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Ebola era coisa de pobre. Mas coisa de pobre, às vezes, chega aos ricos

Leonardo Sakamoto

25/08/2014 12h44

Talvez eu seja um exemplo vivo de que a humanidade conseguiu dar um nó na seleção natural. Se deixassem a natureza seguir seu curso, seres malfeitos, com cardiopatias congênitas como eu, estariam naturalmente fadados a ser peça de museu.

– Mãe, olha lá! Aquele japa cabeçudo empalhado era um cardíaco, não?

Bateríamos as botas antes de atender ao divino chamado de multiplicar. Ou no momento de cumprir esse chamado.

Hoje, não mais.

Os fortes é que sobrevivem? Sabe de nada, inocente!

Os remendados, como nós, é que herdarão a Terra.

Nossa vantagem competitiva? Ter sempre à mão uma boa dispensa com medicamentos, além de médicos competentes. Malufão, Sarneyzão, Serrão, Lulão tão aí, firmes e fortes.

Digo parcela da população porque podemos comprar remédios de ponta, que funcionam e têm poucos efeitos colaterais, por exemplo. Sucesso garantido graças a exigentes testes realizados à exaustão pelas maiores indústrias farmacêuticas do mundo em milhares de "voluntários" de classes sociais mais baixas.

A relação de casos letais/investimento em cura é maior nas doenças que acometem a parte rica da população do que a parte pobre. A pesquisa para a busca da cura do câncer recebe muito mais que pesquisas para doenças causadas por parasitas que afetam bilhões e matam milhões. Eu já peguei malária duas vezes nessas andanças jornalísticas. Dói, viu?

E quando uma pessoa que tem acesso a recursos privados de saúde, como eu ou o doutor Drauzio Varella (que pegou febre amarela e narrou a experiência no belo livro "O Médico Doente"), fica ruim, há chance maior de cura do que alguém que depende de si mesmo, do poder público e de suas filas.

Parte da população vive no século 21 da medicina, enquanto outros ainda engatinham pela Idade Média das esperas em hospitais, dos remédios inacessíveis, da falta de saneamento básico e da inexistência de ações preventivas.

Na prática, quem consegue jogar xadrez com a Morte e enganá-la por um tempo são os mais ricos, que possuem os meios para tanto. O finado José Alencar foi um lutador que arrastou a partida por muito tempo. Uma amiga da minha mãe não teve a mesma sorte e, com um câncer similar, se foi mais cedo.

Mas os mais pobres, por mais que tenham força de vontade e queiram continuar vivendo, não necessariamente conseguem a mesma façanha.

Vão apenas empurrando com a barriga, apesar de tudo e de todos, ajudando com seu trabalho e, algumas vezes, como cobaias, os que ganharam na loteria da vida a terem uma existência mais feliz.

Como mostra a excelente, corajosa e necessária cobertura de Patrícia Campos Mello e Avener Prado, a partir de Serra Leoa, para a Folha de S. Paulo, a epidemia de ebola na África trouxe luz a uma discussão ética: tratar os pacientes pobres com remédios experimentais mesmo não sabendo quais efeitos colaterais (com os quais médicos e missionários dos EUA e da Europa foram tratados, por exemplo) ou não tratar, considerando que surgiriam acusações  de uso de cobaias humanas para o desenvolvimento de medicamentos que trazem lucro à iniciativa privada – aliás, como sempre foi.

O debate ocorreu na Organização Mundial de Saúde e abriu a possibilidade para a utilização dos medicamentos. O problema é que já se apontou que, mesmo assim, não haverá produção suficiente de remédio para todos.

A discussão, contudo, tem seu lado bizantino. Pois, ela não seria necessária se houvesse um apoio sistemático, desde sempre, ao desenvolvimento de medicamentos para essas doenças. Ou melhor: se a saúde não fosse tratada como um grande negócio global, mas como um direito humano realmente tutelado pela comunidade internacional, o que tiraria a palavra "prevenção" da frieza dos dicionários.

Como diria o assessor de Bill Clinton: "É a economia, estúpido!"

Pois ebola era coisa de pobre. E pobre sem muito dinheiro para comprar remédio.

O problema é que, mais cedo ou mais tarde, alguma "coisa de pobre" bate à porta dos ricos. Pois, às vezes, vírus e bactérias cismam em ignorar regras sociais e, sem reconhecer quem são os eleitos pela vida, fazem estragos.

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Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.


Leonardo Sakamoto