Blog do Sakamoto

Quem precisa de Jon Stewart se temos Tiririca?

Jon Stewart é um dos comediantes mais geniais em atividade. Em seu programa The Daily Show, consegue misturar, na medida certa, doses de humor, jornalismo e engajamento político, com inteligência e sem truculência (aliás, alguns pseudo-humoristas brasileiros bem que podiam aprender com seu estilo quando tentam se aventurar por essa área e acabam espumando grosseria).

Ontem, no National Mall em Washington DC (extensa área verde parecida, grosso modo, com a nossa Esplanada dos Ministérios, mas sem os ministérios), ele puxou uma série de comícios “para restaurar a sanidade” política e pedir a volta dos moderados, conforme matéria de Andrea Murta, na Folha de S. Paulo de hoje. A idéia foi ajudar a rebater a onda conservadora que está avançando nos Estados Unidos por conta das eleições legislativas marcadas para esta terça e, por isso, reuniu não apenas democratas (como ele próprio) mas também republicanos. Pelas fotos que estão circulando na internet, o Mall, graças a Alá, estava lotado.

O contraponto claro é ao pessoal do movimento de extrema direita Tea Party, que está ganhando evidência nessas eleições, com um discurso que quer limitar ainda mais a influência do Estado e aplicar na marra valores conservadores na vida das pessoas (bem, os mesmos que a gente conhece por aqui). Por enquanto, encontram no Partido Republicano um ambiente para prosperar. Até quando criatura – nhac – devorar o criador…

O fato é que muitos dos brancos, anglo-saxões e protestantes que fazem parte do grupo quase infartaram quando o governo Obama (que para eles é muculmano, indonésio e socialista) conseguiu aprovar um simulacro de sistema de saúde pública para os Estados Unidos. A depender o discurso de alguns deles, não duvido que não só a abolição da escravidão seria revogada, mas também a segregação por cor de pele nos banheiros públicos voltaria. Ou seria instituído o Dia Nacional de Caça ao Imigrante Latino Ilegal. “Olha lá, pai! Brasileiro vale três pontos, atira!”

Os discursos inflamados desse pessoal nas últimas semanas, que tenta alastrar um clima de medo contra mudanças necessárias ou mesmo garantias de direitos, pode em um primeiro momento beneficiar o partido republicano na disputa de poder com o governo. Ainda mais porque parte do eleitorado democrata está descontente, achava que o governo iria mais longe (feito a sensação de muitos eleitores históricos do PT no primeiro governo Lula). Mas no longo prazo, perde a sociedade de uma maneira geral. E nós que, gostando ou não, sofremos influência do que acontece por lá.

(Se você está pensando em fazer um doutorado nos Estados Unidos, a hora é esta. Apesar dos contextos eleitorais diferentes, as ondas consevadoras aqui e lá serão um prato feito para anos de pesquisas em política comparada. O que vai ter de instituto oferecendo bolsa de estudo para quem ajudar a entender esse fenômeno, não é brincadeira. Ou alguém duvida que as igrejas aqui também não cobram fatura?)

Fico imaginando se seria viável, por aqui, termos realizado um ato suprapartidário pela sanidade política, no Vale do Anhangabaú, no Aterro do Flamengo, no Gasômetro ou na Castro Alves, com artistas e políticos de ambos os lados, para impedir que os direitos humanos fossem jogados na lata do lixo – levando em conta que ambos os partidos que estão no segundo turno os têm/tinham como bandeira histórica. Já discuti isso anteriormente, então não vou entrar nessa seara. Talvez sim. Talvez não.

O problema é o mestre de cerimônias. Enquanto eles têm Jon Stewart como o comediante mais conhecido na política, por aqui, nós temos Tiririca.

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Também quero opinar em eleição para papa

Há semanas as campanhas eleitorais vêm bombardeando os brasileiros com imagens de seus candidatos beijando estátuas de santos ou rezando o Pai-nosso. Particularmente, tenho a certeza de que os dois são ateus ou, no máximo, no máximo, agnótiscos não-praticantes. Mas vá lá, este é um período especial e já discutimos exaustivamente neste blog sobre até onde vai a insanidade por um Dois-Dígitos-Confirma, o Santo Graal da política.

Mas, ontem, em um discurso a bispos brasileiros, o ex-cardeal Joseph Ratzinger condenou o aborto e a eutanásia e, implicitamente, a pesquisa com embriões para obtenção de células-tronco. Ou seja, o que era esperado dele. Mas foi além, e afirmou que “os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas”. Em plenas eleições brasileiras, Bento 16 pede para que os representantes de sua igreja orientem politicamente os fiéis.

Conversei com uma pessoa da comunidade do Jardim Pantanal (aquele bairro da capital paulista que se esvaiu em lama nas últimas enchentes) sobre isso e, apesar de ser extremamente religiosa, discorda da avaliação de Ratzinger. “Na Bíblia, está escrito para dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. A gente tem que separar o que é política do que é religião, senão não dá certo.” É a gente simples da periferia de São Paulo ensinando bons modos para o Vaticano.

Se eu também puder meter o bedelho em Conclaves, tenho algumas sugestões. Por exemplo: acho que quem foi da juventude hitlerista não pode ser participar da seleção. Ou quem acobertou casos de pedofilia dentro da igreja.

Ao final de sua carta, ele defendeu a solidariedade. Mas de que tipo de solidariedade ele está falando? Da caridade? Uma ação pouco útil, que consola mais a alma daquele que doa do que o corpo daquele que recebe? Ou da solidariedade de reconhecer no outro um semelhante e caminhar junto a ele pela libertação de ambos? Se for a primeira, ele está pregando a continuidade de uma igreja superficial, que ainda não consegue entender as palavras que estão no alicerce de sua própria fundação.

Se falou da segunda, a solidariedade como redenção do corpo e da alma, ele se referiu claramente à Teologia da Libertação. Prefiro acreditar que ele estava falando da primeira, pois seria irônico a atual administração do Vaticano (que dá continuidade à anterior) pregar algo que vem tentando soterrar há tempos.

A Teologia da Libertação tem sido uma pedra no sapato da Santa Sé. Na prática, esses religiosos católicos realizam a fé que o Vaticano teme ver concretizada ou não consegue colocar em prática. Pessoas como Pedro Casaldáliga, Tomás Balduíno, Henri des Roziers e Xavier Plassat, que estão junto ao povo, no meio da Amazônia, defendendo o direito à terra e à liberdade, combatendo o trabalho escravo e acolhendo camponeses, quilombolas, indígenas e demais excluídos da sociedade.

Imaginem se ao invés de Ratzinger, fosse Casaldáliga abrindo a boca para falar a bispos brasileiros. E a defesa da vida fosse feita de outra forma, retomando palavras que ele proferiu há tempos:

“Malditas sejam todas as cercas! Malditas todas as propriedades privadas que nos privam de viver e amar! Malditas sejam todas as leis amanhadas por umas poucas mãos para ampararem cercas e bois, fazerem a terra escrava e escravos os humanos.”

Para ajudar a entender como seria um catolicismo em que a Teologia da Libertação fosse a principal corrente, sugiro a seguinte leitura.

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STJ federaliza caso contra direitos humanos pela primeira vez

A Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) acolheu o pedido da Procuradoria-Geral da República e transferiu da Justica Estadual para a Justiça Federal o processo sobre o assassinato do ex-vereador, advogado e defensor dos direitos humanos Manoel Mattos. É a primeira vez que a federalização de um processo que trata de um crime contra os direitos humanos é aplicada.

Morador de Itambé (PE), Manoel Mattos denunciava a ação de grupos de extermínio na divisa entre os Estados da Paraíba e de Pernambuco. Foi morto a tiros em Pitimbu (PB), no dia 24 de janeiro de 2009, por dois homens encapuzados que invadiram a casa onde estava.

A ministra relatora Laurita Vaz avaliou que, no caso, está provada a 1) ocorrência de grave violação aos direitos humanos; 2) a necessidade de garantia do cumprimento, pelo Brasil, de obrigações decorrentes de tratados internacionais sobre o tema; e 3) a incapacidade das autoridades estaduais locais em agirem contra o problema, no caso, o grupo de extermínio que aterroriza a região. E, portanto, o caso é passível de ser federalizado. A relatora afirmou que não se trata de hierarquizar as relações entre entes federais e estaduais mas, pelo, contrário, o deslocamento de competência serviria para preservar as instituições, até mesmo, de condutas irregulares de seus próprios agentes, levando a seu fortalecimento.

Inicialmente o caso seria transferido da Justiça Estadual da Paraíba para a Justiça Federal de Pernambuco, mas acabou ficando no estado de origem.

Este é o segundo caso de Incidente de Deslocamento de Competência, como é conhecida juridicamente o pedido de transferência de um processo de esfera judicial, que chega ao STJ. O primeiro foi o do assassinato da irmã Dorothy Stang, ocorrido em 2005, em Anapu, no Pará. Para Dorothy, o instituto da federalização foi negado.

Comentários: As vítimas e suas famílias não podem esperar indefinidamente por um julgamento isento, com a menor pressão política e econômica possível. Se há casos em que a Justiça Estadual cria uma situação por conta de sua (in)ação ou sua (in)capacidade, que embale feliz as consequências. Ou, mais fundo, se as relações sociais estabelecidas entre alguns juízes e o poder local se tornam tão fortes que fica impossível atuar com isenção, o sistema de Justiça deveria possibilitar, de forma célere, a mudança de esfera para analisar certos casos.

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Califórnia envolve empresas no combate ao tráfico de pessoas

A Califórnia aprovou uma lei que obriga empresas que têm negócios no estado a publicar em seus sites as políticas que vêm (ou não vêm) adotando para combater trabalho escravo e tráfico de seres humanos em suas cadeias produtivas. A lei já foi ratificada pelo governador Arnold Schwarzenegger (toda a vez que escrevo isso não canso de me surpreender).

A medida é aplicada a empresas com faturamento bruto de mais de 100 milhões de dólares e deve afetar cerca de 3 mil companhias, que representam quase 90% da atividade econômica do estado, segundo a organização Business for Social Responsability (BSR).

Com base nessa lei estadual, congressistas norte-americanos devem propor o mesmo modelo para o âmbito nacional. “A lei [federal] irá aumentar transparência, possibilitar consumidores a fazer escolhas melhores e mais bem informadas e motivar empreendimentos a garantir práticas humanas através de sua cadeia produtiva”, afirmou a deputada Carolyn Maloney, democrata pelo Estado de Nova Iorque.

Você pode estar se perguntando: e essa medida vai lá mudar alguma coisa? Porque, afinal de contas, a lei pede que a empresa diga se está fazendo algo, não que faça. Portanto, se ela publicar no site: “Para combater o tráfico de pessoas e o trabalho escravo não estamos fazendo NECA DE PITIBIRIBA”, tudo bem, cumpriu a lei.

Contudo, membros da mais importante organização social que atua no combate a esse crime nos Estados Unidos, a Free the Slaves, me disseram que este é um passo importante no sentido da responsabilizar atores pelas suas cadeias produtivas. E ainda há um longo caminho a percorrer, é claro. A partir do momento em que uma grande empresa disser que está pouco se lixando para o problema ou se mentir sobre o que faz e a mentira for descoberta, isso pode gerar um problema para a sua imagem. A imagem é o ativo mais importante que elas têm e provavelmente não vão querer passar como aquelas que não querem fazer nada enquanto a concorrência decidiu sair na frente e enfrentar o problema. Não por bondade, mas por perceber que há consumidores interessados em comprar produtos que não sangram ou estupram o semelhante.

E considerando que as maiores empresas dos Estados Unidos, talvez do mundo, têm negócios na Califórnia, a lei do ator que virou governador irá, ao menos, botar muita gente para correr atrás do prejuízo. O que será, no mínimo, bastante didático.

Por aqui, no Brasil, já estamos bem mais avançados em políticas de responsabilidade social empresarial ligadas ao combate ao trabalho escravo e ao tráfico de seres humanos. Se alguém quiser mais informações sobre o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, clique aqui.

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Que Tuma fique, para sempre, na nossa memória

Romeu Tuma faleceu no conforto do Hospital Sírio-Libanês, como senador da República e com poder político (ainda que declinante), enquanto muitos opositores da ditadura militar, que ele defendeu, amargaram a escuridão das celas e o desaparecimento. Manteve cativa uma legião de fãs, parte dela saudosa de uma época em que a liberdade tinha que prestar continência para poder passar. E plantou sementes que se mantiveram após a redemocratização, pois o Brasil segue vasto em terreno fértil para intolerância.

Respeito o sofrimento de sua família. Mas todos – políticos, jornalistas, cientistas sociais – os que foram críticos a ele em vida não podem se atirar na estúpida condescendência para com os mortos, seja atrás de sua herança eleitoral, seja em nome de uma demagogia barata ou do apaziguamento tupiniquim. Não nos esqueçamos que ele dirigiu o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) durante a ditadura, instituição que moeu gente contrária aos verde-oliva e ao “Ame-o ou Deixe-o” dos anos de chumbo. Isso só para citar um ponto de sua controversa biografia, agora incensada.

Lembrar é fundamental para que não deixemos certas coisas acontecerem novamente. Que a história do delegado/senador seja contada e comentada como ela realmente foi, sem os retoques bonitos dos discursos políticos que começaram a florescer na tarde desta terça.

PS: Ao menos, Tuma era um rosto conhecido, público. Quantos outros delegados de órgãos de repressão da ditadura, sem contar torturadores, seguem anônimos, protegidos pela Lei da Anistia?

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Para camponeses, soja causa êxodo no Paraguai

A sociedade moderna é dependente de soja. E não estou falando apenas da parte visível do uso dessa leguminosa, como o óleo que frita o bife ou um sem número de alimentos que substituem proteína animal. Mas também da ração que alimenta nossas criações ou mesmo a indústria química, alimentícia e farmacêutica. Você usa soja sem saber. Boa parte dela, transgênica – mas aí já é outra história.

A América do Sul, Brasil à frente, é um dos principais pólos produtores/exportadores do grão no mundo. Contudo, o que gera riqueza e crescimento para a economia e uma parte da população não necessariamente se faz o mesmo para o restante. Ou, pior, o que significa crescimento para um grupo acarreta em agravamento de condições de outro. Dessa vez, vamos esquecer um pouco o Brasil e pensar no vizinho Paraguai, onde os conflitos envolvendo a produção de soja têm se acirrado.

E, antes que alguém reclame, não sou contra a produção de soja, de maneira alguma. Apenas acredito que é necessário repensar modelos de produção para que situações como a que acontecem dos dois lados da fronteira tenham um final diferente. A pesquisa de campo de onde pinço as informações abaixo é do Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis da Repórter Brasil, levada a cabo pelos jornalistas Antonio Biondi e Marcel Gomes:

“Os camponeses estão sendo desterrados. Não há políticas especiais para o campo”, denuncia Magui Balbunea, da Coordenação Nacional das Mulheres Rurais e Indígenas (Conamuri) do Paraguai. De acordo com ela, as conseqüências do atual modelo de expansão da sojicultura são cada vez mais graves. Com o avanço da soja, vem aumentando o número de sem-terras nos acampamentos e as terras agricultáveis disponíveis para a produção familiar são cada vez menores. “Há um empobrecimento terrível no campo, e migração para as maiores cidades”, acrescenta a liderança camponesa. Estimativas da Mesa Coordenadora Nacional das Organizações Campesinas (MCNOC) apontam que cerca de 100 mil pessoas estão deixando suas terras a cada ano para se concentrar na área urbana.

Entidade que reúne 27 mil famílias do campo, a MCNOC estima que, paralelamente, a concentração de terras em latifúndios cresceu cerca de 34 vezes nos últimos 20 anos, sobretudo sobre as comunidades rurais e sobre as terras indígenas. “Há fome, muita fome, por causa desse modelo”, afirma Luis Aguayo, secretário-geral da MCNOC. Nas contas da entidade, cerca de 2,4 milhões de paraguaios são pobres, e um milhão vive em extrema pobreza.

Segundo Elvio Trinidad, dirigente do Movimento Camponês Paraguaio, entidade que reúne 14 mil famílias, mais de 70% da população estavam no campo até a década de 1960. O censo agrícola mais recente mostra que 43% (cerca de 2,2 milhões de paraguaios) ainda vivem no meio rural. São pessoas que dependem, em boa parte, da atividade agrícola para sobreviver. De acordo com ele, “hoje temos de 300 mil a 500 mil camponeses sem terra para produzir”. Além da migração para as cidades, onde nem todos encontram empregos. Na capital paraguaia Assunção, por exemplo, há inúmeras pessoas sobrevivendo de “bicos”, empregos informais, ou, simplesmente, ganhando a vida como pedintes ou limpadores de pára-brisa nos semáforos. Muitos têm optado inclusive por sair do país. “A terra, que anteriormente estava com a comunidade campesina, agora está sob o controle dos sojeiros”, denuncia.

Organizações camponesas tentam mudar o cenário com a aprovação de leis, por exemplo. Elvio explica que os movimentos estão mobilizados por um projeto de lei para que a exportação de matéria-prima tenha sua tarifação reavaliada, uma vez que a soja hoje produzida no país conta com diversos incentivos fiscais e quase não paga impostos. Outra opção seria apoiar a produção de algodão. Trata-se de um produto que pode servir de base a uma indústria (têxtil) que já representou um setor de importante peso na agricultura do Paraguai. As organizações campesinas, é claro, defendem uma campanha nacional pela reforma agrária.

“Precisamos de um projeto de desenvolvimento nacional”, conclui Ladislau Bernardo, da Federação Nacional Campesina, sem deixar de registrar que “existe muita riqueza no Paraguai, mas precisamos aprofundar a sua distribuição”.

Tal lá como aqui.

Para se aprofundar no assunto, sugiro a leitura do relatório “Os impactos socioambientais da soja no Paraguai – 2010″, produzido em parceria pelo CMA-Repórter Brasil e a Base Investigaciones Sociales, do Paraguai.

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Em defesa da dignidade na hora da morte

Trago novamente esta discussão ao blog para que uma pessoa leia sobre isso (peço desculpas a quem já acompanhou esse debate antes). Espero que a reflexão lhe seja útil ou, ao menos, agradável neste momento difícil. Como ela, imagino que outros leitores do Uol também possam estar na mesma situação. Para todos, desejo, com sinceridade, um bom domingo.

Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1942. Sol. Contrariando a previsão do tempo, aquele seria mais um dia seguido de calor na capital do país. Casais de namorados andavam despreocupados pela orla de Copacabana e, no Catete, Getúlio posicionava as forças tupiniquins na grande guerra. Enquanto isso, além da linha do bonde, em uma casinha humilde no subúrbio, dava-se à luz uma menina. Pele negra, olhos puxados, quase três quilos e meio, Maria.

Têm sido frequentes os pedidos à Justiça na Europa e Estados Unidos para que doentes terminais com dores insuportáveis cometam eutanásia. Querem ter o direito de partir lúcidos e ao lado dos familiares, mas muitos apelos vêm sendo solenemente ignorados. Acabam cometendo suicídio sozinhos, outros ajudados na clandestinidade. Na verdade, pouco importa, porque em ambos os casos significa que o Estado lhe deu as costas.

Exemplos como esses fazem sentir o quão mesquinha é a humanidade. Afinal, isso não é uma discussão sobre a morte, mas sobre a vida e sua dignidade, ou seja, de como as pessoas querem terminar os seus dias.

Maria, como tantas outras Marias, cresceu em um lugar pobre. E como tantas outras Marias ficou órfã muito cedo. Seu pai morreu quando ela ainda não havia desmamado e a mãe seguiu o marido não muito tempo depois. Caçula de quatro irmãos, foi ser criada pela tia. Aos 14, deu o seu grito de independência. Apesar de inteligente, a monotonia da escola não era para ela. Seria considerada apenas mais uma criança problemática pela psicologia moderna. Deixou sua casa e saiu pelo mundo em busca da vida.

O Estado deve proteger a vida. Mas que tipo de vida? Aquela sem qualidade nenhuma, de dor e sofrimento, apenas para cumprir uma exigência legal, filosófica ou religiosa?

Histórias de médicos que cometem eutanásia (para além da ortotanásia, que é deixar a vida e a morte seguirem seu curso e se encontrarem) diariamente nas UTIs não são raridade no Brasil. Pessoas com sensibilidade para entender quando o seu semelhante quer dar cabo de sua existência devido a um sofrimento extremo e não tratável. Normalmente, aumentam a dose de medicação até o ponto de falência do organismo. Mas, da mesma forma, há os que atendem os apelos de familiares que não querem deixar seus entes queridos partirem e os mantém em uma não-vida por meses. Ou aqueles que acreditam que podem controlar a vida alheia sob o nome de Deus.

De acordo com o historiador Phillippe Ariès, no seu livro O homem diante da morte, a partir do século 12, entre os ricos, os letrados e os poderosos cresceu a idéia de que cada um possui uma biografia pessoal. No início, essas biografias era constituídas apenas dos atos bons e maus de cada um, unidos em torno de um só julgamento: o de ser. Com o passar do tempo, a biografia foi se constituindo também de coisas, animais, posses, pessoas apaixonadamente amadas e de uma reputação: a de possuir.

Ao final da Idade Média, a consciência de si mesmo e da sua biografia confundiu-se com o amor pela vida. A morte começou a ser encarada não mais como a conclusão “do ser”, mas uma separação “do possuir”: morrer é deixar casas, plantações, cavalos e jardins. Em plena saúde, a alegria de aproveitar “as coisas” ficou alterada pela visão de que um dia o fim chegaria. O contexto histórico também não ajudou muito: no continente europeu, a peste negra exterminou boa parte da população. Tudo isso fez com que a morte deixasse de ser balanço de contas ou sono (para os que acreditavam em vida após a morte) para se tornar carniça e podridão. Não mais o fim da vida, mas morte física, sofrimento, decomposição.

Desvincular a idéia de morte como prejuízo ou frustração, esse é o primeiro passo que deve ser dado para mudar nossa visão diante da eutanásia. Se por um lado o fim da vida pode representar culpa aos que estão indo, significa derrota para os que tentam curar.

Devido ao seu temperamento explosivo, Maria não ficou no seu primeiro emprego por muito tempo. Era desbocada. Quando tinha que dizer algo, não relutava e dizia. Depois tinha que arcar com as conseqüências. Não se tem muito conhecimento sobre sua juventude. O que se sabe vem da boca do povo. As boas línguas dizem que Maria deu sangue e suor para sobreviver. As más, que era boêmia, que dançava, que cantava, que era namoradeira, que bebia muito, que saía sozinha, que contava piadas cabeludas, que juntara os trapos sem passar pelos laços do sagrado matrimônio. Quando questionada sobre o que realmente aconteceu nessa época, Maria ficava em silêncio. E depois de um instante sorria, dizendo: eu era feliz.

A Medicina convencionou chamar de pacientes terminais as pessoas que se encontram no estágio final de moléstias fatais, como é o caso de um câncer avançado ou da Aids. Em muitos hospitais, laboratórios e centros de saúde trava-se uma verdadeira batalha contra essas doenças. No livro Aids e suas Metáforas, a escritora Susan Sontag diz mais: “é uma guerra na qual o inimigo precisa ser derrotado a qualquer custo”. Louvável o empenho dos doutores da ciência. Contudo, o problema é que diversas vezes essa guerra assume um valor muito alto, financiado às custas da dignidade do paciente.

Ninguém quer perder nunca. Muito tempo atrás, ouvi de Caio Rosenthal, um dos mais respeitados infectologistas brasileiros, disse que é necessário que o médico tenha a capacidade de compreender as suas limitações. “Ele é formado para salvar vidas e, quando se depara com uma situação de morte, a encara como uma derrota pessoal. Isto está errado. Quando o paciente está no fim da vida e o médico passa a estendê-la artificialmente, pensa que está em um jogo. Um jogo entre ele e a morte da pessoa. E como inexoravelmente é a morte que ganha nessas condições, ele acaba se julgando um perdedor”.

“A morte é apenas mais uma etapa da vida e como tal deve ser encarada”, me afirmou a psicóloga Ana Maria Barbosa. Aceitá-la como mais uma fase pela qual todos teremos que passar, conviver com a idéia de finitude da própria existência e tirar o máximo proveito disso.

Contudo, como disse o poeta, “pensar que a vida cessa é íngreme”. Saber que há um fim faz o homem evoluir enquanto indivíduo, enquanto sociedade. Leva o homem a se levantar, bater a poeira e ir atrás dos seus objetivos na Terra, uma vez que seu tempo aqui é escasso.

Qual o principal objetivo do homem? Essa pergunta sempre vem à tona quando se chega a esse ponto da discussão. Para que estamos aqui? Sem querer encerrar uma discussão relacionada ao sentido que damos à nossa própria existência, gosto de caminhar na mesma direção daqueles que acreditaram que a razão resida na busca da felicidade. Mas, se é assim, também é grande o número de pessoas que deixam escapar de suas mãos a chance de dar sentido às suas vidas. É comum ouvir frases do tipo: “bem que eu gostaria, mas tenho que deixar para depois”.

Boa parte das pessoas que sofrem de doenças fatais caem em uma angústia profunda e negam veementemente o fim de suas existências. Muitos pacientes não aceitam o fim como etapa do processo e sofrem muito negando a morte. Isto não significa que a notificação da proximidade do seu próprio óbito tenha que ser recebido com júbilo. Mas de onde vem esse sentimento de revolta, essa tristeza?

Há uns 35 anos, Maria conheceu Antônio. Definitivamente não foi amor à primeira vista. Maria era extrovertida, grandona, aloprada. Antônio era baixo, calado, trabalhador. Casaram-se e pouco tempo depois foram tentar a vida em São Paulo. Através da Caixa Econômica Federal financiaram um apartamento de dois quartos lá na Vila Maria. E Maria foi tentar realizar um velho sonho: ter uma criança. Porém, a sorte lhe fez abortar duas vezes antes de descobrir que era estéril. Não desanimou. Adotou José. E gostou tanto que seis anos depois, trouxe Carolina para fazer parte da família.

“Na verdade, não é a morte que está sendo negada e sim tudo o que deixou-se de fazer na vida. Ou seja, a angústia da morte é conseqüência da falta de importância que se deu à vida”, afirma Ana Maria Barbosa. Em sua dissertação de mestrado Viagem ao Vale da Morte – um estudo psicológico das mulheres que, por sofrerem de câncer de mama, tiveram o seio amputado – ela quebra as amarras sobre o tema:

“A questão não é a morte, mas a vida! Desta maneira cabe ao homem dar sentido à sua própria existência. A intensa dificuldade em lidar com o próprio ódio diante do engodo da vida. Talvez seja este o fator que impossibilita a aceitação do fim. Em contrapartida, a melancolia torna o sofrimento interminável. Perdido o objeto [a morte] e desconhecido o que se perdeu nele [a vida], instalado está o vazio, amputada está a fonte de alimento e aconchego.”

José já era homem e Carolina uma garotinha sapeca quando Maria descobriu um carocinho no seu seio direito. Exames mostraram que estava tudo bem, que o tumor era benigno. Seria feita apenas uma pequena cirurgia para extrair o nódulo. Porém, quando abriram, viram um tumor, maligno, dominando todo o seio. Para que a praga não atingisse outro lugar, foi consenso arrancar-lhe a mama. A partir daí, Maria teve que dividir os afazeres domésticos com sessões semanais de rádio e quimioterapia. Devido às doses cavalares de química, o seu pulmão direito foi queimado. Mas ninguém lhe contou. Maria pensava que a dificuldade de respirar fazia parte da debilidade causada pelo tratamento.

O tratamento psicológico que é dado aos chamados pacientes terminais não deveria ter como objetivo a cura ou o prolongamento de seus dias. “A ênfase está na qualidade e na ressignificação da vida. É preciso que não se ouça apenas as máquinas e as sondas. Dar abertura e espaço para o paciente dizer aquilo que tiver necessidade”, é o que ensina Maria Júlia Kovács, professora de psicologia da morte, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Começou a sentir dores na perna. Feito o raio-X, mais um carocinho apareceu. O médico, não se sabe porque, afirmou que aquilo não era câncer mas um machucado qualquer. E nada foi feito. Maria sabia que estava morrendo. E dizia que não podia ir embora enquanto não garantisse o futuro dos filhos. Antônio, apesar de bom homem, tinha pouca ou nenhuma iniciativa. Maria pediu, então, empréstimo e montou uma confecção. O empreendimento não durou muito pois não era muito boa para dar ordens. Fazia mais o tipo: se alguma coisa tem que ser bem feita, faça você mesmo. Vendeu a confecção e alugou um galpão abandonado que reformado virou uma avícola. Apesar do câncer e de um pulmão a menos, fez o negócio prosperar. A ponto de poderem mudar do velho apê para uma casa maior e melhor. A doença e as dificuldades não abalaram o jeito de Maria encarar o mundo. A teimosa continuava feliz.

Um tratamento psicológico que poderia ser receitado para qualquer momento da vida. Dar um significado, viver a vida, ter uma vida digna. Não deixar nenhuma página do livro da vida em branco e, ao virar a folha, ter a certeza de que esta foi única. Se assim for, no momento em que chegar à última, irá encará-la de uma maneira muito melhor. E ao fechá-lo, alguém poderá dizer que o livro valeu a pena. Não será guardado na estante, mas servirá de exemplo aos novos autores. Ora, é a qualidade de um livro medida pelo seu número de páginas ao invés de seu conteúdo?

Naquela noite, Maria foi internada às pressas no hospital. Estava enjoada, dolorida e com falta de ar. Apesar de seu histórico ser grave, não foi à UTI pois o plano de saúde não cobria este tipo de despesa. Ficou em um quarto, sozinha. Dia seguinte, Antônio ligou para saber qual o estado da esposa. “Bem, ela vai indo muito bem”, responderam as enfermeiras de plantão. Mas sentia alguma coisa errada. Insistiu para verificarem como estava Maria. Resmungando, as mulheres de branco acataram o pedido. Na volta, a notícia: “Infelizmente sua esposa faleceu”. Causa mortis: insuficiência respiratória.

A definição de “vida” do livro Ciência e Vida com o qual passei a 3º série do 1º grau é: “processo através do qual os seres nascem, crescem, reproduzem-se, envelhecem e morrem”. Mas a vida, em verdade, é muito mais do que isso. Pelo menos é o que os relatos de milhares de anos de história humana fazem crer. Há algo entre o nascer e o morrer que nos faz únicos. E não é o tempo que permanecemos no planeta e sim a forma como gastamos esse tempo. Maria gastou bem. Por isso, o relato que acaba aqui não tem o objetivo de fazer a cabeça de ninguém. É simplesmente a história de alguém que viveu a vida com dignidade até o fim. Como as coisas deveriam ser.

São Paulo, 30 de janeiro de 1996. Todos os que foram ao seu enterro – diga-se de passagem, não eram poucos – esperavam encontrar uma figura triste, debilitada e comida pelo câncer. Ficaram sem entender. Maria morreu sorrindo.

(*) Maria, que não se chamava Maria, era uma pessoa próxima a mim. Não queria viver para além de sua felicidade. Teve seu desejo atendido.

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Troque coco por bolinha, rolo de fita por andorinha

Primeiros minutos de Monty Python – Em Busca do Cálice Sagrado, considerado uma das melhores comédias nonsense do cinema. Tão nonsense que chega a fazer sentido. Como as coisas que aparecem nas eleições brasileiras. Depois, separar o que é verdade e o que não é fica difícil.

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Para banqueiro, reforma trabalhista é desnecessária

“Imagina uma reforma trabalhista? O Brasil iria parar para discussões intermináveis que, ao final, poderiam nem alterar tanto as coisas.”

A frase não saiu de nenhum sindicalista maluco irresponsável, juiz do Trabalho esquerdista irresponsável, político comunista irresponsável, mas de Roberto Setúbal, presidente do Itaú Unibanco, maior banco privado do país. A avaliação, registrada pelo jornal Valor Econômico de hoje (para assinantes), ainda afirma que as reformas trabalhista, tributária e política não são essenciais para o país crescer pelos próximos anos e, com pequenas alterações, é possível manter um ritmo anual de 7% de aumento do PIB. As declarações foram dadas em seminário da Fletcher School, na sede da Fecomércio, na capital paulista. Outros participantes não concordaram, é claro, com as declarações de Setúbal, mas vou me ater a ela por conta de ele ser quem é.

É fato que o atual ocupante da Presidência da República provocava calafrios em boa parte dos investidores e industriais durantes anos – vale lembrar a promessa de debandada de centenas de milhares de empresários feita por Mário Amato durante as eleições de 1989 e repetida por outros durante o pleito de 2002. A verdade se mostrou diferente: nunca o capital, e mais especificamente o sistema financeiro, ganhou tanto dinheiro quanto no governo Lula. Milhões saíram da miséria, mas os banqueiros ganharam rios de dinheiro. E sem que o atual governo tenha adotado todo o receituário do Consenso de Washington, no que pese ter abraçado práticas que antes condenava – e que afastaram antigos correligionários e apoiadores.

Enquanto parte significativa do mercado, economistas e colunistas defendem uma reforma trabalhista (tema recorrente neste blog) que desonere o empregador e crie mais alternativas para o crescimento econômico, Roberto Setúbal, um dos homens mais ricos do país e dono de uma das maiores empresas do mundo está dizendo que isso não é necessário. Ou, usando um termo caro a muitos conservadores: as reformas trariam uma espécie de “insegurança jurídica”, mudariam aqui, trocariam ali, sem a certeza de algo melhor. E, enquanto isso, as empresas ficariam em compasso de espera.

Informatizar, desburocratizar e tornar mais eficiente a aplicação da lei é possível, desejável e certamente irá gerar boa economia de recursos para empresários e de tempo para trabalhadores. Mas o problema é que, por trás do discurso do “vamos simplificar”, estamos ouvindo hoje propostas de tirar do Estado o papel de regulador nesse processo, deixando os compradores e vendedores de força de trabalho organizarem suas próprias regras. Quando um sindicato é forte, ótimo, a briga será boa e é possível que se obtenha mais direitos do que aquele piso da lei. Mas, e quando não é, faz-se o quê? Senta e chora?

Mudar leis trabalhistas é, na prática, um jogo de soma zero. Ou seja, para alguém ganhar, outro precisa perder. Quando alguém promete uma reforma trabalhista sem tirar direitos dos trabalhadores, irá provavelmente seguir por uma dessas três opções: a) mudar a CLT e acrescentar direitos aos trabalhadores e tirar dos empresários; b) desenvolver um novo conceito do que seja um direito trabalhista; ou c) vai operar um milagre.

Diante disso (e de uma taxa de desemprego em mínima histórica de 6,2%), o banqueiro deve estar se perguntando sobre as regras do mercado de trabalho: para que mexer em time que está ganhando?

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Governo encontra escravos produzindo coletes do Censo

Um lote de coletes para recenseadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) passou pelas mãos de 15 imigrantes bolivianos submetidos a condição análoga à escravidão. A história é mais um fruto da falta de controle sobre a terceirização no setor de confecção.

1) A empresa F.G. Indústria e Comércio de Uniformes e Tecidos Ltda., com sede em Londrina (PR), venceu uma licitação de R$ 4,3 milhões para a produção de 230 mil coletes para o Censo 2010.

2) Apesar do edital não permitir a terceirização, a empresa vencedora terceirizou quase toda a produção (99,12%).

3) Uma das subcontratadas pela F.G. acabou repassando parte da encomenda para uma terceira empresa, uma oficina de costura precária localizada na Zona Norte da capital paulista, onde ocorreu a fiscalização.

A matéria é dos jornalistas Bianca Pyl e Maurício Hashizume, da Repórter Brasil, que acompanharam a fiscalização da Superintendência Regional do Ministério do Trabalho e Emprego em São Paulo em 11 de agosto, em um complexo de oficinas no bairro paulistano da Casa Verde. Aguardou-se a conclusão do relatório de fiscalização e a verificação da cadeia de responsabilidades para que a informação fosse divulgada ao público, de forma a não prejudicar a investigação.

Durante o processo de pregão eletrônico para a contratação do serviço, o primeiro lance apresentado pela F.G. foi de R$ 52,34 para cada colete. A proposta final vencedora da mesma empresa foi de R$ 18,70. Para produzir o lote de 51 mil coletes, a oficina número 2, que funcionava às margens da legalidade em Guarulhos (SP), foi contratada pela primeira para receber R$ 5 por colete. Ela, por sua vez, passou parte da demanda para a oficina número 3, do boliviano Willy, que recebeu R$ 1,80 por colete. Esse valor engloba apenas o serviço. “Fazendo este cálculo, é possível verificar que não houve distribuição de recursos [ao longo da cadeia]. O lucro ficou nas mãos da FG e não chegou aos trabalhadores [que efetivamente confeccionaram as peças]“, analisa Renato Bignami, da SRTE/SP, que coordenou a operação como parte do programa do Pacto Contra a Precarização e pelo Emprego e Trabalho Decentes em São Paulo – Cadeia Produtiva das Confecções. Representantes da Defensoria Pública da União (DPU), do Ministério Público Federal (MPF) e dois juízes do Trabalho compuseram a comitiva que esteve na Casa Verde.

De acordo com a reportagem, a F.G. foi notificada a providenciar a regularização dos vínculos empregatícios de todos os trabalhadores flagrados na cadeia produtiva.

O IBGE também foi notificado para que o pagamento de parte do contrato que ainda estivesse pendente com a F.G. fosse suspenso até que essa empresa quitasse suas dívidas com o FGTS. O Instituto informou à Repórter Brasil que recebeu a notificação, mas já havia pago todo o valor para a contratada. De acordo com o IBGE, a empresa apresentou todos os comprovantes exigidos (documentação jurídica, atestados relativos à regularidade fiscal, à qualificação técnica e à qualificação econômica financeira) e venceu a licitação pelo critério de menor preço ofertado.

O edital de confecção dos coletes para os recenseadores do Censo 2010 estabelece a obrigatoriedade de que as propostas de preços apresentadas pelas empresas contenham declaração expressa de que os valores ali contidos devem incluir todos os custos e despesas para o cumprimento de encargos sociais e trabalhistas e outros. Mas, para o IBGE, “não é da competência do órgão fiscalizar condições de trabalho junto às empresas fornecedoras”.

Desde 1995, o governo brasileiro já libertou cerca de 40 mil pessoas do trabalho escravo. Essa forma de superexploração pode ser encontrada nas cadeias produtivas da carne bovina, do aço, algodão, soja, milho, arroz, feijão, frutas, madeira, erva-mate, cana-de-açúcar, cacau, babaçu, entre outras.

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