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“Parece que os policiais queriam que as pessoas morressem”, diz socorrista

Leonardo Sakamoto

07/12/2019 15h46

Vídeo que teria sido gravado após baile em Paraisópolis mostra polícia acuando grupo em beco (Reprodução)

O atendimento aos jovens que morreram após ação da Polícia Militar (PM) na favela paulistana de Paraisópolis, na madrugada de domingo (1), foi, no mínimo, uma "cascata de erros" que pode ter custado a vida de alguns deles. E, no limite, uma forma de apagar evidências e dificultar a responsabilização pelas mortes. Essa é a avaliação de socorristas de equipes de emergência de São Paulo ouvidos sob condição de anonimato.

Uma garota que afirma ter sido agredida por policiais telefonou para o SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), às 4h18 daquele dia, de acordo com registros aos quais o blog teve acesso.

No mesmo momento, o caso foi avaliado como de "múltiplas vítimas" – como uma queda de avião ou desabamento de um prédio. Às 4h29, ganhou o selo de "evento de alta prioridade".

Porém, às 4h46, foi pedido o cancelamento do envio de ambulâncias por parte de um soldado do Corpo de Bombeiros. O motivo: "viatura da PM socorreu os pacientes".

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A informação sobre o cancelamento do resgate pela polícia foi tornada pública pelo Jornal Nacional, na terça (3). E caiu como uma bomba entre socorristas que atuam na capital paulista ouvidos pelo blog.

O UOL encaminhou à Polícia Militar e à Secretaria de Segurança Pública (SSP) perguntas relacionadas ao atendimento de emergência às vítimas em Paraisópolis, o encaminhamento a um único hospital e ao trabalho da perícia.

A SSP enviou, como resposta, a seguinte nota: "Todos os fatos relacionados estão em apuração através de inquérito policial militar para entendimento da dinâmica dos fatos e responsabilização dos envolvidos. Os dados da investigação seguem o sigilo imposto pelo artigo 16 do Código de Processo Penal Militar"

A mãe Maria Cristinha durante o sepultamento de seu filho Denys Henrique Quirino da Silva, 16. (Danilo Verpa/Folhapress)

Vítimas de politraumatismo não devem ser movidas

"Todo mundo sabe que, se cair um motoqueiro na rua, não se deve mexer nele até que o atendimento chegue para não agravar seu estado de saúde", afirma um membro de uma equipe de atendimento. "Os policiais não tinham formação mínima para transportar alguém com politraumatismo e trauma raquimedular."

Outro entrevistado explica que a chance de reanimar uma vítima jovem com parada cardiorrespiratória, como os de Paraisópolis, é maior – desde que atendidas corretamente. "Na verdade, tiraram a chance de sobrevivência de alguns deles ao removê-los", avalia.

Para um terceiro, o comportamento adotado foi estranho, pois a PM-SP conta com treinamento para situações como essa e é uma das mais bem preparadas do país.

Policiais têm contato direto com os bombeiros, que também são da Polícia Militar. Era só avisar aos bombeiros que era um caso que envolvia múltiplas vítimas e eles iriam para lá e pediriam apoio ao SAMU. Desrespeitaram seus próprios protocolos.

Dois profissionais afirmaram que até entenderiam se alguém tivesse levado um tiro, mas que o atendimento a politraumatismo é diferente. "Uma coisa é levar um tiro, com a pessoa sangrando. Outra é um politrauma, com risco de trauma raquimedular. Se a pessoa for vítima de politrauma e não estiver respirando, os policiais são instruídos para tentar reanimação no local, enquanto aguardam o atendimento", diz um deles.

Informalmente, um representante da polícia disse à reportagem que se há risco de morte iminente, o socorro deve ser o mais rápido possível. Para ele, esperar atendimento especializado para não agravar as lesões pode provocar a morte. Mas disse também que é necessário aguardar a conclusão do inquérito.

Frente a essa justificativa, um dos socorristas lembra que o protocolo é a polícia não mexer nas vítimas e aguardar socorro. Outro afirmou: "O argumento de risco iminente de vida acaba sendo usado para passar por cima de protocolo. Mas é o protocolo que garante a vida da pessoa".

PMs foram ao 89º DP (Distrito Policial) prestar depoimento sobre tragédia ocorrida em Paraisópolis. (Ronaldo Silva/Futura Press/Estadão Conteúdo)

Vítimas não deveriam ser levadas a hospital mais próximo

Oito pessoas foram encaminhadas ao Hospital do Campo Limpo. Um socorrista afirmou ao blog que se o objetivo era tentar salvá-las, a decisão foi equivocada, pois elas deveriam ter sido distribuídas a outros locais.

"Existe um conceito dentro do gerenciamento de múltiplas vitimas que é o de 'evento geográfico'. Não se utiliza o hospital mais próximo, porque outros feridos que podem se locomover procuram esse lugar por conta própria. Na maioria das vezes, inutilizamos esse hospital, transferindo os pacientes mais graves para um hospital mais distante", afirma outro. Não foi o que aconteceu no caso de Paraisópolis.

A polícia transferiu o desastre da rua para dentro do hospital.

"Às 5h do dia 01 de dezembro de 2019, equipe policial traz oito vítimas de 'pisoteamento' (relato policial) em PCR [parada cardiorrespiratória] (evento ocorrido em baile de rua de comunidade há aproximadamente 1h da chegada). Nosso serviço não comporta tal procedimento e há hospitais na região aos quais poderiam ter sido encaminhadas as referidas vítimas", afirma registro do próprio Hospital Campo Limpo, que mobilizou suas equipes para garantir o atendimento.

Perícia comprometida

Os entrevistados afirmam que a remoção de jovens também dificulta o trabalho da perícia. "Perícia com corpo no local é uma coisa diferente de perícia sem o corpo. No segundo caso, a chance de descobrir o que aconteceu de fato é bem menor", explica um deles.

Moradores de Paraisópolis com os quais o UOL e outros veículos têm conversado nos últimos dias afirmam que foram policiais e não frequentadores do baile funk que não deixaram que se prestasse socorro aos feridos.

"Na melhor das hipóteses foi uma sequência de erros que caracterizou negligência por parte da polícia diante da gravidade da situação daquelas pessoas. Na pior, foi limpeza de evidências", afirma um socorrista.

Para os profissionais do SAMU ouvidos pela reportagem, é necessário analisar com cuidado os laudos necroscópicos das vítimas, pois há a possibilidade de alguns terem morrido por falta de resgate adequado. "Se a polícia se acha capaz e apta para resgatar, vamos acabar com os serviços do SAMU e do Corpo de Bombeiros", desabafa outro.

"Foi uma cascata de erros. Parece que eles queriam que os jovens morressem", avalia mais um.

Colaborou Luís Adorno

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Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto