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Livre, Lula faz sombra em Bolsonaro, que finge ignorá-lo

Leonardo Sakamoto

10/11/2019 08h46

Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, 7 de abril de 2018. Foto: Francisco Proner

Um ano e sete meses separam as duas fotos quase idênticas que abrem este texto. Na primeira, Lula é carregado após discurso de despedida no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), antes de se entregar à Polícia Federal para cumprir pena em Curitiba. Na segunda, Lula é carregado após discurso de retorno, no mesmo sindicato, um dia depois de deixar a prisão.

Essa não é uma repetição aleatória. Tirada propositadamente pelo inseparável fotógrafo do ex-presidente, a segunda imagem reforça a construção do mito e a jornada do herói. O migrante nordestino que passou fome e veio a São Paulo em um pau-de-arara, passando por provações e tornando-se chefe da nação, desceu ao seu inferno e, agora, retorna de forma apoteótica. Mais do que histórias de sucesso e superação, os brasileiros, criados no caldo da cristandade, gostam mesmo é de narrativas de renascimento.

Lula, que havia controlado a narrativa de sua prisão, dizendo onde e de que forma ela aconteceria, chegando ao ponto de pedir à militância em São Bernardo que o deixasse ir, uma vez que muitos queriam impedir a polícia de leva-lo, controlou a de sua saída. No carro de som, neste sábado (9), lembrou à multidão que havia dito, 581 dias antes, que teria que passar por mais essa provação, mas que estaria de volta. Para a ala de seus seguidores mais fiéis, era quase como se falasse "estava escrito".

Poderia ter optado pela progressão de pena, como ofereceu a própria força-tarefa da Lava Jato, ficando com tornozeleira em casa. Mas mirou a suspeição do então juiz Sérgio Moro, que ainda deve ser analisada pelo Supremo Tribunal Federal, com base nos diálogos juridicamente promíscuos revelados pelo site The Intercept Brasil. Isso pode anular sua condenação, tornando-o elegível novamente. E, por enquanto, colheu a liberdade sem restrições. Apesar de ter dito ao repórter Flávio Costa e a mim, em entrevista ao UOL, que a decisão sobre a inconstitucionalidade da prisão em segunda instância não lhe interessava, entrou com pedido de liberdade horas depois da decisão do STF, por 6 a 5.

Esperou e conseguiu o que quis. A seu favor, dizem que você reconhece um demônio por ele não ter paciência para jogar xadrez.

Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, 9 de novembro de 2019. Foto: Ricardo Stuckert

Guilherme Boulos, coordenador do Movimentos dos Trabalhadores Sem Teto, e João Paulo Rodrigues, coordenador do Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra, me disseram que, diante da atual conjuntura de desmonte dos direitos sociais por parte de Bolsonaro, a expectativa é de que Lula adote um comportamento mais à esquerda e combativo. Não há dúvida de que haverá pressão dos movimentos e organizações sociais para tanto. Da mesma forma, já ocorrem gestões para que reincorpore o conciliador "Lulinha Paz e a Amor", principalmente por parte de correligionários no PT preocupados com os julgamentos de seus recursos, com a unificação da oposição e com a busca ao centro perdido. Lula prometeu um pronunciamento à nação em 20 dias, o que deve ocorrer na abertura do congresso nacional de seu partido, quando dará a sua linha. Até lá, o único que sabe de Lula é Lula.

Também é cedo para saber o tom que irá adotar em suas caravanas, na reuniões e no rosário de entrevistas que ainda vai conceder a veículos internacionais – de acordo com a sua assessoria, pedidos estrangeiros se acumulam aos montes. Deve ser incômodo, aliás, para Jair Bolsonaro que o The New York Times dê mais atenção ao "presidiário do que ao presidente da República. Quem ficou assustado com os cacos que Bolsonaro e Lula soltaram no últimos dias é porque esqueceu que democracia é conflituosa – o que não deve ser é violenta. Mas essa é uma das maiores mudanças trazidas pela soltura de Lula: o atual presidente consegue atrair toda a atenção que deseja ao postar gracejos e tecer comentários, pautando a discussão pública, mesmo com coisas inúteis. O caso da golden shower está aí para não nos deixar mentir. Agora, ele e os filhos perderam o monopólio e terão que dividir espaço.

Como venho dizendo insistentemente neste espaço, o foco de Lula passa pela questão econômica do emprego e dos direitos sociais. Isso ficou claro pelos dois primeiros discursos e pela própria entrevista que nos concedeu.

"É a economia, estúpido!"

Alguns grupos de WhatsApp bolsonaristas divulgam, desde sexta, pedidos para que seus membros não compartilhem informações sobre Lula. "Comunicado – Não é mais permitido postagens dando ênfase a qualquer manifestação esquerdista/PT&Cia. Temos de enfraquecer a esquerda ignorando notícias tipo Lula Livre/Lula Solto etc nos nossos grupos" – diz uma das mensagens. Seguem a "Estratégia Dona Florinda", adotada pelo próprio Bolsonaro e pelo ministro Sérgio Moro ao se pronunciarem apenas para dar variações de "Venha, tesouro, não se misture com essa gentalha".

A maior parte dos brasileiros, que não é petista, nem bolsonarista, não está interessada em polarização, mas saber se terá um emprego decente, com direitos, como 13º salário e férias remuneradas; se vai ter creche e escola com merenda para todos os filhos; se a fila no hospital vai diminuir ou aumentar. No limite, uma praia limpa, sem óleo, parta descansar no final do ano. Até aceita as estripulias e esquisitices da atual administração, desde que ela entregue o pacto supracitado. Leite é preciso; meme de mamadeira de piroca não é preciso.

Lula deixa a Polícia Federal, onde ficou preso 580 dias, em Curitiba. Foto: Denis Ferreira Netto/Estadão

Indo na contramão disso, o pacote de propostas econômicas apresentado pelo ministro Paulo Guedes congela aumentos reais do salário mínimo durante crises, torna possível descobrir um santo (educação) para cobrir o orçamento do outro (saúde) e condiciona direitos sociais (educação, saúde, alimentação, moradia, transporte, segurança, assistência…) à situação fiscal do governo. Dentre as dezenas de páginas de propostas, não há nada que se assemelhe a um projeto nacional para geração de postos formais de trabalho. Há críticas aos pacotes, porém elas encontram muito menos espaço que os elogios em boa parte dos jornais, sites, TVs e rádios.

Por isso, há quem diga que a oposição a Bolsonaro começa com a libertação de Lula. O que é um tanto quanto injusto a quem faz oposição racional e programática no Congresso Nacional e na sociedade civil. A diferença é que a oposição, agora, tem um nome forte que consegue amplificar as críticas à ação e inação do governo, furando bloqueios e reverberando dentro e fora do país. Mais do que isso: alguém que consegue traduzir essas críticas para o grosso da população – que não mora nem na Vila Madalena, nem nos Jardins, nem no Leblon, nem na Barra da Tijuca.

O governo Bolsonaro pode até não responder a Lula diretamente, mas as declarações do ex-presidente correm a imprensa e as redes sociais na forma de discursos, memes e frases de efeito. A equipe econômica será pressionada a começar a dar satisfações em português claro do que tem feito para melhorar a qualidade de vida do andar de baixo, da mesma forma que já presta, sistematicamente, ao grande empresariado. Se Guedes – chamado por Lula de "ministro demolidor de sonhos, destruidor de empregos" – não tiver uma ideia melhor do que criar a Carteira Verde e Amarela para desonerar a folha de pagamento de jovens e idosos, talvez o próprio Bolsonaro substitua Lula nas críticas a seu Posto Ipiranga antes das eleições municipais do ano que vem.

Por outro lado, uma das cobranças mais frequentes a Lula e ao PT é a apresentação de um novo projeto de país que se oponha ao bolsonarismo e não repita os erros econômicos do passado. Os petistas ouvidos por este blog reconheceram a dificuldade disso. Afinal, um dos principais recalls da esquerda é exatamente a lembrança da grande oferta de empregos até 2014. Oferecer um outro futuro é mais difícil do que destilar saudosismo pelo passado. A narrativa desse período e Lula são inseparáveis. O que significa que é, novamente, com ele – e através dele.

Lula, porta-voz da oposição

O ex-presidente mandou sinais ao PSOL no discurso, em São Bernardo, citando várias vezes o deputado federal Marcelo Freixo, que estava no caminhão de som, como a vereadora Marielle Franco – executada em março do ano passado. Entrou no debate carioca ao chamar o clã Bolsonaro de miliciano. Freixo pretende se candidatar a prefeito do Rio de Janeiro no ano que vem e espera contar com o apoio do PT. Lula disse, em entrevista ao UOL, que o seu partido deve ter candidato em todas as principais cidades do país, mas não descartou alianças – quer, contudo, que os aliados que forem cabeça de chapa garantam espaço para a defesa do partido.

A influência do ex-presidente segue praticamente inalterada junto aos políticos de esquerda, que buscam sua benção. Este blog postou, nesta sexta, que Lula cogitava morar no Nordeste, destacando uma declaração que ele havia dado ao jornal Brasil de Fato. Ele afirmou que, após a morte de Marisa Letícia, não havia nada que o prendesse a São Bernardo. Isso foi suficiente para Estados e municípios oferecerem-se para hospedar o ex-presidente. A região, um enclave vermelho, com quatro governadores (Bahia, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte) e outros cinco aliados, preferiu Fernando Haddad a Bolsonaro no ano passado. E também entrega ao atual presidente os piores índices de aprovação em todo o país – pesquisa Ibope, divulgada em 25 de setembro, mostra que apenas 20% avaliavam o governo como ótimo e bom no Nordeste, enquanto 47% o consideravam como ruim e péssimo.

Jair Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes durante cerimônia no Palácio do Planalto. Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Essas postagens com ofertas bastaram para que lideranças petistas do Centro-sul sugerissem a Lula que ele não deveria se afastar do triângulo São Paulo – Rio – Brasília, sob o risco de perder influência política. O conselho seria pertinente se vivêssemos nos anos 1950, sem comunicação instantânea e uma rede nacional de transporte aéreo. Isso confirma, contido, que Lula continua sendo o grande eleitor da esquerda.

Na entrevista com Lula, ainda na Polícia Federal, em Curitiba, o UOL fez duas perguntas que estão relacionadas à visão que ele tem do futuro dessa esquerda. A primeira, é se ele permite renovação no partido, "passagem de bastão". Respondeu que isso já existe, com secretaria de jovens, entre outras ações. Lula entendeu o que questionamos, apenas preferiu não responder objetivamente. Da mesma forma, perguntamos se aceitaria ser candidato à vice-presidente, como Christina Kirchner foi em sua bem-sucedida chapa na Argentina. Ele riu, disse que está disposto a não ser candidato a nada mais em sua vida e atuar só como cabo eleitoral. A resposta vale para quem está com os direitos políticos suspensos – situação que luta para reverter. Inelegível ou não, Lula fala como candidato para 2022. E boa parte de seu entorno também defende isso ou não tem coragem de dizer o contrário.

O líder petista continua sendo, ao mesmo tempo, fortaleza e calabouço da esquerda. É onde ela acaba buscando refúgio e força quando atacada ou em momentos de crise. Mas onde, consequentemente, acaba ficando presa.

Isso deve ser explorado, especialmente, por outros políticos que não reconhecem em Lula o papel de porta-voz da oposição, como Ciro Gomes. Enquanto esteve preso, o ex-presidente e o ex-governador trocaram farpas. Algumas mais leves. "Assisti a 'Central do Brasil' e vi a Fernanda Montenegro tentando ajudar aquele menino nervoso, rebelde. Lembrei do Ciro. Ela convenceu o menino, levou o menino à família e depois foi embora. Gostaria que o Ciro permitisse que eu fosse a Fernanda Montenegro dele", disse Lula ao UOL. No que Ciro rebateu: "O personagem é de uma pessoa muito desonesta, que recebe dinheiro de pessoas pobres e analfabetas para escrever cartas por elas. Joga as cartas fora e guarda o dinheiro. A criança, ela começa a negociar para vender os órgãos. É um ato falho". Mas há esperança porque ambos discutem em cima de Central do Brasil e não de Game of Thrones.

Fechamento do STF

Steve Bannon, líder de um movimento que promove a expansão da extrema direita em todo o mundo e ex-estrategista da campanha de Donald Trump, afirmou a Ricardo Senra, da BBC, que "Lula é o esquerdista o mais celebrado da história do mundo" e sua principal referência após a saída de Barack Obama da Presidência dos Estados Unidos. "É um dos políticos e indivíduos mais cínicos e corruptos." Demonstrando preocupação com a libertação do brasileiro, afirmou que Lula pode tentar parar o movimento de reformas de Bolsonaro. A figura controversa (para dizer o mínimo) de Bannon não é unanimidade na direita, portanto, não agrega muito ao governo internamente. Mas mostra que 580 dias de prisão não depreciaram o patrimônio simbólico de Lula com a direita antiglobalista global. 

Lula concede entrevista à Folha de S.Paulo e ao jornal El País, na sede da Polícia Federal, em Curitiba. Foto: Marlene Bergamo/Folhapress

Declarações como essas contribuem com a batalha da extrema direita ruidosa, cujo engajamento é peça-chave para um governo que pretende manter a campanha eleitoral acesa até o seu último dia, fomentando um estado de apreensão constante para a coesão de sua guerra política visando à sua revolução particular. Bolsonaro manteve sua comunicação no mesmo estado bélico com o qual ganhou as eleições, apostando em uma guerra prolongada para manter os apoiadores unidos contra seus "inimigos". Que, a princípio, foram personificados no PT e na esquerda, mas abrangem todos aqueles que se oponham à sua família – o que inclui deputados federais e senadores (aliados ou adversários), ministros do STF, jornalistas, organizações-não governamentais, artistas, intelectuais e até inimigos imaginários. Agora, a representação perfeita do inimigo foi solta – o que, claro, facilita a narrativa do outro lado. 

Isso ocorre em um momento em que parte do debate público caminha em direção à indigência. Garantimos espaço para os que defendem que "fazer política é escroto" e os que usam a democracia para pedir o fim da própria democracia, defendendo saídas rápidas, vazias e autoritárias. Neste sábado (9), em várias capitais do país, o chorume correu solto através do naco que pediu fechamento do STF entre aqueles que se manifestaram pela prisão após condenação em segunda instância.

Esse comportamento das ruas está em consonância com as declarações "Se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Manda um soldado e um cabo" e "Se a esquerda radicalizar a esse ponto, a gente vai precisar ter uma resposta. E a resposta, ela pode ser via um novo AI-5", proferidas pelo deputado federal e filho do presidente, Eduardo, enquanto Lula esteve preso. O problema é que a falta de punição por parte das instituições competentes a esse tipo de incitação fertiliza o terreno para que outras surjam. Nesse sentido, a culpa não é da polarização, mas de um Estado catatônico.

Por fim, Bolsonaro criticou as manifestações de rua no Chile, afirmando que subvertem a democracia. Lula, neste sábado, pediu para a população ir às ruas, como no Chile, afirmando que isso é a efetivação da democracia. "Inoculação" foi o termo que ouvi para esse paralelismo, ou seja, contrapor interpretações para evitar um bombardeio de pensamento único. Teremos muito disso nos próximos meses. Dentre o fogo cruzado entre diferentes narrativas, vale torcer para que as pessoas consumam informação de forma responsável. Caso contrário, isso aqui será – parafraseando a pulseirinha que o ministro Paulo Guedes usou no Congresso Nacional – o apocalipse.

Em tempo: O que continua intrigando é quem chama juiz, ministro ou político – de esquerda ou direita – de herói. Ao ser transformado em símbolo de algo maior por uma parcela da sociedade, uma figura pública acaba sendo alvo da projeção de muitas qualidades e poucos defeitos. Construção que ocorre de forma espontânea ou dirigida, acaba tornando a pessoa, mais do que referência em uma certa área, bandeira de toda uma ideia. Claro que a construção desses mitos passa pela ação da própria pessoa e de seu entorno. Quando um desses "heróis" é criticado, seus fiéis encaram isso não como uma discussão sobre falhas de um indivíduo, mas como um ataque ao conjunto dos valores que a figura passou a representar. Questiona-la, portanto, equivale, a colocar em dúvida as crenças pessoais dos que o seguem cegamente. Dessa forma, muita gente age como cão de guarda da biografia alheia, interditando qualquer debate, inclusive os saudáveis, que envolve seus ídolos. A questão central não é ter heróis, mas como eles podem turvar a visão se esquecermos a autocrítica. E fazer com que mordamos os nossos semelhantes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.