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Quis a ironia que Fidel Castro morresse em uma Black Friday

Leonardo Sakamoto

26/11/2016 15h57

Fidel Castro morreu, nesta sexta (25), aos 90 anos. Se ele vai ser ou não absolvido pela História, não sei. A História tem sido contada pelo ponto de vista do lado com mais dinheiro. Portanto, duvido que o roteirista lhe faça justiça por seus defeitos ou qualidades.

Mas não escrevo sobre ele e, sim, sobre a imagem de seu legado.

Enquanto esperava o semáforo abrir, um carro grande parou ao meu lado. De dentro surgiu uma cabeça de mulher chique que gritou "Volta pra Cuba!", elogiou a minha mãe, cuspiu em minha direção e saiu cantando pneus. O cuspe passou perto, mas não me atingiu. Isso foi há algum tempo já, mas nunca me esquecerei de que alguns proprietários de SUV são incapazes de acertar um alvo com um cuspe, mesmo que diante de seus olhos.

Interessante como Cuba virou xingamento. Mas a China, não.

Se Cuba fosse uma grande potência econômica, os casos de desrespeito às liberdades individuais que acontecem na ilha ficariam em segundo plano no noticiário cotidiano em detrimento às notícias sobre o pujante crescimento econômico e a necessidade de mais parcerias estratégicas conosco. Prova disso é ver como tratamos, com carinho, a ditadura de mercado chinesa que censura, mata e faz desaparecer.

Vale lembra que dois pesos, duas medidas não são monopólio da esquerda, nem da direita.

Quando falamos de dignidade, o Ocidente privilegia os direitos individuais em detrimento à garantia coletiva da qualidade de vida – na prática, o direito à propriedade está acima do direito a uma alimentação e moradia decentes, além da dignidade no trabalho. Em certos governos regidos pelo Islã, os direitos coletivos são mais fortes, mas os individuais ficam em segundo plano – as mulheres que o digam.  A sociedade cubana demonstra bons indicadores sociais (como educação, saúde, alimentação e moradia) por conta das conquistas após a revolução – mas, ao mesmo tempo, passa vergonha em questões de liberdade política e livre expressão.

O professor Boaventura de Sousa Santos, da Universidade de Coimbra, lembra que se faz necessário um diálogo intercultural, confrontando o que há de melhor na defesa da dignidade humana em diferentes civilizações para que possamos encontrar um denominador comum. Não impositivo, mas dialeticamente negociado.

Se por um lado, nós como membros de uma comunidade internacional temos o dever de usar tempo e recursos para buscar um tratamento justo aos dissidentes em Cuba, também temos que usar a mesma energia para exigir o fim da prisão de Guantánamo. Ou de guerras imbecis tocadas em nome da democracia, mas em razão do petróleo, que, invariavelmente, acabam em massacres de civis.

Caso contrário, corremos o risco de manter o sistema de nações sob a égide da desigualdade e da injustiça. Sei que a frase é bonitinha, mas tende a ser inócua. Pois Estados Unidos não são Cuba, Cuba não tem poder bélico, político, econômico, tecnológico, ou seja, não tem cacete para dar porrada e fazer bloqueio econômico. Afinal, não é porque a civilização ocidental vive sob o liberalismo, mãe dos direitos humanos, que ela não os desrespeita diariamente.

Execuções sumárias por policiais, ações de milícias pagas por fazendeiros no interior do país, desaparecimentos e torturas, tratamento desumano aos encarcerados, prisões arbitrárias, ataques contra a liberdade de expressão, discriminação por cor de pele, de gênero, de orientação sexual, trabalho escravo, tráfico de pessoas para exploração sexual, jornalistas executados ou obrigados a se refugiar em outros países por simplesmente reportarem os fatos.

Cuba? Até podia ser, mas neste caso é Brasil.

O que me leva a crer que a moça da SUV poderia gritar "Volta pra São Paulo!" ou "Vai pro Rio!", que daria na mesma.

E que, em se tratando de respeito à dignidade humana, mesmo que se levado em conta a diferença de parâmetro de cada povo para o que seja "dignidade humana", se gritar "pega ladrão", não sobra um, meu irmão.

A maior parte dos países decide se defende liberdades individuais não por seus conceitos de dignidade, por suas conveniências. E a situação piora quando estamos falando de direitos sociais, econômicos, culturais e ambientais – validados desde que não atrapalhem as ações comerciais e não custem muito caro.

Aliás, quis a ironia do século 21 que Fidel Castro morresse em uma Black Friday. Em que algum vendedor de camisetas, em algum lugar do mundo, deve ter ficado feliz da vida com os lucros da venda de unidades com a estampa do Che ou com os dizeres "Hasta la victoria, siempre!".

***

Este blog completa, neste sábado (26), dez anos de vida. Obrigado a todos e todas que ajudam a fazer dele um espaço reconhecido de discussão sobre política e direitos humanos. 

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Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.


Leonardo Sakamoto