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Qual boletim de ocorrência sem sentido você faria?

Leonardo Sakamoto

07/08/2014 14h41

Quando vi que moradores do bairro paulistano de Santa Cecília foram à delegacia contra a instalação de ciclovias pensei: putz, eu quero!

Pois também tenho uma série de sugestões nonsenses para boletins de ocorrência, reunidas ao longo de anos, em um papelzinho surrado que quase se apagou de velho. Só não fui à delegacia porque achei que a polícia soltaria um "teje preso, japonês".

Como acho que todo mundo tem direito a protestar contra qualquer coisa, gostaria de estender minha solidariedade aos moradores do bairro. No direito ao protesto, não no seu mérito, claro. E aproveito para pedir apoio às minhas sugestões nonsenses de B.O.:

1) Contra a utilização de queijo frescal em saladas com grão de bico (isso é indecente).

2) Pela proibição do uso dos crocs (isso não é coisa de Deus não) e a descriminalização das papetes (essas incompreendidas).

3) Pela venda de xaxim para samambaia em mercados de bairro (vocês não sabem o trabalhão que dá ir até o Ceasa).

4) Por uma torrada que não caia com a face amanteigada voltada para o chão (culpa da gravidade, aquela blogueira petralha).

5) Por border collies que, menos bagunceiros, possam viver em apartamentos pequenos (eu adoro border collies, fico frustrado com isso).

6) Pela contratação de reforços de qualidade para o Palmeiras (e isso eu anotei antes da primeira queda…)

7) Por capacetes para ciclista que sirvam na minha cabeça (a indústria tem preconceito com quem descende de abóboras, como eu).

8) Por revistas de turismo que não usem termos como "caldeirão de vida", "paraíso na Terra" e trocadilhos infames (tá aí uma boa razão para prender jornalista).

9) Pelo fim do preconceito de quem, em um restaurante, pede Fanta Uva (#delícia).

10) Por sabiás-laranjeira que tenham mais respeito com o sono alheio (desalmado é o passarinho, não eu).

11) Pelo fim do assento não-acolchoado nos ônibus da capital, daqueles que machucam o cóccix (país rico é país com assento acolchoado).

12) Pela volta do mimeógrafo (melhor do que aquele aroma de sulfite embebido em álcool só os dias em que a manicure do bairro ia fazer a unha da minha mãe).

13) Pela disponibilização de pasta de amendoim em todos os mercados da cidade (classe média sofre).

Por candidatos que não aceitem doadores de campanha que utilizaram trabalho escravo em usinas ou grandes obras ou por "representantes políticos de Deus" que passam quatro anos fazendo de tudo para que sua vida seja um inferno e, agora, têm a pachorra de pedir seu voto.

Mas aí não é caso de polícia e sim terreno de Santo Expedito.

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Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.


Leonardo Sakamoto