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Roubar beijo no Carnaval só prova que você é incapaz de viver em sociedade

Leonardo Sakamoto

11/02/2018 12h05

Roubar um beijo, sem consentimento, em um bloco de Carnaval, além de ser um ato de assédio e violência, também diz muito sobre o indivíduo.

Logo de cara, que ele é incapaz de viver em sociedade. Ao se utilizar de tal expediente agressivo, demonstra que não consegue puxar uma conversa e se mostrar agradável e atraente. E, a partir daí, obter o consentimento necessário para algo mais próximo. Pelo contrário, desconfio que ele saiba que é limitado socialmente e, ao invés de trabalhar em cima disso na terapia, decide descontar sua raiva contra o mundo.

O ato indica também que ele acredita que o mundo à sua volta está a seu dispor, bastando ir lá e pegar, como uma grande prateleira de supermercado. Para conseguir o tal beijo, o sujeito segura mulheres desconhecidas pelos cabelos, braços, pescoço, cintura ou qualquer outra parte do corpo sem que ela tenha lhe dado expressa autorização para tanto. Provavelmente, foi ensinado desde cedo para ser esse monstrinho mimado e egocêntrico por pais, avôs, tios, amigos, certos padres e pastores, chefes e demais "referências" masculinas. Lembrando que ninguém nasce um idiota, mas nós, homens, somos muito competentes em treinar as crianças para tanto.

Isso mostra, além do mais, que a pessoa desconhece a própria língua. Pois "não" é "não". Não é "talvez", muito menos "quem sabe" ou ainda "insiste que pode rolar". Ao não entender o que significa um "não", surgem respostas como "A culpa não é minha, olha como você tá vestida!", "Se saiu de casa assim, é porque está pedindo", "Mas é Carnaval, vadia!", "Quem está aqui sozinha é porque quer isso" e "Me dá um beijo que eu te solto". Aliás, chamar mulheres, em qualquer circunstância, de "prostitutas" e "vadias" como xingamento genérico para qualquer comportamento em desacordo com seus planos de "conquista" fala muito sobre o caráter do sujeito. Sem contar que tratar prostitutas com respeito diferente daquele dispendido a qualquer outra trabalhadora também faz dele um idiota.

Há quem diga que o Carnaval está ficando chato porque as pessoas não podem mais expressar sua liberdade sexual proporcionada pela data, devendo reprimirem-se sexualmente ao invés de roubar o beijo de alguém, por exemplo. Para além de um desserviço social, esse tipo de defesa é apologia a um ato criminoso e tem como consequência empoderar os toscos aqui descritos e de jogar contra campanhas que alertam para a violência de gênero, exaustivamente veiculadas nessa época do ano.

Esses indivíduos acreditam que as mulheres pertencem aos homens. Porque creem que assim sempre foi, porque aprenderam assim. É a tradição, oras! E o discurso da tradição, muitas vezes construído de cima para baixo para manter alguém subjugado a outro não pode ser questionado. Quem ousa sair desse padrão, pode ser vítima de alguns "corretivos sociais". Como levar um soco no Carnaval porque reagiu contra um beijo forçado.

E não se enganem. Não é só meia dúzia de celerados. Esses ataques traduzem o que parte da nossa sociedade machista pensa. Que uma mulher que conversa de forma simpática em um bloco de carnaval está à disposição, que uma mulher que se veste da forma como queira está à disposição, que um grupo de mulheres sem "seus homens", brincando na rua, está à disposição.

Nós, homens, temos a responsabilidade de educarmos uns aos outros, desconstruindo nossa formação machista, explicando o que está errado, impondo limites ao comportamento dos outros quando esses foram violentos, denunciando se necessário for.  Não é censura, pelo contrário. Esses são atos para ajudar a garantir que as mulheres possam desfrutar da mesmo liberdade que nós temos – liberdade que nossos atos e palavras sistematicamente negam a elas.

O constrangimento público às ações machistas é uma arma poderosa e precisa ser usada insistentemente. Nós homens precisamos entender que esse discurso e essas atitudes violentas não cabem mais no mundo em que estamos. Na verdade, nunca couberam, mas nós somos pródigos em calar aquilo que nos desagrada.

Isso significa que se beija menos no Carnaval? Afe, definitivamente não. Apenas que certos padrões violentos não são mais tolerados.

Aceita o não que dói menos. Você vai se divertir tanto quanto. Ou ainda mais.

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Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.


Leonardo Sakamoto