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Quem foi a melhor prefeita de SP? Lula diz Marta, Boulos fala em Erundina

Leonardo Sakamoto

02/12/2019 11h55

Foto: Valor Econômico

São Paulo teve duas prefeitas eleitas em sua história: Luiza Erundina (1989 a 1992) e Marta Suplicy (2001 a 2004). Ambas governaram pelo PT, saindo, posteriormente, por conta de desentendimentos com a cúpula do partido. Luiza passou pelo PSB e, hoje, está no PSOL. Marta passou pelo MDB e agora está sem partido.

Lula inseriu o nome de Marta no debate sobre a sucessão de Bruno Covas pela primeira vez em entrevista que concedeu a mim e a Flávio Costa, pelo UOL, quando estava preso na Polícia Federal, em Curitiba, em outubro.

O ex-presidente rasgou elogios à administração de Marta. Questionado se a convidaria a voltar ao PT, respondeu que não queria que ela tivesse saído e não gostou de perdê-la. Deixou as portas abertas para um retorno e afirmou que ela "continua sendo a prefeita mais bem avaliada de São Paulo".

Como Lula é um animal político, a mensagem foi compreendida no PT como um sinal de que trabalhava com a hipótese de tê-la como candidata a prefeita da capital paulista no ano que vem pelo partido ou disputando a vice através de uma chapa, talvez via uma sigla aliada. A ex-senadora é bem avaliada na periferia de São Paulo, região que o partido perdeu a hegemonia.

Fernando Haddad, que não deseja disputar a Prefeitura, mantendo-se no cenário nacional, vê com bons olhos o movimento.

Enquanto isso, Guilherme Boulos, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), prestou uma homenagem à Luiza Erundina, por conta do aniversário de sua correligionária neste sábado (30). "Paraibana, mulher que enfrentou a ditadura e a melhor prefeita que São Paulo já teve. Muita honra em caminhar contigo", postou em sua conta no Twitter.  

As palavras escolhidas não foram aleatórias. Como petistas (à exceção de Dilma Rousseff, responsável pela saída de Marta de seu governo) estão repetindo a ideia de Lula, apontando Marta como a melhor prefeita, Boulos marcou posição, elogiando outra administração petista, mais à esquerda no espectro ideológico, da época em que Paulo Freire era secretário municipal de Educação. Apesar de desconversar sobre o assunto, Boulos é cotado como um dos pré-candidatos do PSOL à Prefeitura de São Paulo. Ela é citada sempre como sua possível companheira de chapa.

Em 2012, Luiza Erundina havia aceitado ser a vice de Fernando Haddad, quando ainda estava no PSB, mas desistiu após a famosa foto de Lula e seu candidato apertando as mãos de Paulo Maluf, situação que foi pré-condição do ex-prefeito para oficializar o apoio. "É demais para mim", disse na época.

Vale lembrar que uma parte da militância petista não quer ver Marta Suplicy pintada de ouro à frente por conta de seu engajamento no impeachment e na Reforma Trabalhista. Enquanto isso, outra parte vê nomes como o de Luiza Erundina como muito radicais. Claro que ambos os grupos não são do mesmo tamanho.

A questão não é uma competição de popularidade. Pois esse debate encobre outro, sobre os caminhos que devem tomar o PT e a esquerda neste momento: optar por uma ação mais conciliadora e pragmática, visando às eleições, ou mais combativa e programática, visando a reformular o projeto de país que tem a oferecer. Mais do que uma estratégia eleitoral, faz parte da disputa pela renovação do campo progressista.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.