas que celebraram ou minimizaram o horror de sua morte. O ataque a tiros aos ônibus da caravana que o ex-presidente Lula realizou na região Sul seria rechaçado por todos em qualquer democracia decente – o que não foi o caso por aqui, dada a quantidade de comemorações. A abominável facada sofrida por Bolsonaro foi lamentada por pessoas estúpidas que queriam que Adélio Bispo tivesse terminado o serviço. O músico Moa do Catendê, eleitor de Fernando Haddad, foi morto a faca por um eleitor de Bolsonaro, em Salvador, para júbilo de mentecaptos. Rodrigo Janot, ex-procurador-geral da República, diz que foi armado ao Supremo Tribunal Federal para matar o ministro Gilmar Mendes e ignorantes o chamaram de herói.

Como já disse aqui, o clima de ódio político é apenas o capítulo mais recente de um país cuja fundação foi feita em cima do sangue de negros, indígenas e pobres. Um país com um rosário de homens que estupram e matam suas companheiras e filhas em nome daquilo que eles chamam "honra", mas que – de fato – é só "covarde feminicídio" mesmo. Um país que discute, neste momento, uma lei que facilita o porte e a posse de armas para resolver a ausência do Estado.

Quem lê este blog sabe que tenho escrito há anos que esse ódio seria absorvido pelo cotidiano. Glenn Greenwald é uma figura pública que foi agredida por outra figura pública. Mas, diariamente, jovens rapazes de uma escola se juntam para dar "corretivos" nas colegas feministas e mostrar quem manda junto às outras mulheres do bairro. Fazendeiros se juntam para atacar fiscais e movimentos de sem-terra, indígenas, quilombolas, ignorando decisões judiciais. Milicianos recriam grupos de extermínio para fazer valer a sua ordem. Empresários pagam para remover a população em situação de rua e os sem-teto de seu entorno. Grupos homofóbicos se juntam para atacar baladas do público LGBTTQ+ e grupos racistas partem para o ataque a rapazes negros que voltam à noite para casa após o trabalho. Grupos vão atrás de jornalistas e de opositores políticos, que insistem em dizer o contrário do que o grupo de WhatsApp ensinou.

Munidos com o ódio que fermentaram ao longo do tempo e com a sensação de estarem fazendo um serviço público, agem para "dar um jeito na escória". Como sempre digo aqui, não são as mãos dos líderes políticos, sociais, econômicos e comunicadores que atacam, mas é a sobreposição de seus argumentos, a escolha que faz das palavras ao longo do tempo e o exemplo que trasnsmitem que distorcem a visão de mundo de seus seguidores e tornam o ato da violência banal. Suas ações e palavras redefinem, lentamente, o que é ética e esteticamente aceitável, visão que depois é consumida e praticada por terceiros. Estes acreditarão estarem fazendo o certo, quase em uma missão civilizatória ou divina, e irão para a guerra.

Discordo frontalmente das ideias de muita gente, mas ninguém deve ser impedido de falar. A liberdade de expressão não aceita censura prévia e prevê a responsabilização judicial posterior. Pois a partir do momento em que o debate é interditado pela violência, a sociedade é ferida de morte.

A discussão não é entre direita e esquerda, mas entre civilização e barbárie. E, antes que seja tarde demais, deve ser tratada de frente pela política, pela sociedade. Porque, dependendo do que aconteça, não são apenas mortos e agredidos que teremos deixado pelo caminho. Mas nosso futuro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.