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Escravas sexuais são resgatadas por curdos dos conflitos no Oriente Médio

Leonardo Sakamoto

01/12/2019 10h41

Hoshyar Malo, em evento na ONU sobre o Dia Internacional para a Abolição da Escravatura, observado pela relatora especial das Nações Unidas sobre o tema, Urmila Bhoola. Foto: Philippe Liondjo 

Genebra – "Noal era uma refugiada curda do Leste da Síria que foi ao Iraque. Um líder militar de alta patente a sequestrou, escravizou e estuprou por quase dois anos. Noal se tornou uma escrava sexual de um warlord [senhor da guerra]. Mas fugiu com a ajuda da nossa organização. Nós a escondemos por um tempo num local seguro. Depois, conseguimos documentos que, hoje, garantem a ela uma vida tranquila na Europa. Esteve na TV, há poucos dias, e agradeceu a todos nós – ainda que não pudesse dizer nossos nomes por questões de segurança."

O advogado Hoshyar Malo, nascido no Curdistão iraquiano, dirige a Kurdistan Human Rights Watch, uma das mais antigas organizações de defesa dos direitos humanos dessa região autônoma, em Erbil, norte do país. Uma de suas tarefas é ajudar a libertar e atender vítimas do trabalho escravo, como escravas sexuais, e prevenir que crianças sejam forçadas a se tornarem soldados. "Muitas das milícias e partidos políticos usam tudo o que podem na luta contra outras milícias, inclusive crianças-soldado", explica.

Atuam também com refugiados, deslocados internos e minorias, no treinamento de militares para os direitos humanos e no monitomento ao desrespeito à dignidade das pessoas. Atendem mais de 760 mil pessoas.

Hoshyar Malo conversou com o UOL antes de falar em um evento do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra, na Suíça, em comemoração ao Dia Internacional para a Abolição da Escravatura – celebrado anualmente no dia 2 de dezembro. Disse que quer saber mais do Brasil para além do futebol e seus jogadores. E lembrou que o trabalho deles evita o aumento do fluxo de refugiados para locais como o nosso país. "Espero que vocês possam compartilhar conosco alguns de seus sentimentos, experiências. E, talvez, suporte técnico, financeiro e treinamento."

Apesar de serem um dos principais grupos étnicos do Oriente Médio e estarem espalhados por uma região entre a Síria, Iraque, Irã, Turquia e Armênia, os curdos nunca tiveram um Estado próprio e qualquer tentativa nesse sentido – motivada pela discriminação que sofrem – tem sido violentamente oprimida. Foram uma das principais forças combatentes contra o grupo terrorista ISIS (Estado Islâmico) na região e um dos povos que mais sofreu com a guerra na Síria e no Iraque. Estimativas apontam para até 35 milhões de curdos.

"Acredito que se vamos ter um Estado, é melhor termos um 'Estado respeitoso'. É melhor ter um Estado que proteja a dignidade e os direitos humanos. Se continuarmos sendo uma região pertencente ao Iraque, com respeito aos direitos humanos, é melhor do que termos um estado ditatorial que não reconhece os direitos humanos", afirma.

Segue a entrevista:

As guerras dos últimos anos na região onde vivem os curdos aumentaram o número de pessoas escravizadas?

Como sempre, toda guerra contribui com o aumento da vulnerabilidade e o enfraquecimento das pessoas. Da mesma forma, com o crescimento da corrupção e das violências – entre elas, as formas contemporâneas de escravidão. Algumas implicações diretas da guerra como migrações e deslocamentos forçados, que levam muita gente a viver em barracas e campos de refugiados, deixam as pessoas mais expostas a serem vítimas de abuso e exploração. Essa situação também leva a mais trabalho escravo. Para além das mortes, durante as guerras todos os outros aspectos da vida param em qualquer lugar do mundo. O desenvolvimento para. Isso é algo sobre o qual sequer se pensa. Por ora, só queremos acabar com a guerra e, talvez, no futuro, o crescimento econômico possa entrar em pauta.

O objetivo imediato é sobreviver.

Isso. Nos contextos de crise humanitária, há sempre mais espaço para exploração e escravidão porque não há mais responsabilização. As pessoas fazem de tudo para sobreviver. Isso em qualquer lugar do mundo. E, claro, o Iraque e o Curdistão sofrem muito com esse tipo de situação.

Que formas de escravidão contemporânea ocorrem na região em que a sua organização trabalha?

Trabalho forçado, escravidão sexual, crianças e adolescentes trabalhando como escravos em milícias e forças armadas. Muitas das milícias e partidos políticos usam tudo o que podem na luta contra outras milícias. Temos provas que mostram o uso de crianças-soldado. A guerra, novamente, cumpre um papel negativo e faz a vida das pessoas envolvidas muito mais difícil.

Há alguma história de um sobrevivente da escravidão que te marcou?

A Noal – o nome é fictício por razões óbvias – era uma refugiada curda do Leste da Síria que foi ao Iraque, onde trabalhava num centro de massagem. Um líder militar de alta patente a sequestrou, escravizou e estuprou por quase dois anos. Noal se tornou uma escrava sexual desse oficial militar, fazendo tudo o que ele queria. Podemos considerá-lo um warlord [senhor da guerra] pelo seu poder. Quando a guerra começa, algumas pessoas se tornam grandes e ricas. Os auxílios internacionais que vêm ao Iraque em forma de armas são vendidos no mercado negro por algumas pessoas. Ele era uma delas, o que fazia com que tivesse boas relações com todos que buscavam se armar.

Noal decidiu fugir com a ajuda de amigos da nossa organização. Nós a escondemos por um tempo num local seguro. Depois, agradecidamente, com o apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, conseguimos documentos que, hoje, garantem a ela uma vida tranquila na Europa. Ela esteve na TV, há poucos dias, e agradeceu a todos nós – ainda que não pudesse dizer nossos nomes por questões de segurança. Eu fiquei muito feliz. Temos vários casos positivos como esse, mas, novamente, temos também muitos casos negativos que não conseguimos ajudar.

A resistência de Noal me lembrou que, antes da entrevista, você estava me contando da força das mulheres curdas, que participam do comando das forças militares.

Isso é parte da nossa história, parte da forma como nos criamos. O Curdistão é um pouco diferente de outros países árabes. Os curdos têm outra língua, outra cultura, a única coisa que os conecta aos países árabes é a maioria de religião islâmica. Mas, mesmo assim, temos nossas próprias práticas. Historicamente, mulheres são as responsáveis pela proteção da família e não os homens. Os homens dão maior suporte econômico, mas as mulheres são aquelas que lutam – literalmente – contra quaisquer perigos.

Recentemente, as mulheres lutadoras do Curdistão ganharam maior visibilidade através da mídia internacional. Achávamos que todos já sabiam, mas parece ser algo bastante novo para a comunidade internacional. Eles nos perguntam muito, por exemplo: "como podem mulheres no Oriente Médio estarem lutando contra o ISIS [Estado Islâmico]?" Na verdade, mulheres das forças armadas do Curdistão não são somente membros. Elas são lideranças. Conheço muitas delas.

Como é a questão de violência de gênero?

Promovemos treinamentos sobre violência de gênero, proteção contra exploração e abuso sexual, direitos humanos, direitos internacional humanitário, como lidar com crianças. Também sobre como manejar as armas – não sobre como atirar necessariamente, mas sobre os cuidados que devem ser tomados junto à população por contas das armas. Também estamos tentando estabelecer alguns mecanismos de reclamação e encaminhamento sobre violência de gênero. As forças armadas nunca foram treinadas para isso, então estamos fazendo.

Entre 2017 e 2019, fomos capazes de treinar quase 6 mil membros com o suporte do governo da Suíça. Conheço lideranças militares femininas que comandam mil homens e mulheres. Elas não ficam tímidas por terem homens sob seu comando, pois nos quadros militares, isso é hierarquia. Nós queremos – e agora falo como curdo – que nossas forças militares sejam respeitáveis, responsáveis, sistemáticas. Não acreditamos que podemos ficar como uma "milícia" para sempre.

Os curdos estão presentes na Turquia, Síria, Iraque, Irã, Armênia. Há curdos que lutam não só por autonomia nos países em que estão, mas pelo estabelecimento de um Estado soberano. Você acha que, com um Estado curdo, situações de trabalho escravo seriam mais bem combatidas?

Acredito que se vamos ter um Estado, é melhor termos um "Estado respeitoso". É melhor ter um Estado que proteja a dignidade e os direitos humanos. Se continuarmos sendo uma região pertencente ao Iraque, com respeito aos direitos humanos, é melhor do que termos um estado ditatorial que não reconhece os direitos humanos. O que nossa organização faz é se certificar que os direitos humanos estão protegidos – seja como Estado ou região.

Se ter um Estado nos ajudar a contar com maior proteção dos direitos humanos, então sim, seríamos favoráveis. Mas se um Estado nos fizer regredir em termos de direitos e liberdades, então não o apoiaríamos. Há dois anos houve um grande referendo no Curdistão e nós, enquanto organização, monitoramos o processo. Contamos com mil observadores sem apoio internacional, somente com nossos próprios esforços. Ele foi um bom passo para saber qual é a opinião dos curdos em relação a continuar sendo parte do Iraque ou ter um Estado soberano [mais de 90% dos 3,3 milhões que votaram defenderam a independência; o governo central iraquiano não reconheceu a votação].

E esse seria um Estado étnico curdo?

Pessoalmente, não gosto muito da ideia clássica de um Estado – com fronteiras, exército. Se pudéssemos construir uma boa economia e uma terra de liberdade, com a devida proteção aos direitos humanos, poderíamos, mesmo sem um Estado soberano, viver uma boa vida e ter a garantia que nossas crianças terão vidas ainda melhores. Essa deve ser a principal ideia. Agora, no século 21, você estabelecer um Estado étnico curdo para mim não faz sentido. É como reinventar algo que foi inventado há 200 anos atrás. Quer dizer, em pleno século 21, os curdos tentarem estabelecer algo somente para seu grupo étnico. Se quiséssemos estabelecer um Curdistão, deveríamos tê-lo feito 200 anos atrás, não agora em 2019.

O Brasil recebeu muitos imigrantes do Oriente Médio durante sua história. E, recentemente, veio nova leva de refugiados das guerras de sua região…

Qualquer violação de direitos humanos que aconteça em qualquer lugar do mundo afeta o planeta inteiro. Creio que é ruim para o Brasil e para a América Latina que as violações continuem no Iraque e na região do Curdistão. Há refugiados no seu país e, no final das contas, isso representa mais gastos, mais problemas e também mais exploração para eles. Por outro lado, também acredito que quando uma região prospera, o mundo inteiro prospera. Dirigindo-me aos brasileiros, minha mensagem é a de que vocês podem acreditar que há pessoas aqui na região do Curdistão e no Iraque que estão lutando por liberdade e contra o terrorismo. Em função desses problemas, muitos emigram como refugiados. Ajudem-nos. Sei que ao longo da sua história, o Brasil já passou por situações difíceis e as superou com êxito. Conhecemos, claro, o seu futebol e seus jogadores. Mas precisamos ir além. Espero que vocês possam compartilhar conosco alguns de seus sentimentos, experiências. E, talvez, suporte técnico, financeiro e treinamento. Gostaria de estar mais próximo do povo brasileiro, de sua cultura, de suas histórias de sucesso, da arte.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.