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Os dois assassinatos de Marielle: Após o corpo, querem matar sua reputação

Leonardo Sakamoto

18/03/2018 05h19

Foto: Mídia Ninja

Enquanto as investigações analisam se milícias, formadas por agentes públicos de segurança corruptos, estão envolvidas no assassinato de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, as milícias digitais têm agido com força para tentar assassinar a reputação da vereadora pelo PSOL.

Em resposta à comoção que tomou as ruas e as redes sociais devido à execução da militante dos movimentos feminista, negro e LGBTT, na última quarta (14), grupos e redes de extrema direita produziram e bombaram conteúdo fraudulento na forma de textos, vídeos e memes, tentando associar Marielle ao crime. E contaram com a natureza das redes sociais para que isso ocorresse.

O WhatsApp se tornou um dos principais canais de distribuição de conteúdo visando à desinformação, manipulação e hiperpartidarização e notícias falsas, pois é uma rede fechada e com fortes câmaras de eco. Por lá, circulou uma corrente com boatos de que Marielle seria casada com uma liderança do tráfico de drogas e teria sido eleita com a ajuda de uma facção criminosa – farsas que foram denunciadas por plataformas de checagem de notícias e veículos de comunicação.

Contudo, ao serem reproduzidas pela desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Marilia Castro Neves, e pelo deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF), através de suas contas em redes sociais, a história não apenas foi mais longe como ganhou validação. Afinal, ambos são figuras públicas, membros dos Poderes Judiciário e Legislativo.

A justificativa da magistrada demonstra que ela ignora as regras básicas do debate público na internet, que demanda que se cheque informação antes de compartilhá-la. Ela, que nem tinha ouvido falar da vítima antes do caso, afirmou: "Eu postei as informações que li no texto de uma amiga".

Áreas do cérebro relacionadas ao prazer e à satisfação são estimuladas quando divulgamos informação inédita, ou seja, quando nossos interlocutores não sabiam de algo que nós estamos comunicando em primeira mão. A relação de poder representado pelo ato, por menor que seja, não é desprezível. Isso somado a características das redes sociais, como o lugar quentinho e acolhedor de validação coletiva trazida por uma "chuva de likes", empurra pessoas a compartilharem primeiro e checarem depois. Ou nunca verificarem. E, em decorrência disso, estragos são causados na vida de outras pessoas.

No que pese o importante trabalho realizado por plataformas de checagem de informações e pelos cidadãos que, dedicadamente, compartilham as informações certas em suas redes para alertar os amigos de que uma "denúncia" era apenas boato, a circulação do desmentido com a informação correta é prejudicada por alguns fatores.

Primeiro, a questão do viés de confirmação – as pessoas tendem a considerar verdade tudo em que acreditam e, mentira, aquilo da qual discordam. Se já ostentavam preconceito em relação a Marielle ou aos grupos sociais que protestam contra sua morte, a notícia falsa será vista como verdadeira e usada como munição para guerra digital. Pouco importando se ela procede ou não.

Considerando que as pessoas estão inseridas em câmaras de eco, em que só ouvem aquilo que elas mesmas falam, dificilmente é levada em conta uma fonte de informação que traga uma correção se ela não for chancelada por um contato em que se confia. Caso contrário, a chance de um desmentido de notícia falsa ser visto como notícia falsa é grande.

Segundo, a questão das bolhas nas redes sociais. Muitas vezes a informação com desmentido não consegue furar o bloqueio causado pela polarização política e pelo algoritmo das redes sociais – que tende a mostrar a cada um de nós conteúdo de perfis e páginas com os quais mais interagimos regularmente. O que impede o "novo" de entrar e formar outros conceitos.

Além, é claro, do fato de que um delicioso boato vai mais longe do que uma chata correção. Pessoas evitam compartilhar correções de postagens por elas enviadas anteriormente com medo de perder a confiança de sua rede como fonte segura de informação.

Qual o objetivo de matar a reputação de alguém que acabou de ser executada?

A resposta foi dada por núcleos de pesquisa que analisam as redes sociais – a Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas, o Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal dos Espírito Santo e o Monitor do Debate Político no Meio Digital da Universidade de São Paulo. Todos foram unânimes em apontar que o repúdio à execução de Marielle e a celebração de sua trajetória provocou um gigantesco impacto nas redes sociais, chegando a fazer mais barulho que o impeachment de Dilma. Enquanto isso, uma (barulhenta) minoria, responsabilizou a vítima por sua própria morte e relativizou a importância do assassinato.

A circulação de material fraudento foi usado para tentar reduzir o impacto nas ruas e nas redes dos protestos pela morte de Marielle Franco, que apontavam-na como mártir da luta contra violência e pela garantia de direitos iguais a negros, pobres, mulheres e população LGBTT. Grupos temem que a reação catártica à sua execução pode ajudar a mudar o balanço de forças sociais, reduzindo o espaço das milícias de extrema direita na construção de significados coletivos. Lugar em que estão confortavelmente instaladas desde o impeachment, agindo, para além da política, na censura e demonização de exposições artísticas e na repressão a jornalistas. E isso tem inequívoca influência nas eleições gerais de outubro.

Enquanto as milícias que operam em comunidades pobres (já controlando mais territórios do que o tráfico de drogas no Rio) usam armamento tradicional, as milícias digitais, que cultivam milhões de seguidores e estão conectadas a outros milhões, produzem sua própria munição. Armas e balas vêm de desvios da polícia e das Forças Armadas ou da subtração de facções criminosas. Já o conteúdo fraudento visando à manipulação é feito pelas próprias milícias, incluindo seus sites e páginas satélites, ou é por elas garimpado nas redes sociais.

Os ataques via boatos em redes sociais contra Marielle Franco, portanto, não são aleatórios ou resultado apenas de redes de ódio e de intolerância. Mas fruto de um cálculo racional para redução de danos por parte daqueles que sabem que podem perder muito caso a população se dê conta que, junta, faz diferença.

Quando uma figura pública é muito grande, não basta matar seu corpo físico. É necessário destruir sua autoridade e credibilidade para reduzir a influência de seu exemplo e de suas ideias. Caso contrário, elas podem dar frutos e sobreviver por muito tempo após a morte. Às vezes, indefinidamente.

Uma vez executada Marielle, portanto, é hora de assassinar sua reputação, sob o risco de muitas outras vozes brotarem do galho que foi podado.

O silêncio diante dessa tentativa de duplo homicídio nas redes sociais dos amigos, da família, do trabalho, da escola, representa, portanto, a nossa mais pura conivência.

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Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.


Leonardo Sakamoto