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Vai visitar o Brasil? Conselhos úteis para não levar porrada na rua

Leonardo Sakamoto

30/09/2015 11h38

Meu caro amigo,

Fico muito feliz que esteja vindo ao Brasil para uma visita. E, com a alta do dólar, garanto que você ficará mais feliz ainda.

Você me pede alguns conselhos. Bem, além aqueles de praxe – como não consumir água de origem desconhecida (no caso de São Paulo, isso é fácil porque ela anda em falta) e não dar mole com a carteira se visitar o Congresso Nacional – sugiro outros para garantir uma estada feliz.

Não beije ou ande de mãos dadas com outro cara em público. Em alguns locais, basta saberem que você é gay para levar porrada.

Não saia à rua de vermelho. Se acharem que é comunista, pode levar porrada.

Não pegue Uber. Um grupo de taxistas pode te arrancar fora do táxi e você pode levar porrada junto com o motorista.

Não grite se um carro quase atropelar a sua bicicleta. Carros são sagrados por aqui. Você pode, na melhor das hipóteses, levar porrada.

Não discuta com um policial que foi desrespeitoso contigo. Você pode levar porrada. E ser preso. E, daí, levar mais porrada.

Não visite um terreiro. Um cristão fundamentalista pode estar à espreita e você pode levar porrada na saída.

Avise para a sua irmã para ela não brigar com quem tentar beija-la à força na balada. Ela pode levar uma cotovelada, um soco na cara ou outros tipos de porrada.

Ah, e não venha negro. Sei que você nasceu com essa cor de pele. Mas jovem negro leva porrada no Brasil sem precisar de razão.

Boa parte dos brasileiros foi ensinado que a violência é o principal instrumento de resolução de conflitos. Por falta de instituições públicas ou sociais confiáveis que assumam esse papel, por achar que alguns possuem mais direitos que outros por conta de dinheiro ou músculos, por alguma patologia que nunca consegui entender muito bem mas que deve estar atrelada à falta de abraços de mãe.

Além disso, também temos problemas de memória. Enquanto o país não acertar as contas com o seu passado ditatorial, não terá a capacidade de entender qual foi a herança deixada por ele – na qual estamos afundados até o pescoço, nos define e contribui para uma cultura de agressão.

Espero que aproveite ao máximo a viagem. E não se esqueça: o Brasil é a terra da felicidade e do amor. Basta não tentar subverter a ordem estabelecida.

Abraço forte.

Saka

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Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.


Leonardo Sakamoto