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Parabéns, Bolsonaro! Desmatamento saltou 30% na Amazônia, como você queria

Leonardo Sakamoto

18/11/2019 13h20

Nuvens de fumaça durante um incêndio em uma área da floresta amazônica perto de Porto Velho. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Pior do que um governo que estimula o desmatamento da Amazônia com seus discursos e ações é um governo que, quando colocado contra a parede, não tem coragem de assumir o que faz. E como um criança mimada quando leva bronca, diz que é mentira ou transfere a culpa para os outros – indígenas, ribeirinhos, governadores, fiscais, a imprensa, ONGs.

O governo Bolsonaro passou meses afirmando que os dados do Deter, sistema que produz alertas diários de alteração na cobertura vegetal, eram imprecisos e que se fazia necessário esperar os resultados do Prodes – inventário de perda de floresta feito anualmente. Pois bem, eles foram divulgados, nesta segunda (18), mostrando que houve um aumento de 29,5% na perda de cobertura florestal entre agosto de 2018 e julho de 2019 em comparação ao mesmo período anterior.

Tomando como referência apenas o período eleitoral (agosto a outubro), o desmatamento cresceu 48,8% em relação ao período anterior, como destacou Fabiano Maisonnave, na Folha de S.Paulo. Isso não é coincidência. Grileiros, madeireiros, garimpeiros, pecuaristas colocaram a floresta abaixo acreditando nas promessas do então candidato Jair Bolsonaro, de que ele iria colocar um cabresto na fiscalização.

"Os números do Prodes mostram que o desmatamento saiu do controle. E pior, mais de 90% é ilegal. É algo tão inconcebível como a perda do controle de inflação. É injustificável quando o país conta com o conhecimento e as ferramentas para combater o desmatamento, mas o governo se esquiva de usá-los", afirmou Tasso Azevedo, coordenador técnico do Observatório do Clima, em nota pública.

Desde o início do ano, Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, conseguiram enfraquecer os órgãos e sistemas de fiscalização e monitoramento, o que facilitou o aumento na destruição do bioma amazônico. O anacrônico naco do agronegócio celebrou a sensação de liberdade para derrubar e queimar vegetação nativa, expulsar e aterrorizar indígenas e outras populações tradicionais, manter o ciclo da grilagem de terras e da zorra fundiária e cometer concorrência desleal e dumping socioambiental, dando uma rasteira nos empresários que agem dentro da lei. Noves fora o trabalho escravo – simultaneamente ao aumento no desmatamento, também houve resgates de trabalhadores atuando na derrubada de árvores nativas por auditores fiscais do trabalho, procuradores do trabalho, policiais e defensores públicos.  

Garimpeiros e madeireiros fecharam rodovias para chamar a atenção de Jair diante de tentativas dos órgãos de fiscalização de combaterem o aumento nas queimadas – etapa seguinte ao desmatamento. Ouviram palavras de carinho do presidente da República, enquanto os fiscais eram criticados e deixados à sua própria sorte.

Bolsonaro chegou a dizer, em uma de suas lives semanais, que "quem quer atrapalhar o progresso, vai atrapalhar na Ponta da Praia". Ele se referia a servidores públicos que estariam demorando para conceder licenças para um empreendimento na região Sul. Disse que não mandava neles, mas se pudesse, "cortaria a cabeça". "Ponta da Praia" se refere à base da Marinha na Restinga de Marambaia, no Rio, que teria sido usada como centro de interrogatório, tortura e execução durante a ditadura. 

Ele falou grosso com mandatários estrangeiros, lambuzou-se na piscina do conspiracionismo e da paranoia, onde seus seguidores mais fiéis se sentem bem. Disse que as críticas à (falta de) política para a Amazônia era um ataque à nossa soberania. Enquanto isso, convidou Donald Trump para vir explorar economicamente a região.

Bolsonaro e Salles talvez não contassem com o fato de serem tão bem sucedidos na empreitada. A ponto de chamarem a atenção de todo o mundo civilizado para o Brasil. O país, que já foi considerado uma referência global em política ambientais, passou a ser visto como um líder terraplanista do desenvolvimento predatório. A reação de países, empresas e sociedade civil levou ao medo de perder mercados e investimentos, produzindo uma retórica covarde, que negou a maior conquista de seu governo até agora.

Bolsonaro e Salles juram de pés juntos que o país continua protegendo o meio ambiente e caminhando na direção de um desenvolvimento sustentável. É como se, alguém coberto de cocô – para aplicar um termo amplamente usado na retórica presidencial – chamasse de produtor de fake news quem não dissesse que o cheiro era é de lavanda.

Em setembro, durante seu discurso na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, não corou quando disse que o seu "governo tem compromisso solene com o meio ambiente", escondendo a responsabilidade de pecuaristas, madeireiros, grileiros e garimpeiros nas queimadas e culpando populações indígenas e pequenos produtores rurais. Creditou a "ataques sensacionalistas da mídia" a repercussão negativa e afirmou que o debate sobre a Amazônia despertou "nosso sentimento patriótico". Chegou ao limite de dizer que "acabou o monopólio do senhor Raoni", acusando o líder caiapó, que é referência em direitos de povos tradicionais e na defesa do meio ambiente, de ser manipulado por interesses estrangeiros.

Agora, o ministro do Meio Ambiente prometeu reuniões para discutir medidas para reduzir o desmatamento. Ao invés de gastar tempo fazendo esse jogo de cena, Bolsonaro deveria mandar imprimir esse número "29,5%" em uma camiseta e ter orgulho de sua criatura, assumindo-a publicamente. Ao invés de chamar dados de desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) de mentirosos e acusar cientistas de manipularem informações, como fez, seria mais bonito ver o presidente reconhecendo ao Brasil e o mundo que o país operou um milagre, retrocedendo 50 anos em poucos meses, ao adotar políticas ambientais da época da ditadura militar.

Bolsonaro deveria sair do armário e gritar a plenos pulmões "SIM, NÓS DESMATAMOS MESMO, TALKEY?"

Não creio que ele tivesse pudores em dizer isso uma vez que não corou ao afirmar "Pretendo beneficiar filho meu, sim", ao tratar da indicação do deputado federal Eduardo Bolsonaro ao cargo de embaixador em Washington. E não piscou ao dizer "Eu vou negar o helicóptero a ir para lá e mandar ir de carro?", ao justificar que uma aeronave das Forças Aéreas serviu como bonde para o casamento de seu filho. Quem já assumiu nepotismo, assume qualquer coisa. Inclusive a transformação do futuro em um inferno.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.