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O agro é pop, mas também mata

Leonardo Sakamoto

16/04/2018 20h58

Corpos de trabalhadores no Hospital de Redenção, no Pará, após a Chacina de Pau D'Arco. Foto: Repórter Brasil

O ano de 2017 foi o mais violento no campo desde 2003. De acordo com o levantamento anual da Comissão Pastoral da Terra (CPT), divulgado nesta segunda (16), 70 assassinatos em conflitos foram registrados.

Antes que algum semovente grite que isso não é nada comparado à outra tragédia (os 6.731 óbitos de forma violenta no Estado do Rio de Janeiro, em 2017), vale considerar que Altamira (PA), base para a construção da hidrelétrica de Belo Monte e de um sem-número de violações aos direitos de trabalhadores e povos do campo, apresentava 107 mortes para cada 100 mil habitantes segundo o Atlas da Violência 2017,  do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A taxa no Rio, no ano passado, foi de 40 mortos para cada 100 mil habitantes.

Se o Estado do Rio operasse com a mesma taxa de violência, teriam sido mais de 18 mil mortos em 2017. Isso não é uma competição para ver qual desgraça é maior, apenas um lembrete que o campo não deve ser esquecido ao prantearmos os mortos da estupidez de brasileiros e do Estado que os servem.

Porque os assassinatos no campo são resultado de um modelo de desenvolvimento concentrador, excludente, que privilegia o grande produtor e a monocultura, em decorrência ao pequeno e o médio. Que superexplora mão de obra, chegando, no limite, à escravidão contemporânea, a fim de facilitar a concorrência em cadeias produtivas cada vez mais globalizadas. Que fomenta a grilagem de terras e a especulação fundiária, até porque tem muita gente graúda e de sangue azul se beneficia com as terras esquentadas e prontas para o uso. Que muito antes da época dos verde-oliva já considerava a região como um "imenso deserto verde" a ser conquistado – como se o pessoal que lá morasse e de lá dependesse fossem meros fantasmas. Que está pouco se importando com o respeito às leis ambientais, porque o país tem que crescer rápido, passando por cima do que for. Que divide o espólio da corrupção e do desvio de recursos públicos ou royalties milionários pagos a municípios pobres. Tudo com a nossa anuência, uma vez que consumimos os produtos que vêm de lá alegres e felizes sem nos perguntar sobre o que aconteceu em sua longa cadeia produtiva.

De acordo com a CPT, ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), os assassinatos de sem-terra, indígenas, quilombolas, posseiros, pescadores, assentados, entre outros, tiveram um crescimento brusco a partir de 2015. No ano passado, o Pará registrou 21 assassinatos – sendo que dez apenas no Massacre de Pau D'Arco. Rondônia, Bahia, Mato Grosso, Maranhão e Amazonas completam a lista dos seis estados mais mortais. Das 70 mortes, pelo menos 28 ocorreram em massacres.

Com louváveis exceções, como a de magistrados com coragem de condenar escravagistas ou de procuradores que não dão trégua a quem mata e desmata, a Justiça tem servido para proteger o direito de alguns mais ricos e de grandes empresas braseiliras e estrangeiras (a Amazônia não foi "internacionalizada" por ONGs, mas por multinacionais) em detrimento dos que nada têm na região rural. Mudanças positivas têm acontecido, mas muito pouco diante do notório fracasso até o presente momento.

Os governos Dilma, Lula, Fernando Henrique, Itamar, Collor e Sarney não mexeram no modelo de exploração do campo, sendo corresponsáveis pelas tragédias que ocorreram sob seus mandatos. Já o governo Temer parece querer nos levar de volta à época da ditadura militar, quando a ocupação violenta da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal contava com a anuência do Estado.

Mortes no campo não são de hoje, mas há muitos produtores rurais e extrativistas gananciosos que estão com sangue nos olhos neste momento. Talvez por se sentirem fortalecidos pelas alianças políticas que fizeram, talvez por verem no atual governo federal um aliado para suas demandas. Querem mudar as regras da demarcação de territórios indígenas, suprimir ainda mais a proteção ambiental, "flexibilizar" as regras para a implantação de grandes empreendimentos, enfraquecer o conceito de trabalho escravo contemporâneo. E estão ouriçados quanto à possibilidades de vitória de determinados candidatos à Presidência e aos governos estaduais em outubro. Candidatos que prometeram liberar geral.

Preparem-se. A Era dos Massacres no campo está de volta. E, se não fizemos nada, ela veio para ficar.

 

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Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.


Leonardo Sakamoto