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Impeachment: Quando esta guerra acabar, vão sobrar as baratas

Leonardo Sakamoto

15/04/2016 19h41

Independentemente do que aconteça, neste domingo (17), com a votação do impeachment de Dilma Rousseff, os dois partidos políticos que foram a maior esperança do país e em torno do qual a democracia brasileira se consolidou nos últimos 20 anos caminharam para uma Destruição Mútua Assegurada.

Segundo essa doutrina militar, conhecida por quem viveu o horror da Guerra Fria, como cada um dos lados (EUA e União Soviética) tinha armamentos nucleares suficientes para destruir o outro e que, uma vez atacado, retaliaria com força igual ou maior, a escalada resultante levaria ao fim de ambos. E talvez do mundo como o conhecíamos.

Esse medo também levou o outro lado a, sabendo disso, evitar ao máximo começar um ataque. Um equilíbrio tenso mas, ainda assim equilíbrio.

O momento em que vivemos é fruto muito mais da escalada de ataques sujos e rasteiros, analógicos e virtuais, das eleições polarizadas de 2014 (e seus desdobramentos) do que das manifestações de junho de 2013, que ajudaram ao debate político sair do armário no Brasil.

A guerra suja aberta por PSDB e PT abriu caminho para que se jogasse a criança fora com a água suja do banho, ou seja, para que instituições democráticas fossem criticadas e menosprezadas na campanha e depois dela.

Pessoas decretam a inutilidade não só do parlamento, mas também da própria atividade política – que, teoricamente, deveria ser uma das mais nobres práticas humanas. Outros solicitam que se encontre um "salvador da pátria" que nos tire das trevas, sem o empecilho de pesos e contrapesos. Ou que Jesus volte.

A corrupção minou bastante a credibilidade de instituições. Mensalões, Trensalões, Lavas-Jato e a maioria dos escândalos, que permanecem longe dos olhos do grande público, foram relevantes. Mas a incapacidade da classe política de garantir que a população mais pobre não sofreria de forma tão violenta os efeitos da crise econômica é o motor da insatisfação da maioria dos brasileiros.

A maior parte do povão, a maioria amorfa em nome do qual tudo isso é feito, mas que raramente se beneficia do grosso do Estado, não foi às ruas nem pró, nem contra o governo. Continua onde sempre esteve: trabalhando pelo bem-estar de uma minoria e assistindo a tudo bestializado pela TV.

Nesse contexto, qualquer pessoa com posicionamento político tem sido criticada pesadamente. Ter opinião virou crime, defender um ponto de vista agora é delito, abraçar uma ideologia é passível de morte. Ou, em outras palavras, "fazer política é escroto".

Ou, pior, caminho para o enriquecimento ilícito. Ou seja, espalha-se a percepção de que quem se engaja na política, partidária ou não (porque muitos fazem questão de resumir toda política à partidária), tem interesses financeiros. Porque muita gente não consegue entender que a vontade de participar dos desígnios da pólis não seja apenas por ganho pessoal.

O parlamento deveria ser o centro da vida política do país e não um estábulo de interesses pessoais. Mas a roda-viva da terra arrasada agora gira por conta própria.

O problema é que alguns grupos que viviam à sombra de partidos, de um lado e de outro do espectro ideológico, mas principalmente entre os conservadores, se alimentaram desse processo. Muitos não querem diálogo, querem sangue. Quanto pior, melhor.

Os partidos acharam que estavam reunindo as forças ao seu lado para a guerra. O problema é que, agora, começaram a perceber que podem sair desse caos como coadjuvantes.

O PSDB (Aécio, Alckmin e Serra) amarga índices ridículos na última pesquisa Datafolha – e com tendência descendente. O povo percebeu que o partido está envolvido na mesma corrupção que denuncia. E o PT, ah o PT… Esse desidrata em público, por seus próprios erros e delitos. Ainda depende de Lula para continuar respirando por aparelhos. Em outras palavras, seu futuro depende do fato de ele não estar inelegível em 2018.

Com tudo isso, é possível imaginar que, ao final dessa guerra nuclear política, dessa Destruição Mútua Assegurada, sobrarão muitas baratas.

Baratas, que serão referência política. Baratas, que serão eleitas.

Porque, se por um lado, são asquerosas, por outro, são resistentes. Estavam lá antes de nós e estarão muito depois de todos irmos embora.


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Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.


Leonardo Sakamoto