Blog do Sakamoto

Como os trabalhadores foram enganados durante a crise

Veja como você tem sido passado para trás nos últimos meses. E, ainda por cima, achando isso normal.

A crise econômica global veio em forma de marolinha para o Brasil, como previa o presidente Lula? Não. Mas foi longe de ser o tsunami alardeado por alguns empresários e pelas carpideiras a serviço de terceiros no espaço midiático. O fato é que o Brasil realmente chegou depois e está saindo antes da crise. E até começam a pipocar aqui e ali análises de que o país lucrou com tudo isso, como a manchete deste domingo do jornal O Estado de S. Paulo, que diz que o país está melhor do que entrou na turbulência global. A revista Exame soltou uma capa eufórica com a Bolsa de Valores de São Paulo, embalada com a recuperação econômica.

E apesar de todo esse crescimento, os empresários não estão recontratando na mesma velocidade com a qual demitiram. Uma matéria no Uol, também de domingo, trouxe dados do IBGE e do Ministério do Trabalho e Emprego, mostrando que o semestre terminou com 63 mil empregos a menos que em dezembro (queda de 0,64%), enquanto a produção das empresas subiu 16% no mesmo período. Em outras palavras, grandes empresas como Vale, Embraer e General Motors deram pé na bunda de empregados, lucraram e não contrataram. E mais: nem precisavam ter demitido.

Vamos voltar um pouco no tempo e ver quais os discursos foram usados para justificar seguidas tungadas no trabalhadores. Na época, foram saudados pelas carpideiras como “bom senso”. E hoje?

Caso Vale
“Eu tenho conversado com o presidente Lula no sentido de flexibilizar um pouco as leis trabalhistas. Seria algo temporário, para ajudar a ganhar tempo enquanto essa fase difícil não passa.” A frase é do presidente da Vale, Roger Agnelli, em dezembro de 2008. “Estamos conversando com os sindicatos também. O governo e os sindicatos precisam se convencer da necessidade [grifo meu] de flexibilizar um pouco as leis trabalhistas: suspensão de contrato de trabalho, redução da jornada com redução de salário, coisas assim, em caráter temporário.”

Se ela lutasse para sobreviver, poderíamos até entender a fala de Agnelli. Mas para uma gigante que teve lucro líquido de R$ 21,279 bilhões em 2008, R$ 20,006 bilhões em 2007 e de R$ 13,431 bilhões em 2006, essa declaração foi um tapa na cara. Reduzir direitos a fim de garantir os lucros dos acionistas.

Em janeiro, a empresa anunciou que iria adquirir a operação de minério de ferro da multinacional Rio Tinto, em Corumbá (MS), e outras posições dessa concorrente na Argentina, Canadá e Paraguai, por US$ 1,6 bilhão. Uma contradição no meio da crise? Nada. Na verdade, a Vale nos privilegiou com uma aula de capitalismo. A empresa aproveitou a crise para enxugar o custo trabalho, garantindo o lucro dos acionistas onde ele está mais em risco, e aproveitou a baixa dos preços internacionais causados pela crise para comprar posições no mercado – e se expandir. Por que não usar o dinheiro em caixa ou empréstimos para garantir a integridade da massa salarial sua e de seus terceirizados e só depois para ir às compras? Prioridades, prioridades…

Caso Embraer
A Embraer, terceira maior fabricantes de jatos do mundo, anunciou em fevereiro a demissão de mais de 4 mil empregados – 20% dos seus quadros.

Ao ver essa notícia, a impressão é de que os pedidos nacionais e internacionais de aeronaves desapareceram como em um passe de mágica: Puf!  Afinal de contas, uma empresa que ganhou (e cresceu) muito nos últimos anos e que estaria capitalizada para enfrentar fortes turbulências – sem trocadilho – certamente viu o abismo de perto para tomar medida tão drástica.

Contudo, mesmo sendo uma empresa eminentemente exportadora (e, lá fora, a situação está realmente mais feia), a empresa diminuiu em apenas 10% a previsão de entregas neste ano (de 270 para 242 aeronaves) com uma  queda de receita prevista em 13% (de 6,3 para 5,5 bilhões de dólares) – dados na época do Valor Online e da Folha Online. A empresa fechou o ano com uma carteira de pedidos firmes de 20,9 bilhões de dólares, tendo entregue 204 aviões em 2008. E, até agora, não houve catástrofe: no primeiro semestre de 2009, lucrou R$ 505 milhões, apenas 0,6% menos que no mesmo período do ano passado. Ou seja, não tinha como encontrar outra possibilidade para manter os trabalhadores?

“A Embraer expressa seu profundo respeito às pessoas que ora deixam suas posições [outro grifo meu] na Empresa. Respeito pelo trabalho que desenvolveram, pelo tempo de convívio profissional e pessoal, pelo momento difícil que atravessam.” Eu adoro esses trechos de notas que tentam dourar a pílula. “Deixar posições”? Como diria o articulista José Simão, tucanaram o “pé na bunda”! Se era para ter dito isso, melhor não dizer nada.

Este momento de crise econômica global também é uma ótima justificativa para acertar o custo trabalho em muitas empresas que avançaram tecnologicamente e, agora, querem dispensar mão-de-obra. Presidentes e CEOs (ou assessorias de imprensa, no caso dos mais envergonhados) vieram a público dizer que isso iria garantir a manutenção da “competitividade” nos negócios (e consequentemente, lucro). Não falaram, contudo, que isso ocorreria em detrimento à qualidade de vida dos trabalhadores que tornaram a capitalização possível.

O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos diz que a Embraer teve acesso a 7 bilhões de dólares de financiamento do BNDES (dinheiro público, meu, seu, nosso, dos trabalhadores em geral) desde que foi privatizada em 1994. O que só aumenta a necessidade de debater e implementar contrapartidas à concessão de crédito público que garantam manutenção de empregos. É importante ressaltar que a negociação dos empregados com a empresa teve que ser feita na Justiça do Trabalho.

Caso General Motors
Durante o pico da crise, a General Motors demitiu 744 trabalhadores de sua fábrica em São José dos Campos (SP) sob a justificativa de “diminuição da atividade industrial”. Mesmo após ter recebido apoio dos governos da União e do Estado de São Paulo no sentido de facilitar a compra de seus produtos por consumidores. O setor também é beneficiário de recursos oriundos de fundos públicos, como o Fundo de Amparo ao Trabalhador e o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, ou seja, pertencente aos trabalhadores.

Colunistas de economia e outras carpideiras disseram e escreveram que o Ministério do Trabalho e Emprego e sindicatos fazem uma chiadeira irracional, pedindo contrapartidas à cessão de linhas de crédito ou corte de impostos. Atestam que empresas não podem operar esquecendo que estão inseridas em uma economia de mercado, buscando a taxa de lucro média para continuar sendo viável. Em outras palavras, defendem que não dá para esperar que o capital seja dilapidado da mesma forma que o trabalho em uma crise. Blá, blá, blá…

Essa “regra do jogo” me faz lembrar um restaurante self-service. Você passa com a bandeja e escolhe o que quer e o que não quer para o almoço. O que é bom coloca no prato, o que é ruim fica para a massa se servir depois. Traduzindo: o Estado tem que garantir e ajudar o funcionamento das empresas, mas as empresas não podem sofrer nenhuma forma de intervenção em seu negócio. Um liberalismo de brincadeirinha, com um Estado atuante, mas subserviente do poder econômico, em que o (nosso) dinheiro público deve entrar calado para financiar os erros alheios. Privatizam-se lucros, estatizam-se prejuízos.

O setor automobilístico lucrou muito nos últimos anos no país. O que, é claro, se traduz em empregos, geração de renda, impostos e tudo o mais. É interessante como diretores de federações de patrões e economistas ligados a empresas defendem a redução salarial com manutenção de jornada durante a crise e se arrepiam quando sindicatos e parlamentares defenderam a diminuição de jornada de 44 para 40 horas semanais com manutenção salarial.

O governo tem a obrigação sim de exigir contrapartidas de quem vai receber recursos ou benefícios devido à crise econômica – aliás, este é o momento ideal para isso. Quando as empresas estiverem surfando novamente, após este ciclo recessivo mundial passar, vai ser mais difícil colocar cartas na mesa como agora.

Li depoimentos de montadoras dizendo que os trabalhadores têm que entender que esta é uma crise global e muitas de suas sedes estão passando sérias dificuldades, correndo o risco, inclusive de fechar. O que é mais um caso self-service. Lembro um exemplo que pode ser ilustrativo: um dia, matrizes de determinadas empresas automobilísticas foram questionadas sobre o porquê de não atuar de forma mais incisiva para evitar que suas subsidiárias em países como o Brasil estejam inseridas em cadeias produtivas em que há trabalho escravo ou crimes ambientais. Como resposta, disseram que há independência entre as ações da matriz e das subsidiárias e que as matrizes não podem interferir, apenas pedir que atuem de acordo com a legislação. Ótimo! Então, elas não vão se incomodar se o Brasil regular o envio de remessas de lucros para o exterior, que atingiu patamares recordes em 2008. Esses recursos poderiam ser utilizados para ajudar a passar a tempestade de forma mais suave. Já que elas não se incomodam com a qualidade de vida do trabalhador por aqui, por que se incomodar com o resultado dos lucros desse trabalho, não é mesmo?

Outro ponto que deveria ser cobrado como contrapartida é a redução dos salários de executivos sempre que houver qualquer prejuízo ao salário da massa trabalhadora. Que tal propor também a eles redução de salário sem redução de jornada? Ou propor que fiquem em casa alguns meses, vivendo do teto do seguro-desemprego, até que a situação melhore? Até nos Estados Unidos, berço da crise, parlamentares têm exigido como condição para conceder empréstimos públicos que as empresas dêem transparência sobre os ganhos de altos executivos de grandes empresas. Por que não adotamos aqui também?

Em momentos de crise como esse é que direitos trabalhistas e sociais têm que ser reafirmados, garantidos, universalizados e não o contrário. Pois é nesta hora que a população que sobrevive apenas de seu salário está mais fragilizada. E é em momentos como esse que sabemos quem é socialmente responsável. As empresas sérias se sobressaem, diante daquelas que desejam se aproveitar do momento. Alguém acredita, sinceramente, que uma vez retirados, esses direitos voltarão a ser garantidos?

PS: Aliás, é um absurdo alguém ainda dar ouvidos para os chamados os “especialistas”, as carpideiras do qual falo, que entre o final de 2008 e começo de 2009, disseram que o mundo iria acabar por aqui. Minha cachorra cega e surda de 17 anos acertou mais previsões de cenários do que eles. Deixaria meu fundo de investimento – se tivesse um – na pata dela e não na mão de muitos deles.

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Projeto quer Congresso responsável pela reforma agrária

Ao (finalmente) anunciar a atualização nos índices de produtividade, o governo federal e os movimentos que lutam pela reforma agrária sabiam que haveria um pesado contra-ataque dos ruralistas e conservadores de plantão. Que surgiu sob a forma de achaques pela imprensa, de ameaças abertas e veladas nos corredores dos ministérios ou de propostas estapafúrdias no Congresso Nacional. Muitas não têm chance de se tornarem lei, mas os ruralistas do país já se mostraram capaz de fazer mágica e operar milagres quando o assunto é a manutenção a todo o custo do princípio da “intocabilidade” da propriedade privada, mesmo que em desacordo com sua função social.

Um exemplo recente. O deputado federal Valdir Colatto (PMDB-SC) apresentou, nesta semana, um projeto de lei que dá ao Legislativo a decisão sobre cada desapropriação de terra para fim social. Ou seja, cada desapropriação com fins de reforma agrária iria demorar anos e anos para fazer toda a tramitação no Congresso. Isso se algum dia alguma viesse a acontecer, haja visto que o tapete verde em frente ao parlamento não é feito de grama e sim de pasto.

Isso vem a se somar a outras propostas que ferem os direitos humanos, como aquela defendida com unhas e dentes por Aldo Rebelo (PC do B-SP), que quer as demarcações de territórios indígenas passando pelo crivo do Congresso. Alega riscos à soberania nacional. Afe.

Os índices de produtividade atuais estão defasados (foram fixados com base no censo agropecuário de 1975) e desconsideram o avanço tecnológico que garantiu aumento da produtividade. Quem produz com essa defasagem (com exceção de situações de quebras de safra, desastres naturais…) pode estar subutilizando sua propriedade, muitas vezes visando apenas à especulação imobiliária, e poderia ser alvo de desapropriação. Enquanto isso, milhões de brasileiros estão em uma droga de emprego no campo ou acampados em busca de uma terra para trabalhar e produzir.

No Brasil, o direito à propriedade está acima do direito à vida. Até aí, nenhum novidade. Nessa lógica, trabalhadores rurais são assassinados no Rio Grande do Sul, missionárias emboscadas no Pará, seringueiros mortos no Acre, defensores dos direitos humanos desaparecidos no Maranhão, fiscais do trabalho chacinados em Minas Gerais, camponeses executados na Bahia.

Contudo, o melhor de tudo é saber que não é só o risco de perder a terra que assusta aos ruralistas, mas a possibilidade de ficarem sem a hoje abundante mão-de-obra barata caso os trabalhadores possam cultivar sua própria terra ou que os direitos trabalhistas fossem obrigatoriamente respeitados. Quem iria prestar serviços por um custo ridículo, gerando lucro para o patrão?

A mesma pergunta ecoa desde a Lei de Terras de 1850, que prevendo a libertação dos escravos, tornou a terra cativa, sujeito aos desígnios de alguns poucos. O Brasil está 159 anos atrasado em uma discussão que era para ter sido resolvida com distribuição de oportunidades para os mais pobres. Mas nossa elite política busca resolver isso acabando com a esperança deles.

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Bancos que financiam o desmatamento vão se dar mal

Os bancos que se cuidem. O Ministério Público Federal anunciou que deve fazer com as instituições financeiras o mesmo que fez com indústrias e varejistas que comercializam produtos oriundos do desmatamento da Amazônia no Pará. Ou seja, quem conceder crédito a fazendas, mineradoras, hidrelétricas e outros empreendimentos envolvidos em crimes ambientais vai enfrentar ações na Justiça seguindo o mesmo modelo que a cadeia da pecuária bovina está enfrentando. Conversei com representantes de bancos em São Paulo. Disseram que, com isso, terão que correr atrás do prejuízo.

Com base em um rastreamento de cadeias produtivas realizado em parceria com o Ibama, o MPF-PA iniciou duas dezenas de processos judiciais contra fazendas e frigoríficos, pedindo o pagamento de R$ 2,1 bilhões em indenizações por danos ambientais, no final de maio. Dezenas de empresas que compraram subprodutos desses frigoríficos receberam notificações em que foram informadas que haviam adquirido insumos obtidos através do desmatamento ilegal da Amazônia. A partir da notificação, deveriam parar de comprar desses fazendeiros e frigoríficos ou passariam à condição de co-responsáveis pelos danos ambientais. O mesmo ocorrerá com os bancos.

Com isso, no início de julho, frigoríficos e o governo do Pará assinaram termos de ajustamento de conduta com o Ministério Público Federal (MPF) que prevêem a moratória total do desmatamento, o reflorestamento de áreas degradadas e o licenciamento ambiental. Também irão informar a origem da carne aos consumidores e ao MPF, que vai verificar a existência de trabalho escravo, crimes ambientais e grilagem entre os fornecedores. As empresas que receberam recomendações para suspender contratos de comercialização com os frigoríficos, como os varejistas, poderiam retomar os negócios com a carne do Pará após esses TACs.

Alguns especialistas que lidam com esse problema no dia-a-dia acham mais fácil os bancos públicos federais e alguns bancos privados adotarem, na prática, regras mais rígidas para concessão de crédito do que o BNDES – que tem funcionado como um último refúgio de quem atua de forma ilegal na Amazônia. A ver.

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Cuidado para você não mascar um escravo por aí

Em duas ações de fiscalização no Rio Grande do Sul, o Ministério Público do Trabalho, o Ministério do Trabalho e Emprego e a Polícia Federal libertaram 14 pessoas, entre elas um jovem de 16 anos, em fazendas de pinus no município de São José do Norte. Como bem lembrou Bianca Pyl, aqui da Repórter Brasil, a árvore – que é cultivada em milhares de hectares da região Sul – é usada não só pela indústria da madeira, como a moveleira, mas também para a produção de resina utilizada na composição de produtos como o velho e bom chiclete. E cola, borracha sintética, tintas, vernizes…

O pinus vem sendo figura recorrente em libertações de escravos nos últimos anos, invadindo um território que tem o gado bovino, o carvão e a cana como expoentes.

Na primeira fiscalização, os trabalhadores estavam subordinados a Cleber Vieira Rosa Ltda e Valnei José Queiroz. Na segunda, à Serraria De Bona & Marghetti. Todas usavam “gatos” (contratadores de mão-de-obra) para arregimentar pessoas para o serviço.

Os escravizados dormiam em barracos feitos de restos de madeira e lona. Não havia instalações sanitárias. Descontos irregulares foram verificados: alimentos superfaturados eram adquiridos em estabelecimento comercial indicado pelos aliciadores. Por causa das dívidas, empregados ficavam sem receber. Um deles, estava há um ano e oito meses no serviço.

Os empregadores assinaram Termos de Ajustamento de Conduta (TAC), propostos pelo Ministério Público. Foram pagos os salários devidos, os direitos trabalhistas e uma indenização por dano moral individual. E o valor obtido por dano moral coletivo foi revertido em material para uma campanha que explicará o que é trabalho degradante em jornais do Rio Grande do Sul.

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Deputado diz que trabalhador é bêbado e sugere tutela

Este blog criou o Troféu Frango para premiar bizarrices em geral. Hoje, ele vai para o deputado federal Nelson Marquezelli (PTB-SP) por sua pouca fé nos trabalhadores do país.

Centenas de trabalhadores e patrões lotaram, nesta terça, a Câmara dos Deputados para acompanhar os acalorados debates sobre o projeto que prevê a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, com aumento do valor da hora extra e sem redução salarial.

Em entrevista à rádio CBN, Marquezelli defendeu que os deputados devem manter a jornada do jeito em que está para evitar que os empregados aproveitem as horas a mais de lazer para encher a cara:

“Se você reduzir a carga horária, o que vai fazer o trabalhador? Eles [os defensores da mudança na lei] dizem: vai para casa para ter lazer. Eu digo: vai para o boteco, beber álcool, vai para o jogo. Não vai para casa. Então, você veja bem, aí é que tá o mal: ele gastar o tempo onde ele quiser, se nós podemos deixá-lo produzindo para a sociedade brasileira.”

Preste atenção neste trecho “ele gastar o tempo onde ele quiser, se nós podemos deixá-lo produzindo para a sociedade brasileira”. Ou seja, nós, os iluminados, temos o dever de manter esses indolentes perdidos acorrentados ao trabalho. E mesmo que assim fosse, ou seja, que todos quisessem ficar bêbados nas horas vagas, que direito tem ele de interferir com a vida pessoal de cada um?

A última redução ocorreu há quase 21 anos, na Constituição de 1988, quando caiu de 48 para 44 horas semanais. Aos catastrofistas de plantão: saibam que o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) calculou que uma jornada de 40 horas com manutenção de salário aumentaria os custos de produção em apenas 1,99%.

O aumento na qualidade de vida do trabalhador, por outro lado, seria muito maior: mais tempo com a família, mais tempo para o lazer e o descanso, mais tempo para formação pessoal. Mas isso parece irritar Marquezelli.

Vale sempre lembrar que ele já criticou o grupo móvel de fiscalização do governo federal, responsável por libertar trabalhadores da escravidão no país. Segundo Marquezelli, essa atuação prejudica a imagem do Brasil no exterior: “Escravos nos já tivemos, não temos mais”. Ignora, com isso, os mais de 35 mil resgatados da escravidão contemporânea desde 1995.

E como o brasileiro é um desmemoriado, o deputado deve se reeleger nas eleições do ano que vem, com o apoio dos trabalhadores que insultou.

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Lei Maria da Penha foi para a roça em “A Fazenda”

Acabou o reality show “A Fazenda”. Não acompanhei o programa, portanto não pretendo emitir nenhuma opinião sobre sua qualidade. Contudo, fiquei sabendo que o ator Dado Dolabella, que ficou conhecido por agredir mulher e ser enquadrado na Lei Maria da Penha (que trata da violência doméstica), foi eleito o vencedor. Por voto maciço de internautas e telespectadores.

Pergunta para quem votou: um povo que não só esquece o que fez um agressor de mulheres como o premia com R$ 1 milhão tem moral para exigir a saída de um corrupto da presidência do Senado? Imagina! Zé, fica aí mais um tempo que esse povo vai deixar tudo para lá e, de quebra, você pode ser eleito herói nacional.

Posto abaixo o texto da jornalista Maíra Kubik Mano, do Viva Mulher, recorrente neste blog quando o assunto é questão de gênero:

Maria da Penha foi para a roça na Fazenda

Com o voto popular, Dado Dolabella venceu ontem o reality show “A Fazenda” e embolsou R$ 1 milhão. A final, disputada entre o ator e a cantora Danni Carlos, foi a coroação de um ex-global que não andava com a imagem muito positiva desde um episódio envolvendo violência e Luana Piovani.

Para quem não se lembra, no ano passado Dado foi enquadrado na Lei Maria da Penha por bater em uma funcionária de Luana e acabou preso ao tentar se aproximar da ex-namorada, descumprindo uma ordem judicial.

À época, muitos saíram em defesa do ator, dizendo que ele não deveria mudar seu estilo de vida apenas para evitar cruzar com alguém que havia agredido. “Vamos supor que o Dado esteja mastigando um delicioso atum no Sushi Leblon e, repentinamente, entra a Luana. O que deve ele fazer? Fugir dali, correndo, sem pagar a conta? Ou ainda ir para debaixo da mesa, chamar o garçom, explicar a situação, cobrir o rosto com um guardanapo e sair de fininho?”, disse então o vice-presidente de operações da Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, em seu blog.

Agora, em um período em que a Lei Maria da Penha está sob ataques, seja por interpretações distorcidas de juízes, falta de orçamento ou liminares que tramitam em tribunais superiores para tentar diminuir sua efetividade, a vitória de Dado pode ser uma demonstração de que a população de fato não se importa muito com antecedentes criminais como esse. Eu nem conheço Danni Carlos e muito menos acompanhei o reality show, mas votei nela. Achei que seria pedagógico Dado não ganhar e esperava que as pessoas se lembrassem de suas atitudes. É, não foi o que aconteceu.

Dado saiu vitorioso não apenas porque levou uma bolada em dinheiro. Ele conseguiu o que na comunicação chamam de “lavagem de marca” – um golpe midiático que permite a alguém ou a alguma empresa reconquistar o público após uma má fase ou um escândalo. Seja pelo poder da imprensa, pelo esforço do ator, porque a população se esquece com facilidade ou porque ainda encare com normalidade agressões como a que ele cometeu, a Lei Maria da Penha tomou mais uma rasteira. Ninguém comentou, viu ou se importou. Apenas legitimaram todo o circo armado e, com 83% dos votos, ajudaram a apagar do currículo de Dado o o item “bateu em mulher”.

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Líder dos cortadores de cana é vítima de atentado em SP

Elio Neves, presidente da Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo (Feraesp) e um dos principais líderes sindicais rurais do país, foi baleado por encapuzados com um tiro na nuca quando descansava em Ribeirão Bonito (SP) na tarde deste domingo (23). Posto, abaixo, trechos do que publicamos aqui na Repórter Brasil sobre o caso.

De acordo com informações divulgadas até o momento, a liderança foi vítima da ação criminosa de dois encapuzados que se dirigiram até a chácara onde eles estava em Ribeirão Bonito (SP). A dupla chegou até o local de moto, e o homem da garupa teria saltado, afastado os presentes sob ameaça de arma de fogo e, depois, alvejado Elio Neves.

Segundo informações da assessoria de imprensa do Hospital São Paulo, em Araraquara (SP), o presidente da Feraesp deu entrada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por volta das 16h. Ele está com um projétil alojado na nuca (no lado direito da parte de trás do pescoço), que atingiu um músculo e não afetou diretamente a coluna e a medula. O risco de morte, confirma a assessoria, é mínimo. Elio foi sedado e permanece em coma induzido. Dentro de 24 horas, o sindicalista deve ser submetido a novos exames médicos.

Agentes da Polícia Militar (PM) de Ribeirão Bonito (SP) colheram o depoimento da ex-mulher do sindicalista, que estava no local no momento do atentado. Os dois encapuzados teriam rendido ela e o caseiro e ordenado para que eles saíssem correndo. Em seguida, a ex-mulher teria escutado um tiro. De volta ao local, encontrou Elio a pedir socorro, ferido e caído na varanda.

A PM registrou boletim de ocorrência por tentativa de homicídio e o caso está sendo apurado pela Polícia Civil. Ninguém foi preso e a moto utilizada pelos suspeitos ainda não foi identificada pelas autoridades policiais.

Elio Neves ocupa posição de destaque entre lideranças dos trabalhadores rurais. Ele vem participando de diversos fóruns, com papel especialmente ativo na defesa dos cortadores de cana-de-açúcar. Ele também representou os trabalhadores na negociação tripartite do Compromisso Nacional para Aperfeiçoar as Condiçõesde de Trabalho na Cana-de-Açúcar. (Com informações da assessoria de imprensa da CUT/SP.)

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Frases para entender o Brasil

Mais uma para as “Frases para entender o Brasil”: curtas, grossas, maravilhosamente elucidativas do que faz o brasil Brasil.

Tema: Erro na execução de políticas públicas

“Mataram um. Tão matando pouco!”

Carlos Alberto Teixeira, fazendeiro gaúcho, expondo a plenos pulmões todo o seu sentimento de classe e desejo íntimo a manifestantes que protestavam contra o assassinato de um trabalhador rural sem-terra pela força policial do Rio Grande do Sul. A morte ocorreu na última sexta (21), durante uma truculenta desocupação no município de São Gabriel. Vale lembrar que o governo Yeda Crusius tem sido extremamente violento contra os movimentos sociais, defendendo o direito à propriedade acima do direito à vida. A repercussão negativa fez com que o coronel Lauro Binsfeld, subcomandante-geral da Brigada Militar, fosse afastado por “erro na execução” do planejamento. Deus que me livre e guarde se ele tivesse acertado.

Leia outras frases:

Tema: A propriedade privada
Tema: Insensibilidade
Tema: Tradição
Tema: Lobby
Tema: Meio Ambiente
Tema: Humor

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Não percebeu? No Brasil, sua vida vale cada vez menos

Curitiba - Principalmente, se você é pobre. Dois casos demonstram bem isso.

Primeiro: o caso ocorrido em lojas da rede Carrefour. Como relatei aqui, no dia 06, o pedreiro Ademir Peraro havia roubado coxinhas, pães de queijo e creme para cabelo do supermercado Dia%, pertencente à empresa, em São Carlos. O total do furto: R$ 26,00. Por isso, ele foi levado até um banheiro, agredido com chutes, socos e um rodo e deixado trancado, definhando, até às 22h. Depois, buscou socorro, mas já era tarde: acabou morrendo por hemorragia interna e traumatismos. Na delegacia, o segurança confirmou o caso e disse que seu supervisor, que o ajudou na sessão de tortura, havia sido o mais violento. Ninguém foi preso devido à falta de flagrante.

No dia seguinte, seguranças da loja do Carrefour em Osasco, Grande São Paulo, acharam que Januário Alves de Santana estava roubando um automóvel. Por isso, foi submetido a uma sessão de tortura de cerca de 20 minutos. “O que você fazia dentro do EcoSport, ladrão?”, perguntaram, enquanto davam chutes, murros, coronhadas, na sua cabeça, na sua boca. Quando os policias chegaram, mantiveram o terror. Segundo o site Afropress, um teria dito: “Você tem cara de que tem pelo menos três passagens. Pode falar. Não nega. Confessa que não tem problema”. O carro era dele, comprado em suadas 72 vezes de R$ 789,44.

Na cabeça dos seguranças do supermercado, um negro não poderia ter carro de bacana branco. Ambas empresas de segurança envolvidas, tanto no caso do pedreiro quanto no de Januário, que também é segurança, eram terceirizadas.

Segundo: o caso do trabalhador rural Elton Brum da Silva, morto na manhã desta sexta (21), durante uma ação de despejo de sem-terras da fazenda Southall, no município de São Gabriel (RS). A operação foi levada a cabo por 300 policiais da Brigada Militar estadual. Desde que assumiu, a política da governadora Yeda Crusius tem sido de repressão dura, violenta e intransigente contra os movimentos sociais. Seguindo essa toada, virão mais mortes até o final do mandato.

Yeda sustenta-se no cargo, mesmo com quase dois terços da população desaprovando seu governo, mergulhada até o pescoço em denúncias de corrupção que teriam beneficiado ela própria. Vale lembrar que o Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul pediu o seu afastamento, pois seria beneficiária de um esquema que desviou R$ 44 milhões do Detran gaúcho. Parte dos recursos teriam sido usados por Yeda para comprar uma casa de cerca de R$ 1 milhão.

Morto a rodo por furtar coxinhas, torturado por ter mais do que “aparentava”, assassinado pelas mãos da polícia por lutar por uma vida melhor. Enquanto isso, uma pessoa rica acusada de desviar recursos públicos para comprar uma casa pode continuar governando o Estado. Ou o Senado.

É por essas e por outras que tenho orgulho de ser brasileiro!

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Por quem os sinos dobram (ou quem rouba voto de quem)

Quatro pessoas, historicamente eleitoras do PSDB, e uma do PT me disseram ontem que votarão em Marina Silva quando ela sair candidata à Presidência: um jornalista de economia, um pesquisador de uma ONG ambientalista, uma administradora de empresas, um médico e um antropólogo (ok, parece início de piada de salão: havia cinco pessoas caminhando no deserto,  um brasileiro, um japonês…)

Este DataSaka não tem o mínimo de acuidade estatística, até porque não perguntei nada, eles que me disseram. E não estou fazendo uma análise sobre as eleições do ano que vem ou demonstrando qualquer preferência por A ou B. Apenas observando. Observei também as estratificações de intenção de voto no último Datafolha. E tenho a impressão de que, no universo da classe média brasileira, ao contrário do que boa parte da imprensa tem alardeado, não será a concorrente governista que perderá mais votos para a futura candidata do PV…

É a campanha gritando a plenos pulmões. A solução para isso? Ou leia, escute e assista a muito. Ou não leia, não escute e não assista a nada.

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