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Grécia e Brasil: promessas dolorosas e estelionato eleitoral

Leonardo Sakamoto

05/07/2015 21h34

Pode-se discordar da forma com a qual o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras e seu partido, o Syriza, estão conduzindo a negociação com credores internacionais. Afinal, dependendo do impacto do resultado do plebiscito deste domingo, que disse "não" para os acordos que afundam a qualidade de vida da população grega, ele pode significar a saída da zona do euro.

Quase 40% da população grega discordou. E, mesmo assim, não saiu distribuindo sopapos com os mais de 60% contrários aos acordos. E, segundo as informações divulgadas até agora, não está promovendo o ódio nas redes sociais, como acontece por aqui.

Mas o Syriza (Synaspismós Rizospastikís Aristerás, ou Coligação da Esquerda Radical) não mentiu ou omitiu. Disse em sua campanha que iria contra os acordos leoninos que haviam sido assinados pelo governo anterior. E foi eleito com essa plataforma. Ou seja, não pode ser acusado de estelionato eleitoral.

É claro que a economia grega é minúscula comparada à brasileira, o Brasil é muito mais complexo socialmente do que Grécia e, com o "não" eles podem passar por um período sombrio de dificuldades e dúvidas.

Mas o efeito de comparação com as promessas eleitorais de Dilma é automático. Durante sua campanha à reeleição, ela garantiu a manutenção de direitos trabalhistas e previdenciários e criticou duramente seus adversários por conta de soluções neoliberais coordenadas por banqueiros que seriam implantadas caso vencessem. Depois de eleita, esqueceu o que havia prometido e preferiu governar com a banca e não com a rua.

É emblemático, portanto, que mais de 60% da população tenha dado um voto de confiança ao Syriza. E, por aqui, a popularidade do Planalto desceu a um dígito.

Durante muito tempo, a esquerda latino-americana encheu a boca para falar que os olhos do mundo estavam voltadas para ela, pois suas políticas poderiam servir de inspiração. Agora, os olhos da esquerda estão no Syriza, na Grécia, e no Podemos, na Espanha, frutos da insatisfação, da renovação e das manifestações sociais na Europa.

Analistas apontam que os votos dos mais jovens, que sofrem com o desemprego diante das políticas de austeridade no continente, foram fundamentais neste plebiscito. Da mesma forma que serão nas eleições de 2018 no Brasil – os ultraconservadores já perceberam isso e estão em plena campanha por corações e mentes, mas a esquerda não muito bem.

Que a experiência do Syriza ajude a mostrar caminhos para a transformação social no século 21 – com nova cara e novas reflexões. Inspirando o lado de cá do Atlântico a criar uma nova esquerda, que não seja contaminada pelos erros do passado, mas volte a se lembrar da razão de sua existência.

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Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.


Leonardo Sakamoto