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Deputada viraliza ao bater de frente com Salles e Heleno no mesmo dia

Leonardo Sakamoto

08/11/2019 04h00

A deputada federal Sâmia Bonfim (PSOL-SP) tornou-se um dos assuntos mais falados desta terça (6). A razão: irritar dois dos principais ministros do governo Bolsonaro no mesmo dia.

Primeiro, Ricardo Salles, responsável pela pasta do Meio Ambiente, durante audiência pública na Câmara dos Deputados para tratar do vazamento de óleo – que já é a maior tragédia ambiental em extensão da história do litoral brasileiro. O vídeo em que a deputada dá uma bronca em Salles viralizou nas redes sociais. O ministro saiu sem responder as dúvidas de todos os parlamentares.

"Desde o início da nossa audiência pública, o senhor carrega esse sorrisinho irônico. Mas enquanto o senhor sorri, ri à toa, milhares de trabalhadores nordestinos estão tendo sua fonte de renda e sua atividade econômica prejudicadas em função dessa tragédia sem precedentes no litoral nordestino. São pescadores, marisqueiros, pequenos comerciantes, trabalhadores de rede de hotelaria, sem contar tantas outras pessoas que estão tendo sua saúde exposta porque tiram no braço o óleo que toma conta do litoral enquanto vossa excelência demorou, pelo menos, 41 dias para instalar o plano nacional de contingencia." O restante da intervenção pode ser visto abaixo:

Deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) critica ministro Salles em sessão

UOL Notícias

Depois, foi o general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. Ambos protagonizaram um bate-boca após ela ter cobrado dele um posicionamento sobre as declarações do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que sugeriu um novo AI-5 caso a esquerda se radicalizasse. O ato institucional, baixado pela ditadura em 1968, possibilitou ao Palácio do Planalto fechar o Congresso, cassar direitos, censurar a população e descer o cacete. Na semana passada, Heleno, diante da declaração do filho 03 de Bolsonaro, não demonstrou repúdio, mas disse: "se [Eduardo] falou, tem de estudar como vai fazer, como vai conduzir".

Sâmia lembrou que a falta de condenação dessa ideia por parte de Heleno flertava com a possibilidade disso acontecer novamente. Negando-se a repudiar a declaração e irritado com a insistência da deputada, o general resolveu escapar usando uma ironia com métodos usados por militares na ditadura – "a senhora vai me torturar porque eu não quero falar?"

Nascida em 1989 e natural de Presidente Prudente, interior de São Paulo, Sâmia Bonfim é formada em Letras e servidora pública. Foi eleita como a vereadora mais jovem de São Paulo, em 2016, sendo escolhida para deputada federal em 2018.

Você fez duras críticas ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e ao ministro-chefe do Gabinete e Segurança Institucional, general Augusto Heleno. Por que acha que esses episódios viralizaram nas redes sociais?

Viralizaram porque os dois ministros representam muito bem as piores faces do governo Bolsonaro. O Augusto Heleno por conta de seu aspecto autoritário – lembrando que isso foi logo depois da declaração do [deputado federal] Eduardo Bolsonaro, sobre a possibilidade de implementação de um novo AI-5. Com isso, ele só reforçou que essas ideias não são um ato falho do filho do presidente, mas fazem parte do núcleo do governo Bolsonaro. A repercussão foi grande porque preocupa muita gente, temos que lidar com um governo que poderia chegar a esse ponto, que flerta e elogia a ditadura militar, suas práticas de tortura e perseguição. E o Ricardo Sales representa outro aspecto do governo, que é o cinismo. Há uma certa psicopatia de um ministro que tira sarro e faz sorrisos irônicos, maltrata parlamentares que fazem questionamentos sérios sobre situação das praias do Nordeste, enquanto a população está sofrendo com derramamento de óleo, o pior de nossa história.

 

Eles esperavam um ambiente mais tranquilo?

Eles esperavam um ambiente mais simpático, subestimam as pessoas que pensam de maneira diferente deles. Acham que pessoas da oposição, principalmente parlamentares jovens, não têm capacidade de questionamento e desempenho paramentar. Foram pegos de surpresa por uma postura mais firme e contundente sobre as atrocidades que andam fazendo desde início do ano.

Como é o machismo no parlamento? E o preconceito sobre idade? São mais fortes com quem se declara à esquerda no espectro politico?

O machismo no parlamento é regra e vejo ele se expressando com todas as deputadas mulheres, com piadas e assédios. Através do público bolsonarista mais fanático, ele aparece no questionamento sobre a forma física das deputadas, da capacidade técnica de sua inteligência. É um pouco esse o estigma que eles querem colocar sobre todas as mulheres deputadas, sendo que é pior com as mais jovens. Eles acham que esse machismo e a valentia vai fazer com que paremos, voltemos atrás ou tenhamos medo, já que estamos começando agora. Sem dúvida, manifestações de machismo e misoginia é mais forte com as deputadas da esquerda porque a gente confronta mais o projeto e a postura autoritária e machista do governo Bolsonaro ou mesmo dos parlamentares que dão base de sustentação a ele.

Fala-se muito de renovação como solução para a política. Há um grupo de jovens deputadas que chegaram ao Congresso Nacional nesta legislatura, do qual você faz parte, que subverte o perfil tradicional. Como avaliam isso? Vocês têm um plano para a democratização do parlamento e da classe política?

O debate de renovação política pode parecer que é a solução para os nossos problemas, mas eu acho que não. Enquanto estrutura política for a mesma, enquanto as regras do jogo forem as mesmas, enquanto o poder econômico determinar quem pode e quem não pode ser político no nosso país, vai adiantar muito pouco ter caras mais jovens, pessoas que estejam mais conectados com os novos tempos, que usem mais as redes sociais, que tenham uma linguagem mais aberta. Porque a estrutura de dominação vai seguir existindo.

Mas também porque muitos desses grupos de renovação também são gato por lebre, apostam em figuras novas, carismáticas e bonitas, mas para reproduzir o mesmo conteúdo que se apresenta na política há décadas e séculos.

Mas, por outro lado, é inevitável que esses políticos mais jovens ganhem visibilidade porque um dos aspectos da crise política, da falta de representação, é justamente essa ideia de que são os mesmos fazendo as mesmas coisas há muito tempo. Para as eleições de 2020, nós que conseguimos chegar aqui – é tão difícil, quem conseguiu percorrer um caminho improvável, quem não é filho de político, não é apadrinhado por ninguém, não teve campanha milionária, foi eleito através de campanhas voluntárias, de movimentos de baixo para cima – devemos estimular e ajudar que outras pessoas percorram esse caminho. A gente precisa ajudar, dando força e visibilidade para outras pessoas ocuparem espaços, como nós conseguimos.

Pretende tentar disputar a Prefeitura de São Paulo em 2020?

Sou pré-candidata pelo PSOL à prefeitura de São Paulo. Claro, nenhuma definição foi feita, ainda é cedo para definir a tática eleitoral. Mas sou, porque tem a ver com meu perfil – uma mulher jovem, bem votada nas últimas eleições, fui a deputada de esquerda mais votada do Estado de São Paulo. E tem potencial para o crescimento do partido, enquanto uma campanha como movimento de referência para essas pessoas que estão se organizando nessa resistência contra bolsonarismo. Vamos ver até o ano que vem, muita água pode rolar, mas aceito esse desafio e esse debate que está sendo feito entre a militância, porque acho que as eleições 2020 podem ser uma oportunidade para impedir que o bolsonarismo cresça nas cidades, em especial na maior cidade do país.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.