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Depoimento de porteiro à PF vale pouco após semanas de tortura psicológica

Leonardo Sakamoto

20/11/2019 22h53

Reprodução: Facebook

Poucas pessoas passam por tanta pressão quanto o porteiro do condomínio Vivendas da Barra, no qual residem um miliciano acusado de executar Marielle Franco, o presidente da República e um de seus filhos – vereador do município do Rio de Janeiro.

Em depoimento à Polícia Federal, nesta terça (19), ele disse que se enganou. Teria feito uma anotação equivocada no livro de visitas, registrando que o miliciano Élcio Queiroz, também acusado de matar Marielle, foi autorizado a entrar pela casa 58 – de Jair Bolsonaro – ao invés da casa 66 – de Ronnie Lessa, o outro miliciano. Era o dia 14 de março de 2018, quando ocorreu o assassinato. Para esconder o erro, o porteiro disse que inventou que falou com "seu Jair". A informação foi revelada por Lauro Jardim, do jornal O Globo.

Uma reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, no dia 29 de outubro, havia revelado que o porteiro citou, em depoimentos à Polícia Civil, uma autorização vinda da casa do presidente para que Élcio entrasse no condomínio e visitasse Ronnie. O presidente estava em Brasília, como mostram registros no Congresso Nacional.

Na mesma noite, Bolsonaro transmitiu uma live digna de Oscar a partir de um hotel na Arábia Saudita, onde estava em visita oficial, bufando contra a Globo e o governador do Rio, Wilson Witzel, como se estivesse surpreso com a informação. Cada vez que colocava os óculos e lia o que alguém sinalizava a ele por trás da câmara do celular, ficava mais colérico, como se um coaching ajustasse sua performance para o modo "indignação". Dias depois, ficamos sabendo que ele próprio compartilhou, com aliados, a informação que já sabia do conteúdo que foi ao ar.

Na sequência mobilizou as instituições da República para atuarem a seu favor. O Ministério da Justiça (Sérgio Moro) pediu à Procuradoria-Geral da República (Augusto Aras) para que o porteiro fosse investigado por obstrução de Justiça, falso testemunho e denunciação caluniosa. Bolsonaro isentou o empregado do condomínio de responsabilidade, dizendo que ele se equivocou ou não entendeu direito o que estava fazendo – declaração que foi interpretada como uma forma de coação à testemunha.

Um grupo de promotoras do Ministério Público do Rio de Janeiro fez uma coletiva à imprensa dizendo que registros em áudios mostravam uma ligação da portaria para a casa de Ronnie, autorizando a entrada de Élcio. Depois, descobriu-se que a perícia nos áudios foi feita pouco antes da coletiva, que o MP-RJ não havia periciado o computador, mas um DVD entregue voluntariamente pela administração do condomínio e que uma das promotoras é fã de Bolsonaro, tendo feito campanha aberta para ele nas eleições. Ela acabou se afastando das investigações.

O rosto do porteiro virou até capa de revista, com uma reportagem que expôs a casa onde ele mora e como estava seu cotidiano. O local é próximo de uma área de influência de milícia.   

O poder público vai ter que usar outras formas para reconstruir o que, de fato, aconteceu na portaria do condomínio na Barra da Tijuca, naquele 14 de março do ano passado.

Tudo isso pode ser um grande teatro para enganar os trouxas (nós) por alguma razão que nos escapa? Sempre pode, o roteirista do Brasil usa alucinógenos cotidianamente.

Presidente, ministro da Justiça, procurador-geral da República, promotoras estaduais, policiais federais, milicianos… 

Depois de tanta tortura psicológica, qual porteiro está falando a verdade? O de antes, que envolveu os Bolsonaros, ou o de agora, que os isentou? A pergunta não será respondida por seu depoimento, mas por mais investigação. Ou seja, se o inquérito não for engavetado por "força maior", a história está apenas começando.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.