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Após madrugada mais fria, Alckmin e Doria derrubam barracas na Cracolândia

Leonardo Sakamoto

11/06/2017 13h21

Geraldo Alckmin e João Doria escolheram o final da madrugada mais fria do ano para destruir os barracos de pessoas que sofrem com dependência de drogas na praça Princesa Isabel, região central da capital paulista. De acordo com o Centro de Gerenciamento de Emergências, a temperatura média ficou em 8,7 graus Celsius. Informação que não era novidade uma vez que, ao longo deste sábado, a meterologia já havia soado o alerta.

A ação destruiu barracos montados na nova Cracolândia instalada na praça por quem já havia sido desalojado após o poder público, em um outro domingo (21/5), dispersar o fluxo de pessoas com dependência de drogas na região da Luz. O poder público afirma que as barracas eram usadas pelo tráfico, mas quem atende aquela população diz que a grande maioria não era.

Dois suspeitos de tráfico teriam sido presos, além de confiscado crack e dinheiro. Fogueiras acesas para espantar o frio acabaram sendo usadas para queimar alguns barracos. Quando a ação policial começou, a maior parte das pessoas fugiu.

Se todas as pessoas que sofrem com dependência e estavam na praça resolvessem ir para as estruturas de alojamento do poder público à disposição, não encontraria camas. Eram quase mil, diante de cerca de 100 camas. Porém, isso depende de um trabalho lento que envolve o estabelecimento de relações de confiança e a possibilidade reais de reinclusão social e produtiva.

Centenas de pessoas perambularam pelo centro até que, após a retirada de materiais, a polícia autorizou o retorno à praça Princesa Isabel, mas com a proibição de barracas e carrinhos.

Uma pessoa da administração municipal que preferiu o anonimato, disse ao blog que Prefeitura de São Paulo não tem efetivo humano suficiente para lidar com duas frentes de ação ao mesmo tempo – o acolhimento à população em situação de rua por causa do frio e o apoio às pessoas que sofrem com dependência e são expulsas de uma Cracolândia.

Na manhã de sábado (que até hoje tinha tido a madrugada mais fria do ano), um homem em situação de rua morreu. De acordo com o padre Júlio Lancelotti, da Pastoral do Povo de Rua, a causa foi o frio. Ele criticou a falta de abrigos à disposição na região do Belém, onde o corpo foi encontrado. Não foi a primeira, nem será a última vez que esse tipo de tragédia aconteceu e acontecerá na cidade.

As Cracolândias são um problema prioritariamente de saúde pública, mas não têm sido encaradas como tal. As intervenções tanto do governo do Estado quanto da prefeitura municipal junto ao fluxo de usuários de drogas têm sido alvo de críticas de especialistas, organizações sociais, da imprensa e de parte da sociedade por não privilegiarem uma ação de longo prazo e optarem pela violência. Intervenções que parecem guiadas não pela busca de reduzir a vulnerabilidade dessas pessoas ou de reinclui-las à sociedade, mas por gerar curtidas e compartilhamentos de seguidores de políticos em redes sociais.

Diante das ações pirotécnicas e com baixa sensibilidade social do poder público, quem se sente quentinho e acolhido são as empresas que possuem imóveis na região, além das onipresentes empreiteiras. Pois, em São Paulo, não se morre de frio. O que mata é a especulação imobiliária.

Post atualizado às 15h, do dia 11/6/2017, para inclusão de informação sobre a autorização de retorno à praça.

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Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.


Leonardo Sakamoto