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Padre culpa vítimas por pedofilia. Poderia ser vereador em SP

Leonardo Sakamoto

01/09/2012 13h03

De acordo com o sempre alerta Opera Mundi, o padre norte-americano Bernard Groeschel escreveu um artigo para a revista católica National Catholic Register relativizando a culpa dos companheiros de batina que caem em pecado. Afirmou que, quando se pensa em um pedófilo, "as pessoas normalmente imaginam uma pessoa que planejou seus atos, um psicopata. (…) Mas não é o caso. Imaginem um homem que se encontra em plena depressão nervosa e um jovem chega para consolá-lo. Em muitos desses casos, o jovem é que é o sedutor". Bernard defendeu que os padres católicos não deveriam ser presos caso fossem descobertos, desde que não repetissem seus atos, "porque a intenção deles não era de cometer um crime". A revista retirou o artigo do ar, pediu desculpas e exigiu a retratação do padre – o que veio a acontecer.

Alguns consideraram a declaração do franciscano, mais do que uma apologia à pedofilia, uma tentativa de culpar as vítimas pelo ocorrido. Pode ser. Mas, comparando o discurso a outros que apareceram por aí, gostaria de propor que, ao invés de ser repreendido, Bernard se candidate a uma cadeira de vereador do município de São Paulo. Chances de ganhar ele tem.

Há cinco anos, o cantor e vereador Agnaldo Timóteo fez um discurso na Câmara dos Vereadores a favor da exploração sexual juvenil. Disse que o visitante que vem ao país atrás de sexo não pode ser considerado criminoso. "Ninguém nega a beleza da mulher brasileira. Hoje as meninas de 16 anos botam silicone, ficam popozudas, põem uma saia curta e provocam. Aí vem o cara, se encanta, vai ao motel, transa e vai preso? Ninguém foi lá à força. A moça tem consciência do que faz", declarou. "O cara [turista] não sabe por que ela está lá. Ele não é criminoso, tem bom gosto."

Foi reeleito.

O que é compreensível.

Afinal de contas, se tem peito e bunda, se tem corpo de mulher, está pronta para o sexo, não é mesmo?

E se está pronta para o sexo, por que não ganhar uns trocados para ajudar no orçamento familiar?

O cara que transa com essas meninas não tem culpa, elas é que estavam pedindo. Elas sempre pedem.

Pois "mulher honesta" – como minha mãe, minha esposa e minha filha – ficam em casa e não na rua, vadiando.

Mulher não se veste "daquele jeito" se não quer alguma coisa, não?

Enfim, tendo em vista a quantidade de vezes que ouvimos essas aberrações por aí, creio que há espaço para um segundo vereador que, ignorando os limites da razão e da lei, defenda que pedófilo não é criminoso.

Talvez dê para formar uma bancada.

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Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.


Leonardo Sakamoto