Blog do Sakamoto http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política. Cobriu conflitos armados e o desrespeito aos direitos humanos em Timor Leste, Angola e no Paquistão. Mon, 18 Sep 2017 23:25:33 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Quem defende “intervenção militar” não gosta de aulas de História http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/18/quem-defende-intervencao-militar-nao-gosta-de-aulas-de-historia/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/18/quem-defende-intervencao-militar-nao-gosta-de-aulas-de-historia/#respond Mon, 18 Sep 2017 22:06:51 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=35205

Uma coisa é ter opinião. Outra é gente que acha que a Constituição é papel higiênico e as instituições democráticas (que levamos décadas para tentar construir) são um grande vaso sanitário. E defende que seu ponto de vista seja aplicado à força, através do fuzil e do canhão, em prejuízo à liberdade e à dignidade do restante da população.

Muitos colegas fizeram textos claros e contundentes a respeito das declarações do general Antônio Hamilton Martins Mourão, secretário de economia e finanças do Exército, favoráveis a uma “intervenção militar”. Ele afirmou que, caso a Justiça não consiga tirar da política os envolvidos em ilícitos, os militares terão que impor isso. E que há planejamentos nesse sentido.

Pior do que isso apenas a covardia de um presidente que não se manifestou publicamente contra elas. Mas era de se esperar que uma pessoa que se mantém no poder à base da impunidade não fosse capaz de repreender alguém por atacar a democracia.

As Forças Armadas de hoje não são as mesmas do período da última ditadura, da mesma forma que os contextos nacional e internacional são outros. Seus líderes têm, repetidas vezes, confirmado que o comando é e será civil. E o respeito às liberdades individuais e às instituições continuará, sem intervenções ou golpes.

O problema é que esse tipo de declaração alimenta os malucos de plantão, que podem ser bem agressivos. Um pessoal que acha que a República é a titica do cavalo do bandido e vê comunismo na tigela dos cereais do café da manhã. Seres mágicos que parecem se reproduzir de forma assexuada, por brotamento, aos milhares na internet. Pessoas que defendem uma “intervenção militar constitucional” (haha), o bloqueio da conversão do país em uma “ditadura gayzista” (kkkkkkk) e uma ação para evitar a iminente “implantação do comunismo” (#morri).

Pessoas que dizem que o mal precisa ser extirpado e o bem recolocado no lugar. E quem é o mal? Daí reside o problema. Ouvimos cada vez mais que há pessoas ou grupos que representam o mal, cuja natureza é contra os costumes e as tradições dos “homens e mulheres de bem”, e precisam ser extirpados.

Na superfície dessa afirmação, há ódio. Mas se escavarmos um pouco, chegaremos ao medo e, em seguida, à ignorância sobre o outro. Pincelado por horas de aulas de História cabuladas para ir empinar pipa ou fazer footing no shopping.

Já escrevi isso antes, mas achei que era importante trazer a discussão aqui novamente. Lidamos com o passado como se ele tivesse automaticamente feito as pazes com o presente. Não, não fez. E o impacto de não resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia a dia das periferias das grandes cidades, em manifestações, nos grotões da zona rural, com o Estado aterrorizando, reprimindo e torturando parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica).

Diante da atual tentativa de excluir o espírito crítico dos bancos escolares, através de ações reacionárias como o “Escola Sem Partido”, desejo que a história daquele período continue a ser contada nas escolas até entrarem nos ossos e vísceras de nossas crianças e adolescentes a fim de que nunca esqueçam que a liberdade do qual desfrutam não foi de mão beijada. Mas custou o sangue, a carne e a saudade de muita gente.

Se ficarmos apenas assistindo boquiabertos aos retrocessos sociais, ambientais, econômicos, políticos e civis, o que é um pesadelo do passado voltará a ser nosso cotidiano. Liderado por falsos “salvadores da pátria”, eleitos no braços de quem está cansado de tudo o que está aí Inclusive da liberdade para procurar soluções de forma coletiva aos problemas da sociedade. Só dessa forma, os poucos milhares que hoje clamam por um golpe militar ou pela volta da ditadura continuarão a ser vistos pelo restante da sociedade como mal informados, ignorantes ou insanos.

E também como já disse aqui, acho importante esse pessoal mostrar sua cara e dizem quem é. Vocês não tinham curiosidade de saber quem eles são? O que comem? Onde vivem? Como se acasalam? Pronto, taí. Temos a responsabilidade de, uma vez identificados, despejarmos todo o carinho e paciência possíveis. Pois, talvez um dia, compreendam o que significa a liberdade que está diante de seus olhos, mas que não conseguem enxergar.

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Nos 40 anos de sua invasão, PUC diplomará cinco alunos mortos pela ditadura http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/17/nos-40-anos-de-sua-invasao-puc-diplomara-cinco-alunos-mortos-pela-ditadura/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/17/nos-40-anos-de-sua-invasao-puc-diplomara-cinco-alunos-mortos-pela-ditadura/#respond Sun, 17 Sep 2017 22:50:33 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=35195

Estudantes se concentram em frente à PUC-SP antes da invasão em setembro de 1977. Foto: Iconographia

Por José Arbex Jr.*, especial para o blog

Os estudantes Carlos Eduardo Fleury, Cilon Cunha Brum, José Wilson Lessa Sabbag, Luiz Almeida Araújo e Maria Augusta Thomaz jamais completaram os seus cursos na PUC-SP, onde estudavam, no final dos anos 60. Foram assassinados pela ditadura militar. Os corpos de Luiz Almeida (Lula) e de Cilon Brum ainda não foram encontrados. Nesta segunda (18), eles serão homenageados pela Comissão da Verdade criada pela universidade, que, com a cerimônia, encerrará formalmente seus trabalhos. A PUC lhes concederá um diploma simbólico, como parte de uma semana dedicada a lembrar os 40 anos desde que a universidade foi invadida, com grande selvageria, por tropas da Polícia Militar comandadas pelo coronel Erasmo Dias.

“Para relembrar os 40 anos da invasão, precisávamos de algo que revivesse a memória desses estudantes. Então, pensamos em atribuir um diploma para cada um deles. Não podemos atribuir um diploma no sentido formal, porque nenhum deles pode completar a graduação, mas nós vamos homenagear e reconhecer, postumamente, a presença desses estudantes na universidade. Os diplomas serão encaminhados para as famílias desses estudantes no dia 22. A data faz a ponte entre os movimentos sociais e estudantis durante a ditadura militar e a presença da Universidade na luta pela redemocratização. Esses meninos e meninas são heróis”, afirma a reitora Maria Amalia Andery.

No dia 22 de setembro de 1977, estudantes oriundos de todo o Brasil celebravam a realização do 3º Encontro Nacional dos Estudantes (proibido pela ditadura), em frente ao teatro da PUC, o Tuca, situado na rua Monte Alegre, bairro de Perdizes, quando foram surpreendidos pela polícia. A tropa de choque chegou disparando bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral, cercando e empurrando para dentro do campus todos os que ocupavam a rua em frente ao teatro. Os soldados invadiram salas de aula, laboratórios e todas as dependências universitárias.

Erasmo Dias berrava feito um alucinado, multiplicando ameaças e bravatas do tipo: “Todos serão presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional”.

Sempre com brande brutalidade e violência, a polícia levou todos para um estacionamento próximo à PUC e lá mesmo fez uma primeira triagem, baseada em listas fornecidas por serviços de inteligência e pela deduragem de agentes à paisana (“arapongas”). Cerca de 900 estudantes foram detidos e levados ao prédio do Batalhão Tobias de Aguiar. A violência resultou em 25 estudantes feridos, três com graves queimaduras e lesões, além de grandes prejuízos materiais.

Exatos sete anos depois, o Tuca voltou a ser alvo de ataques: tentaram atear fogo ao local. Não se comprovou, à época, a origem criminosa do incêndio, embora a data, 22 de setembro, deixasse pouca margem a dúvidas – definitivamente dissipadas em 13 de dezembro do mesmo ano, quando o teatro foi consumido em chamas. Dessa vez, os investigadores encontraram trapos encharcados com thinner. E a data, não por acaso, comemorava a decretação do AI-5, em 1968. O Tuca, inaugurado 11 de setembro de 1965, com a peça “Morte e Vida Severina”, baseada em texto de João Cabral de Melo Neto e musicada por Chico Buarque de Hollanda, tornou-se um marco cultural e simbólico da resistência à ditadura.

Em 22 de setembro de 1977, quando o coronel Erasmo Dias quis cumprimentar a reitora Nadir Kfouri, dela ouviu uma frase que passaria à história: “Não dou a mão a assassinos”. O então grão-chanceler da universidade, D. Paulo Evaristo Arns, declarou que “na PUC só se entra para ajudar o povo, não para destruir as coisas”.

A homenagem agora prestada aos estudantes assassinados e a dedicação de toda uma semana para lembrar essa história são marcos de uma universidade que reafirma as suas raízes, a sua vocação e o seu destino.

A semana vai ser encerrada na sexta (22), às 14h30, com um ato em frente ao Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo, em apoio à absolvição de estudantes indiciados durante manifestação contra o governo Temer em setembro de 2016. Para a noite do dia 22 está programada uma concentração diante do Tuca e uma passeata em volta da PUC, batizada de “Invasão Cultural”.

(*) José Arbex Jr. é professor de jornalismo da PUC-SP e doutor em História Social pela Universidade de São Paulo.

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“O crime mais organizado do Rio já está no poder. E é o PMDB” http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/17/o-crime-mais-organizado-do-rio-ja-esta-no-poder-e-e-o-pmdb/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/17/o-crime-mais-organizado-do-rio-ja-esta-no-poder-e-e-o-pmdb/#respond Sun, 17 Sep 2017 14:06:11 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=35186

Montagem com fotos de parte dos policiais assassinados no Rio neste ano. Folha de S.Paulo

“O crime mais organizado do Rio de Janeiro não disputa o poder, ele já está no poder. O crime organizado é o PMDB.”

A declaração do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) pode parecer lugar-comum em um momento em que o ex-governador Sérgio Cabral, o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, entre outros expoentes do PMDB carioca, encontram-se presos ou denunciados por corrupção. Mas, como ele mesmo faz questão de ressaltar, vem repetindo isso há anos. E acredita que a tendência é piorar: “Você não tem governo no Rio de Janeiro. O Pezão [também do PMDB] é um ex-governador em exercício”.

O professor de História, formado pela Universidade Federal Fluminense, chegou à Assembleia Legislativa em 2007. Logo em seu primeiro mandato, presidiu a CPI das Milícias, que resultou no indiciamento de 225 pessoas e em ameaças contra a sua vida. Por conta de sua atuação, inspirou o personagem Diogo Fraga, no filme “Tropa de Elite 2”. Também presidiu a CPI do Tráfico de Armas e Munições. Ficou em segundo lugar nas eleições à Prefeitura do Rio de Janeiro em 2012 e 2016, perdendo, respectivamente, para Eduardo Paes e Marcelo Crivella.

Freixo conversou com a TV UOL sobre o caos na segurança pública em que o Rio está mergulhado. Não apenas pela grave crise econômica, mas também, segundo ele, pelo colapso de instituições e como consequências de políticas que beneficiam uma parcela pequena de “cidadãos” e cria uma legião de “matáveis” e de “sobrantes” – sejam eles moradores de áreas pobres, bandidos ou policiais.

Policiais honestos, aliás, são vítimas dessa situação, em detrimento aos que não seguem as regras e os que criam milícias. Neste ano, foram 102 assassinados. Ao mesmo tempo, segue o genocídio de jovens negros e pobres nas periferias.

Abaixo você confere um resumo e trechos da entrevista, que pode ser vista na íntegra ao fim deste post.

O Rio está em guerra?

As armas são de guerra, o número de mortos é de guerra, as cenas são de guerra. Mas a lógica da guerra não é feita pela imagem da guerra. A lógica da guerra pressupõe um grupo que está disputando um poder e guerreia para tomar o poder. Não há uma guerra civil no Rio, como existem em diversos países. O crime mais organizado do Rio de Janeiro não disputa o poder, ele já está no poder. O crime organizado é o PMDB e ele já está no poder.

Nós não podemos achar que a solução para a segurança pública de uma cidade é eliminar o inimigo. Há um processo da criminalização da pobreza, das favelas, das periferias, de onde vem os próprios policiais. E o resultado é que você tem é a polícia que mais mata e a que mais morre. Homens de preto, matando homens pretos, quase todos pretos.

Por que morrem tantos policiais

A tendência é piorar porque você não tem governo no Rio de Janeiro. O Pezão é um ex-governador em exercício. O 13o salário do ano passado não foi pago, são meses de salários atrasados, é um drama social profundo no Rio. Não lembro de nada parecido. A gestão do PMDB foi absolutamente criminosa. E quando o tecido social rasga no Rio, ele rasga na segurança pública. Há 23 anos que morrem mais de 100 policiais por ano. Até que ponto nós não naturalizamos esse processo? Será que o problema está só neste ano?

Os números altos dos homicídios não são em locais como Leblon, Ipanema, Gávea e Jardim Botânico, mas na Zona Norte e na Baixada Fluminense. A maioria das mortes não são de policiais no serviço. Ele morre porque é policial, mas tudo começa quando ele é assaltado, como tantos outros naquelas regiões estão sendo assaltados. Há um problema da segurança pública que você não resolve com a lógica da guerra. Há os lugares dos “matáveis”. Que é onde a polícia mata e morre.

Do que as pessoas estão morrendo no Rio de Janeiro? De overdose ou de tiro? É de tiro. As pessoas estão morrendo pela lógica da “guerra às drogas”, onde há os territórios do tráfico, os “matáveis”, os “sobrantes”. A PM é uma “sobrante” dessa sociedade. É descartável tanto quanto o jovem negro. Essa guerra é insana. Um fardado mata dez esfarrapados, um esfarrapado mata um soldado. Quem é o vencedor dessa guerra? Não tem. Temos que chamar a polícia para o diálogo para que ela entenda que sua vida está em jogo no debate sobre a legalização das drogas.

Você tem uma construção lamentável de que a garantia dos direitos humanos ameaçaria a polícia e a segurança pública. Pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, que presido, estamos fazendo um atendimento às famílias dos policiais mortos, criando um protocolo de atendimento junto com o comando da PM.

Uma bancada da segurança pública no PSOL

Um grupo de policiais civis vai se filiar ao PSOL, delegados, agentes, peritos. O PSOL vai ter uma bancada de segurança pública. Mas a bancada não pode ser só de policial, se não vamos estar reproduzindo o erro dos outros. Eles também vão debater educação, saúde. A segurança pública é tão importante que não pode ser só caso de polícia, mas tem que ser debatida à luz da garantia de direitos.

As mortes dentro do sistema prisional

As taxas de resolução de homicídios não chegam a 8%. A gente só prende em flagrante no Brasil. Prendemos quem vigiamos, não quem investigamos. Os muros das cadeias são altos para que não vejamos o que acontece lá dentro. A população carcerária brasileira cresceu mais do que em qualquer país. O Brasil não é o país da impunidade, aqui a polícia mata e prende. E as pessoas acham que temos que matar mais. Eu poderia te dizer que o sistema penitenciário do Rio funciona bem. Porque ele existe para prender pobre, favelado e não deixar fugir. O que acontece lá dentro, não importa.

Quantos presos trabalham? Não chega a 10%. Quantos presos estudam? Não chega a 12%. São prisões de ociosidade máxima. Por que não temos parcerias de instituições de educação no sistema prisional? Basta planejamento e vontade. Não interessa politicamente que as prisões sejam locais de humanização.

Para que servem as Unidades de Polícia Pacificadora

Foi um processo de vigilância, imediata, em áreas de interesse econômico de grandes conglomerados para uma agenda de uma cidade para enriquecer um determinado setor. Isso não dá certo em nenhum lugar do mundo a médio prazo.

Você tem um projeto de cidade que tinha a ver com um governo absolutamente corrupto. Uma ideia de cidade absolutamente gentrificada, elitizada, desde a própria privatização e elitização do espetáculo. No Maracanã, com o fim da geral, o pobre é removido do espetáculo para o pay-per-view do botequim A mística da mistura acabou. O Maracanã é para sócio-torcedor, o Rio de Janeiro é uma cidade de sócios-torcedores. Tem gente que assiste à cidade pelo pay-per-view, a vida está no pay-per-view. As UPPs serviram a isso. A opinião sobre essas unidades nos bairros da Zona Sul é diferente da opinião nos locais mais pobres. Ela garantiu sensação de segurança para os locais mais ricos travando a vida dos mais pobres.

Um projeto de esquerda para a segurança pública

Uma política de segurança pública deve ser de direitos humanos e de segurança pública. Deve-se reformar a polícia. Policial não pode ser punido porque não fez a barba ou não limpou a bota. O policial tem que entender de democracia a partir da sua instituição. Ao mesmo tempo, é preciso avançar no debate sobre a legalização das drogas, o que não é imediato e local, mas um ponto decisivo para não ter os territórios dos “matáveis” com uma lógica de guerra em que só pobre jovem negro e policial morrem.

Não há milícia no Leblon e em Ipanema, mas nas Zonas Oeste e Norte. Pois esses territórios não interessam a um modelo de cidade elitizado e é ocupado por milícias. O debate de segurança pública passa por discutir para quem a cidade vai funcionar, com quem a cidade vai funcionar e pela radicalização de um processo de democracia. Precisa-se discutir com as favelas e elas já estão se organizando para isso. Chega desse processo “civilizatório”, colonizador e catequizador chegando nessas áreas e dizendo o que vai acontecer.

Íntegra da entrevista:

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Se Jesus viesse como mulher transexual, nós a mataríamos em nome de Deus http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/16/se-jesus-viesse-como-mulher-transexual-nos-a-matariamos-em-nome-de-deus/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/16/se-jesus-viesse-como-mulher-transexual-nos-a-matariamos-em-nome-de-deus/#respond Sat, 16 Sep 2017 14:49:58 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=35169

Cena do monólogo “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, com a atriz trans Renata Carvalho. Foto: Ligia Jardim/Divulgação

Se houver alguma entidade suprema e sobrenatural – e eu, particularmente não acredito que exista uma – ele ou ela deve morrer de vergonha da sua criação humana quando observa atos como a censura definida pelo juiz Luiz Antônio Campos Júnior, da 1a Vara Cível de Jundiaí.

Sob a justificativa de que a peça de teatro “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, que coloca no papel do messias na pele de uma mulher transexual, era “atentatório à dignidade da fé cristã”, ele atendeu a um pedido e proibiu o Sesc Jundiaí de exibir o espetáculo nesta sexta (15). A instituição está recorrendo da decisão. A peça não é inédita e já esteve em Londrina, Santos e São Paulo, por exemplo.

Em sua liminar, o juiz afirma: “De fato, não se olvide da crença religiosa em nosso Estado, que tem JESUS CRISTO como o filho de DEUS, e em se permitindo uma peça em que este HOMEM SAGRADO seja encenado como um travesti, a toda evidência, caracteriza-se ofensa a um sem número de pessoas”. Os destaques em maiúsculas são do próprio magistrado.

Na página do espetáculo, no Facebook, Natalia Mallo, tradutora do texto original da dramaturga escocesa Jo Clifford e diretora da peça, afirmou sobre a decisão judicial:

“O espetáculo, escrito por Jo Clifford, busca resgatar a essência do que seria a mensagem de Jesus: afirmação da vida, tolerância, perdão, amor ao próximo. Para tanto, Jesus encarna em uma travesti, na identidade mais estigmatizada e marginalizada da nossa sociedade. A mensagem é de amor. Mas é também queer e provocadora. Não é comportada nem se deixa assimilar. É de carne e fala de um corpo político, alterado, constantemente violentado e oprimido. Mas também cheio de vida, alegria e potência. A Rainha Jesus contesta a tutela sobre os corpos, o patriarcado e o capitalismo. E abençoa a todos e todas por igual.”

Isso enquanto a polêmica sobre o cancelamento da exposição Queermuseum, em Porto Alegre, ainda estava quente. O patrocinador, Santander Cultural, retirou a mostra após pressão de grupos de extrema direita, que ensandecidos, bradaran que elas eram pedófilas e blasfêmicas – o que foi negado até pelo promotor da Infância e da Juventude de Porto Alegre. E, ao invés de chamarem a um diálogo público contra aquilo com o qual não concordavam, forçaram o seu fechamento.

Estamos em um péssimo período para se conseguir a efetivação de direitos das minorias. Parte dos ultraconservadores que saíram do armário resolveram adotar a censura, a ameaça e a agressão como instrumentos de batalha e o Congresso Nacional, arena de debate político e solução de conflitos, segue sendo uma lástima. A ignorância de parte das pessoas sobre o que não conhecem destila medo que gera ódio e domina o debate público, nivelando a vida por baixo.

A minha timeline está abarrotada de histórias suspeitas e comprovadas de terem relação com homofobia e transfobia, machismo, racismo. Ao mesmo tempo, grupos religiosos fundamentalistas reafirmam posicionamentos de ode ao preconceito e tentam mudar leis para garantir que nada mude. Por exemplo, restringir o conceito de família a um homem, uma mulher e filhos. Patético.

Escrevi aqui, há dois anos, que se nascesse novamente nos dias atuais, Jesus seria mulher, negra e transexual. Quase apanhei na rua por conta disso por pessoas que, não familiarizadas com a troca de ideias e o diálogo, acham que proferir qualquer coisa que vá contra sua fé significa um ataque à sua dignidade. Acusam a opinião de terceiros de ser discurso de ódio – o ódio que, na verdade, são elas que promovem ao tentar calar uma voz que não pedia a aniquilação do outro mas, pelo contrário, o direito de ter os mesmos direitos que ele. Trago, novamente, alguns pontos que eu destaquei aqui antes porque o caso é pertinente.

Afinal, que crença é essa que diz que A é pior que B, gerando ódio sobre o primeiro, só porque A acredita que nasceu com um corpo que não é o seu? Ou que ama alguém do mesmo sexo? Que fé mesquinha e pequena é essa?

Enquanto isso, parlamentares no Congresso Nacional e nas Assembleias estaduais bradam, indignados, por conta de manifestações artísticas, exigindo seu fechamento. Muitos sobem às tribunas para reclamar de que grupos “contrários às leis de Deus” estão conquistando espaço. A verdade é que deveriam ser responsabilizados em atos de homofobia e transfobia não apenas os diretamente envolvidos, mas também suas fontes de inspiração. Como esses nobres políticos.

Se houver um Deus, ele ou ela não morrerá de vergonha por causa daqueles que tocam a vida da forma que os faz mais felizes. Mas por conta dos que lançam preces e cantam musiquinhas para louvar seu nome – para, logo depois, censurar, ofender, cuspir, bater, esfolar e matar também em sua honra.

Nessa hora, esse Deus ou essa Deusa (caberia um gênero neutro aqui, mas a nossa língua não permite – ainda), deve experimentar um sentimento louco de culpa somado à vergonha alheia. Pois pensa: “Que entidade sou eu que meus seguidores acham que preciso que sacrifícios humanos ou a imposição do silêncio sejam feitos em meu nome?”

O mais irônico é que, considerando que Jesus foi transgressor em sua época, se ele voltasse à Terra seria tudo aquilo que é considerado inferior, marginal, blasfêmico ou de segunda classe.

Se voltasse defendendo a mesma ideia central presente nas escrituras sagradas do cristianismo (e que, por ser tão simples, não é seguida por muitos cristãos) e andando ao lado dos mesmos párias com os quais andou, seria humilhado, xingado, surrado, queimado, alfinetado e explodido.

Ele ou, provavelmente, ela seria chamada de mendiga e de sem-teto vagabunda, olhada como operária subversiva, alcunhada como agressora da família e dos bons costumes, violentada e estuprada, rechaçada na propaganda eleitoral obrigatória em rádio e TV, difamada nas redes sociais, censurada pela Justiça. Levaria porrada daqueles que se sentem os ungidos pelo divino, finalizada como comunista, linchada num poste pela população em nome da fé e das tradições. E, ao final, alguém ainda tiraria uma selfie ao lado de seu corpo morto para postar no Insta.

Encaremos a realidade: se o divino viesse à Terra, nós a mataríamos em seu próprio nome. Pelo menos, 50 vezes.

Se Jesus assim nascesse, levaria porrada dos hoje autointiulados sacerdotes do Templo. Supostos representantes dos interesses de Deus na Terra que afirmam lutar pelo direito de expressarem suas crenças, quando querem o privilégio de vomitarem seu ódio diante daquilo que acham que pode ameaçar seu controle sobre o povo.

O discurso de ódio transforma a massa em turba e provoca distorções de entendimento sobre as palavras que estão na origem da fé das pessoas. Estudei em escola adventista por nove anos e, ao mesmo tempo, participei ativamente da vida na igreja católica perto de casa. Hoje, como todos sabem, vou para o inferno.  Mas por conta do meu passado, sei razoavelmente bem o que está escrito nos evangelhos.

O discurso de intolerância que grassa na boca de muita gente não está nos quatro livros do Evangelho cristão. Perfis nas redes sociais que consideram um absurdo uma messias mulher e trans enchem a boca para falar que a solução para a criminalidade é “Bandido bom é bandido morto” e, diante do atendimento a uma pessoa em situação de rua, grita “Tá com dó? Leva para casa”. E aceita com naturalidade programas sensacionalistas de onde jorra sangue.

Não dá para dizer para um desconhecido “você não entendeu nada do que o Nazareno disse”. Seria muito arrogante e ofensivo. Mas é possível mostrar que palavras de tolerância e compreensão estão no Novo Testamento. Tanto quanto aceitar que as interpretações possíveis sobre o divino não são monopólio de ninguém. Durante muito tempo, levamos pessoas à fogueira por divergências assim. Infelizmente, parece que não aprendemos nada com isso.

Liberdade de expressão, de fato, não é algo absoluto, como nenhum direito é. Mas seu abuso deve ser questionado ou punido a posteriori, nunca a priori, e apenas quando ela é distorcida para fomentar a violência contra alguém ou algum grupo. Quem está fomentando a violência contra terceiros? Os arautos da pseudomoralidade que dizem que apenas alguns são filhos de Deus ou a peça de teatro que pede o fim dessa barreira?

O fato é que se tivessem interpretado por uma forma mais humana o que significa amar o seu semelhante como a si mesmo, dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, e todo o restante, entenderíamos que toda essa censura não faz sentido algum. O que significa amar alguém de verdade? E o que significa submeter alguém à minha vontade?

Por isso continuo achando a passagem mais legal dos Evangelhos o livro de Lucas, capítulo 23, versículo 34: “Pai, perdoai. Eles não sabem o que fazem”.

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Temer vai rifar (de novo) o país para se manter. Mas Geddel pode nos salvar http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/15/temer-vai-rifar-de-novo-o-pais-para-se-manter-mas-geddel-pode-nos-salvar/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/15/temer-vai-rifar-de-novo-o-pais-para-se-manter-mas-geddel-pode-nos-salvar/#respond Fri, 15 Sep 2017 12:41:15 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=35156

Foto: Sergio Lima/Poder 360

Dificilmente a última denúncia do procurador-geral da República Rodrigo Janot contra Michel Temer irá afastá-lo do cargo para que seja julgado pelo Supremo Tribunal Federal.

Ironicamente essa informação deveria levar a maioria dos trabalhadores brasileiros ao desespero. Porque, para permanecer ocupando o Palácio do Planalto, ele e seu grupo político vão rifar a qualidade de vida da população através do apoio a propostas no Congresso Nacional de interesse de deputados e seus patrocinadores.

A peça de acusação da Procuradoria-Geral da República tem poder suficiente para causar problemas a ele e, consequentemente, a nós. Porque quanto maiores e mais sólidos forem os indícios de obstrução de Justiça e de organização criminosa da necessária denúncia também será o custo cobrado pelos nobres parlamentares para livrarem-no da forca. O fato dela apresentar muitas pontas soltas significa desconto no preço a ser pago, mas não leva à gratuidade.

Mesmo que o Palácio do Planalto não tenha dinheiro para emendas ou cargos disponíveis a fim de oferecer aos deputados federais que salvarem o excelentíssimo pescoço da guilhotina (ele ainda está pagando a fatura da última sacanagem), ainda assim poderá oferecer apoio para mudanças de leis, regras e normas, reduzindo a proteção dos trabalhadores, das populações mais vulneráveis e mesmo do futuro das próximas gerações.

Já na rejeição da primeira denúncia, houve o perdão bilionário de dívidas previdenciárias para ruralistas e o apoio tanto para mudanças nas garantias dos povos tradicionais a seus territórios quanto para o relaxamento da proteção ambiental, por exemplo. Muita coisa ainda pode ser entregue. Afinal, o Brasil é um país grande.

Mais perdão de juros e multas relacionados a dívidas públicas, o que interessa a congressistas caloteiros e empresários com problemas financeiros, é um exemplo que nos custará várias dezenas de bilhões de reais. Mas há outros mais desconhecidos, como o apoio aos projetos de lei que tentam reduzir o conceito de escravidão contemporânea, diminuindo a possibilidade de punição de empregadores e de resgate de trabalhadores, defendido tanto pela bancada ruralista como por outros grupos econômicos. Ou a Reforma Trabalhista Rural, cujo projeto original foi tachado de “legalização da servidão”, dado o tamanho do retrocesso e está provisoriamente congelada. Ou mesmo aberrações como as propostas que visam a dificultar o aborto legal nos casos já previstos em lei, como estupro, que é um dos xodós da bancada do fundamentalismo religioso. Isso sem contar os grupos de pressão do capital, que seguem atuando por mais formas de desregulamentação do trabalho e pela manutenção da desigualdade tributária – que sobretaxa o consumo dos mais pobres para deixar intocada a renda dos mais ricos.

Por essas e por outras, repito o que já escrevi aqui nesta semana. Há um homem que pode nos salvar e ele se chama Geddel Vieira Lima. Porque há limite para tudo nessa vida, mesmo para o comércio a céu aberto na Câmara dos Deputados. E esse limite viria com provas apresentadas pelo “querido amigo” de Temer que tornasse impossível aos deputados manterem o tomaladacá pronográfico em ano pré-eleitoral.

Quanto tempo Geddel Vieira Lima vai aguentar de bico calado na cadeia antes de começar a entregar os companheiros do “Quadrilhão do PMDB” que ainda estão soltos em nome de um acordo?

Após a Polícia Federal descobrir o apartamento em Salvador com R$ 51 milhões em caixas e malas, no que pode ser parte do “Fundo de Aposentadoria” do núcleo do fisiologismo nacional, ele foi preso. Em julho, quando passou algum tempo na Papuda, Geddel chorou diante do juiz que o manteve sob prisão preventiva apenas três dias após ter chegado. Não importa se as lágrimas foram sinceras ou não, isso é indício de que ele não está disposto a amargar uma longa temporada em cana como Eduardo Cunha ou Henrique Eduardo Alves, outros membros do suposto esquema.

Qualquer morsa com problemas de cognição sabe que qualquer um dos três tem munição suficiente para derrubar a República pelo menos por duas vezes. Se o medo de Geddel fermentar mais do que os restos de comida usados para fazer Maria-Louca (a pinga da cadeia) e ele resolver soltar o gogó e a oferta for aceita pelos procuradores, o governo Temer pode não sobreviver na Câmara. Afinal de contas, ao final do dia, o que conta é a própria sobrevivência.

Temer não foi colocado onde está por conta de sua capacidade de proferir oportunas mesóclises e poemas de qualidade duvidosa. Mas pela expectativa de parte da classe política de que ele, de algum forma, consiga impor um freio à operação Lava Jato. E pela expectativa de Patos Amarelos de que seu governo reduza o tamanho do Estado e aumente a competitividade, passando por cima da qualidade de vida dos brasileiros se necessário for. O que significa impor tetos ao crescimento do investimento em educação e saúde, defenestrar direitos trabalhistas e enfiar goela abaixo mudanças na aposentadoria que ferram com a vida de quem já foi ferrado pela vida.

Estranha conjuntura essa em que Geddel Vieira Lima tem o poder de evitar mais uma catástrofe no país.

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Janot pede a saideira: A ironia de denunciar Temer ao lado de Joesley http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/14/janot-pede-a-saideira-a-ironia-de-denunciar-temer-ao-lado-de-joesley/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/14/janot-pede-a-saideira-a-ironia-de-denunciar-temer-ao-lado-de-joesley/#respond Thu, 14 Sep 2017 18:48:20 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=35146

Rodrigo Janot pede a saideira a Michel Temer. Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Michel Temer odeia Joesley Batista que odeia Michel Temer. E após a conversa pouco republicana entre os dois, nos porões do Palácio do Jaburu, vir a público, transformando a vida do supremo mandatário num inferno, a troca de ofensas de ambos pelos veículos de comunicações e redes sociais tem sido frequente.

Contudo, quis o destino – esse fanfarrão – que as vidas dos dois se reencontrassem em um momento melancólico. A Procuradoria-Geral da República denunciou Joesley, nesta quinta (14), junto com Temer e demais membros do chamado “Quadrilhão do PMDB”. Envolvendo a cúpula do partido na Câmara dos Deputados, o esquema de corrupção teria sido responsável por vender facilidades ao setor empresarial, cobrando propinas em negócios que envolveram estatais e órgãos públicos.

O destino contou, claro, com a ajuda de indícios de omissão e manipulação da delação dos controladores da JBS à Justiça descobertos graças, entre outros motivos, à incapacidade de Joesley de usar um gravador comum – produzindo evidência contra si mesmo. Com isso, Rodrigo Janot decidiu revogar a imunidade penal dos delatores – que estão presos temporariamente em Brasília.

Também estão na cadeia outros membros do “Quadrilhão do PMDB”, conforme investigação da Polícia Federal, como Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves e Eduardo Cunha. A denúncia usa elementos fornecidos pelos controladores da JBS e pelo corretor de valores Lúcio Funaro.

Temer está sendo denunciado, agora, por obstrução de Justiça e organização criminosa. A primeira denúncia, por corrupção passiva, foi barrada graças a um comércio a céu aberto de votos na Câmara dos Deputados, em que emendas, cargos e, principalmente, apoio para a aprovação de leis e perdões de dívidas rolaram soltos.

A Feira Livre da Câmara dos Deputados deve ser instalada novamente assim que o ministro Edson Fachin encaminhar a denúncia para ser analisada pelos parlamentares. Que devem apelar novamente para a economia. Já que ela dá alguns sinais de melhora (graças ao sacrifício monstruoso da parte mais pobre da população, diga-se de passagem), será usada como a desculpa para manter tudo como está. Afinal, corrupção só é um problema nacional quando é responsabilidade do PT.

Independentemente de tudo isso, em um país em que tanta coisa não faz sentido, não deixa de ser um alento ver o procurador-geral da República denunciar simultaneamente a pessoa que conspirou pelo posto político mais importante do Brasil (nem estou entrando no mérito da eterna discussão impeachment vc golpe) ao lado do dono da maior empresa de proteína animal do mundo (que chegou a ter uma bancada de congressistas para chamar de sua e foi envolvida em denúncias de redes de produção relacionadas a desmatamento ilegal, trabalho escravo e outros problemas sociais).  São os dois lados de uma mesma moeda que muitos gostam de esquecer. Pois não existe corrupção apenas com políticos, o setor privado é tão importante ou mais no processo.

Dificilmente a derradeira denúncia do procurador-geral da República contra Michel Temer irá afastá-lo do cargo para que seja julgado pelo Supremo Tribunal Federal. O Brasil pode estar quebrado, mas Temer vai continuar oferecendo aos parlamentares e seus patrocinadores o país tem de sobra, que é o futuro de sua gente. Promessas de apoio para mudanças de leis, regras e normas serão novamente colocadas à mesa, rifando a qualidade de vida dos trabalhadores e das populações mais vulneráveis, além do futuro das próximas gerações. Isso sem contar que, na ausência de opção melhor, sua saída não é está na pauta de empresários e do mercado – que lucra com as reformas redutoras de direitos sociais que ele tem conseguido aprovar

Ou seja, é remota a chance de ver um reencontro de Michel Temer e Joesley Batista em um banho de sol na Papuda.

(Veio-me à cabeça, agora, uma das alegorias do inferno: uma salinha fechada em que dividimos espaço com nosso pior inimigo pela eternidade.)

Mas, recorrendo a outra figura de linguagem que também adoro, o cinismo, não acho improvável que, daqui a um tempo, os dois, livres, leves e soltos, ainda dividam o mesmo espaço em algum rega-bofe de um grande empresário qualquer. E, de longe, cumprimentem-se com os olhares e façam um discreto brinde à capacidade de esquecimento do Brasil.

Espero estar enganado, mas a História insiste em dizer que não estou.

Em tempo: Falando em ironia e cinismo, é impossível não citar a mensagem ridícula que o prefeito de São Paulo João Doria mandou ao ministro da Fazenda Henrique Meirelles. Diante do convite do PSD, partido do ministro, para que ele seja seu candidato à Presidência da República no ano que vem e o murmurinho que isso gerou em alguns círculos da direita liberal, o prefeito reclamou. Pediu a Meirelles que “não se contamine pela questão política”. Segundo ele, “não é hora, nem tempo para isso”. É quase nonsense que Doria, em plena pré-campanha para a Presidência da República, viajando o Brasil e o mundo para tanto, cobre de Meirelles que fique fora do jogo político. Mais direto apenas se ele dissesse “ministro, tenha modos e não me atrapalhe”.

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Pergunta que vale R$ 51 mi: Quanto tempo Geddel leva para entregar Temer? http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/13/pergunta-que-vale-r-51-mi-quanto-tempo-geddel-leva-para-entregar-temer/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/13/pergunta-que-vale-r-51-mi-quanto-tempo-geddel-leva-para-entregar-temer/#respond Wed, 13 Sep 2017 19:38:13 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=35138

Foto: Lula Marques

José Dirceu se mantém calado e promete ficar assim até o túmulo porque acredita ter uma causa. Antônio Palocci precisou de um ano para mostrar que entrega a mãe se necessário for – se trouxer provas a tudo o que diz saber, produzirá um belo rebosteio no PT, no sistema financeiro e em outras grandes empresas. Eduardo Cunha, após algumas semanas de xilindró, mandou perguntas escritas a Temer como parte de sua defesa no estilo “eu sei o que fez no verão passado porque eu estava lá passando protetor solar em você”.

A pergunta que vale R$ 51 milhões agora é: quanto tempo Geddel Vieira Lima vai aguentar de bico calado na cadeia antes de começar a entregar os companheiros do “Quadrilhão do PMDB” que ainda estão soltos em nome de um acordo?

Após a Polícia Federal estourar a boca, quer dizer, descobrir o apartamento em Salvador que continha o que pode ser parte do “fundo de aposentadoria” do núcleo do fisiologismo nacional, ele foi preso. Vale lembrar que, em julho, última ocasião em que passou pela Papuda, Geddel chorou diante do juiz que o manteve sob prisão preventiva apenas três dias após ter chegado.

Três dias. Tempo insuficiente até para assistir aos episódios atrasados de Game of Thrones ou Black Mirror. Não importa se as lágrimas foram sinceras ou não, isso é indício de que ele não está disposto a amargar uma longa temporada em cana.

Claro que sou contra a perversão do instrumento que ficou conhecido como “delação premiada”. Pessoas têm sido condenadas em praça pública com base em confissões de criminosos que querem salvar a si próprios, sem a preocupação de que os fatos sejam verdadeiros.

Feito a ressalva e considerando que o governo Michel Temer está naufragando pelo peso da corrupção que ele mesmo trouxe à luz do dia, acho que isso tem potencial para passar a limpo décadas de relações políticas. Porque uma delação de Geddel, que apoiou governos do PSDB, PT e PMDB, apenas não seria melhor do que uma delação do próprio Temer.

Os defensores da colaboração premiada apontam políticos como os únicos chefes de quadrilha, o que não é verdade. Empresários moldaram o Estado de acordo com suas necessidades, comprando e vendendo quem fosse preciso, sangrando os cofres públicos, escrevendo e aprovando leis que os beneficiavam.

Portanto, os membros do “Quadrilhão do PMDB” deveriam delatar os grandes empresários e os representantes do mercado, do agronegócio ao sistema financeiro, das indústrias ao comércio, de quem constrói estradas até as histórias do porto de Santos. Isso seria o empurrão que falta para uma Reforma Política real (e não o simulacro apresentado) e uma Reforma Tributária com justiça social.

De cara, também envolveria nomes importantes do tucanato, do qual também foi aliado. Baseado nas informações que traria, seria praticamente impossível a Justiça continuar se esquivando de dar o mesmo tratamento ao PSDB que tem conferido a outros partidos envolvidos em corrupção. Correligionário de Aécio dizem que ele dificilmente iria preso porque, sob uma (improvável) ameaça real de sentir o gosto de uma quentinha, diria tudo o que os investigadores querem saber. Mas, além do foro especial, sempre tem um Supremo à disposição.

Geddel deveria se inspirar no exemplo do doleiro Lúcio Funaro, outro membro do “Quadrilhão”, que, em sua colaboração, contou que o então vice-presidente Michel Temer tramava “diariamente” a deposição de Dilma Rousseff com o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Nada que ninguém não soubesse, mas vindo de dentro tem sempre mais força para quem ainda não entendeu o que aconteceu e precisa que tudo seja desenhado.

Você pode achar que Dilma Rousseff faz um péssimo mandato e é uma das responsáveis pela terrível situação econômica do país, como eu acho. E pode ser contra ou a favor do impeachment, o que pouco importa para o debate deste post.

Mas se acompanha a política nacional sabe que a articulação conduzida pelo vice Michel Temer para a destituição da presidente do seu cargo, com a ajuda de Eduardo Cunha e do que há de mais bizarro no Congresso Nacional, teve rabo, orelha e focinho de conspiração. Afinal, um vice deveria ficar no seu canto, como fez Itamar Franco na época de Collor, e esperar, em silêncio, o desfecho. E não trabalhar abertamente para ficar com o Palácio do Planalto, prometendo mundos e fundos a políticos e empresários.

Aliás, Lúcio Funaro afirmou também em sua delação, já homologada pelo Supremo Tribunal Federal, que Michel Temer dividiu propina recebida da Odebrecht com Geddel Vieira Lima.

Por isso, gostaria de falar agora com Geddel: Meu caro, você está preso. Michel Temer, Eliseu Padilha e Moreira Franco, não. Você terá que trocar o uísque por Maria-Louca. E não vai rolar mais delivery de pizza gourmet, apenas jumbo. Enquanto eles aproveitarão praia, você ficará curtindo um banho de sol. Pensa bem, eles valem a pena?

Delata tudo, Geddel.

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Nova ocupação com 6 mil famílias é fruto do desemprego, afirma MTST http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/12/nova-ocupacao-com-6-mil-familias-e-fruto-do-desemprego-afirma-mtst/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/12/nova-ocupacao-com-6-mil-familias-e-fruto-do-desemprego-afirma-mtst/#respond Tue, 12 Sep 2017 20:58:16 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=35124

Fotos: Gica TV/MTST

Cerca de seis mil famílias ocupam uma área de 70 mil metros quadrados em São Bernardo do Campo (SP) desde a madrugada do dia 02 de setembro. Inicialmente, eram 500 famílias que chegaram ao terreno, em um bairro central, vizinho de condomínios de alto padrão, no município do ABC paulista. Mas o fluxo de gente não parou desde então e a imagem dos barracos de lona enfileirados impressiona. Os números são do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), que organiza a ocupação.

“A área estava vazia antes, não tinha nada. Agora ela está cumprindo uma função social, conforme pede nossa Constituição”, afirma Maria das Dores Cerqueira, 47 anos, uma das coordenadoras do movimento.

Confeiteira desempregada (“pela minha idade, o mercado de trabalho não quer pegar mais eu, não”), ela conta que o déficit habitacional no município é de mais de 92 mil famílias. E que o tamanho da mobilização é devido, em grande parte, à situação do país.

“O agravamento da crise econômica, o desemprego e a piora da situação social estão criando um verdadeiro barril de pólvora nas periferias urbanas”, afirma Guilherme Boulos, coordenador nacional do MTST. “Porque as pessoas, quando ficam desempregadas, não conseguem mais pagar o aluguel. Há milhares, no Brasil todo, sem alternativas, sofrendo despejos individuais. Não resta outra alternativa a essas famílias do que se organizarem e ocuparem.”

Segundo ele, isso ocorre em todo o país. “O aconteceu em São Bernardo, aconteceu em Guarulhos, algum tempo atrás, em outra ocupação gigantesca.”

A MZM Incorporadora, proprietária do terreno, conseguiu uma ordem de reintegração de posse. O juiz Fernando de Oliveira Ladeira, da 7ª Vara Cível de São Bernardo, autorizou a reintegração de posse da área e a desocupação do terreno. Os advogados do MTST entraram com um recurso e esperam uma nova decisão judicial.

Os ocupantes prometem ficar. Este blog tentou contato com a incorporadora, mas não conseguiu até a publicação deste post.

“A Prefeitura até já tinha notificado o proprietário porque o terreno não cumpria função social. A gente vai resistir sim”, afirma Maria das Dores. Ela reclama da guarda civil municipal que estaria fazendo papel de polícia, causando constrangimentos para quem entra com carro para levar mantimentos e água aos demais.

“A decisão judicial é irresponsável porque não considera a situação das famílias, sem dar alternativas de moradia, simplesmente determinando que a polícia cumpra uma reintegração num terreno que estava abandonado há mais de 30 anos”, afirma Boulos.

Para ele, isso é grave e pode gerar conflitos de grandes proporções – uma alusão à violenta desocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos, em janeiro de 2012. “O movimento quer uma saída pacífica e negociada, mas isso passa por colocar na mesa a solução do problema habitacional daquelas famílias. O caso deve ser tratado como de política pública e não de polícia.”

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PF prende Temer por Pinho Sol. Movimento quer seu impeachment por blasfêmia http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/12/pf-prende-temer-por-pinho-sol-movimento-quer-seu-impeachment-por-blasfemia/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/12/pf-prende-temer-por-pinho-sol-movimento-quer-seu-impeachment-por-blasfemia/#respond Tue, 12 Sep 2017 15:27:10 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=35116

Temer almoça entre embaixadores em churrascaria para defender a exportação de carne em meio à Operação Carne Fraca em março. Foto: Sérgio Lima/Poder360

“Como em toda organização criminosa, com divisão de tarefas, o presidente Michel Temer se utiliza de terceiros para executar ações sob seu controle e gerenciamento.” De acordo com a Polícia Federal, o ocupante da Presidência da República possui poder de decisão nas ações do “Quadrilhão do PMDB”.

A organização criminosa, de acordo com relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal, contaria, além de Temer, com Eliseu Padilha e Moreira Franco – esses três soltos por contarem com foro privilegiado, por enquanto. E com Geddel Vieira Lima, Henrique Alves e Eduardo Cunha, no momento, presos. Mas também com Rodrigo Rocha Loures, Tadeu Filippelli, Sandro Mabel, Antonio Andrade, José Yunes e Lúcio Vieira Lima.

A investigação apontou indícios de que o supremo mandatário tenha recebido vantagens de R$ 31,5 milhões, o que ele – claro – nega. Temer agiria para a indicação de cargos, articulação com empresários beneficiados nos esquemas, recebimento de valores e relações com doações eleitorais. Ou seja, um homem de múltiplas habilidades, que cobra o escanteio e corre para cabecear ao gol. Sinceramente, nada que já não havia sido revelado pela imprensa.

Não é novidade que grupos políticos tenham montado esquemas para garantir governabilidade ou sua permanência no poder desde a fundação do país. A diferença é que, diante de elementos muito menos robustos do que os apresentados para o “Quadrilhão do PMDB”, um processo de impeachment estaria em curso e organizações da sociedade civil convocariam grandes protestos.

A hipótese corrente é de que o governo não cai porque adquire os votos dos quais precisa para afastar denúncias no Congresso Nacional através da liberação e de cargos e emendas mas, principalmente, pelo apoio à aprovação de leis e ao perdão bilionário de dívidas que beneficiam os próprios parlamentares e seus patrocinadores. Como ocorreu com a bancada ruralista, que vai herdar um Brasil em que meio ambiente, povos indígenas e Previdência rural sejam um “problema” menor do que hoje.

Ao mesmo tempo, o governo tem afagado o Pato Amarelo, ou seja, sido competente para aprovar uma agenda de reformas que reduz os gastos com a proteção aos trabalhadores mais pobres e suas famílias a fim de garantir a manutenção de de políticas que beneficiam os negócios dos mais ricos. E tira a fatura pela crise do colo dos mais ricos, evitando mudanças tributárias guiadas por justiça social e redistribuição.

E como não há consenso sobre quem ou o quê iria para o seu lugar, tudo fica como está. Em um ambiente em que a oposição luta para sobreviver às próprias denúncias de corrupção que recebe, parte dos sindicatos está mais interessada em salvar a contribuição sindical obrigatória do que em lutar pelos trabalhadores e que muitos se dedicam mais em compartilhar textos de apoio a Lula do que ir às ruas contra o desmonte do Estado social ou mesmo participar da discussão de um novo projeto para o país, o “Quadrilhão do PMDB” prossegue.

Por isso, confio na hipótese de que a Polícia Federal segue uma linha promissora de investigação, apurando, neste momento, denúncias de que uma quantidade razoável de Pinho Sol estaria estocada nos porões do Palácio do Planalto.

Considerando que portar o perigoso produto levou ao jovem negro e pobre Rafael Braga, a ser o único condenado nas manifestações de Junho de 2013, no Rio de Janeiro, imagina-se que apenas uma caixa seria indício suficiente para que a Procuradoria Geral da República e o STF destituíssem Eliseu Padilha e Moreira Franco. Rafael foi, posteriormente, também condenado e preso por, segundo a polícia, portar 0,6 g de maconha e 9,3 de cocaína – o que ele nega. Mas ele não é presidente, nem tem Gilmar Mendes como padrinho do casamento de sua filha, então, segue na cadeia.

Ao mesmo tempo, um alerta soou a movimentos que atuaram pelo impeachment de Dilma Rousseff. Recentemente, eles incitaram a população e organizaram a turba para censurar uma exposição que tratava da temática LGBT, questões de gênero e diversidade sexual, com obras de Cândido Portinari, Adriana Varejão, Lygia Clark, Leonilson, em Porto Alegre Acusou-a de blasfêmia, pedofilia e zoofilia.

Agora eles tiveram contato com o livro de poesias “Anônima Intimidade”, de Michel Temer, e ficaram escandalizados com o que leram. Ao que tudo indica, esses movimentos se organizam a voltar às ruas, pedindo a deposição de Michel Temer. “Não entendo que isso seja arte”, teria afirmado uma coordenadora do movimento. Temer é acusado de satanismo e de apologia ao uso de maconha pelos versos: “De vermelho/ Flamejante/ Labaredas de fogo / Olhos brilhantes / Que sorriem / Com lábios rubros / Incêndios / Tomam contam de mim”.

A sacanagem do desmonte do Estado de proteção social somada à corrupção pornográfica e a céu aberto são insuficientes para levar os deputados federais, sócios da suruba, a votarem um afastamento presidencial diante de denúncias encaminhadas pelo Supremo Tribunal Federal. Ao mesmo tempo, é mais fácil ver uma onda de intolerância popular por uma exposição de arte, organizada por grupos que se dizem liberais, mas são contra a liberdade de expressão e que, até pouco tempo atrás, bradavam contra a corrupção, do que indignação pelo “Quadrilhão do PMDB”.

Se a lógica e a razão deixaram de funcionar no “Brasil da Era do Foda-se”, talvez Pinho Sol e um pouco de poemas de caráter duvidoso resolvam.

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Governo Temer ataca novamente com chantagem pela Reforma da Previdência http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/11/governo-temer-ataca-novamente-com-chantagem-pela-reforma-da-previdencia/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/09/11/governo-temer-ataca-novamente-com-chantagem-pela-reforma-da-previdencia/#respond Mon, 11 Sep 2017 22:32:06 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=35111

Foto: Andre Coelho/Agência O Globo

“A gravidade da situação é essa: estamos prestes a não poder pagar a Previdência.” A frase é de Dyogo Oliveira, ministro do Planejamento, em evento da Fundação Getúlio Vargas, nesta segunda (11), em São Paulo. “Não há possibilidade de estabelecer equilíbrio fiscal sem a reforma da Previdência.”

O governo federal tem apelado, há um bom tempo, para a chantagem como instrumento de convencimento público quando o assunto é a reforma das aposentadorias.

Em março deste ano, Michel Temer afirmou que “se não se fizer essa reforma agora, daqui a três anos teremos que fazer, senão daqui a sete paralisamos o país”. O profético depoimento foi dado durante uma conferência Bank of America Merrill Lynch em São Paulo, segundo a conta de Twitter do Palácio do Planalto.

E, em junho do ano passado, Temer afirmou que “ou a Previdência Social tem de ser reformulada ou então todos os pensionistas sofrerão”.

Isso sem falar da peça de propaganda veiculada pelo seu partido, o PMDB, nas redes sociais neste ano: “Se a Reforma da Previdência não sair: Tchau, Bolsa Família; adeus, FIES; Sem Novas Estradas; Acabam os Programas Sociais”, diz uma imagem com o logo do partido. No fundo, a ilustração de uma cidade em ruínas.

Como já escrevi diversas vezes neste blog, acredito que o Brasil precise de uma Reforma da Previdência e de uma Reforma Trabalhista. Mas não os dois pacotes de maldades que foram propostos por esta administração. O segundo foi aprovado sem o devido debate e o primeiro só não teve o mesmo fim ainda porque a popularidade de Michel Temer é menor até do que a nova tomada de três pinos.

De acordo com a última pesquisa Datafolha sobre o tema, 71% da população brasileira era contra a Reforma da Previdência. Enquanto isso, a avaliação do governo Temer conta com 70% de ruim e péssimo, segundo a última pesquisa Ibope.

Neste momento, a Presidência da República deveria convocar um grande debate nacional sobre o tema, buscando ouvir diferentes pontos de vista para desenhar uma Previdência Social que não mantenha distorções e nem beneficie apenas alguns grupos em detrimento ao restante da população. E que não seja usada como caixa de emergência do governo, com uma captação capaz de combater a sonegação por parte das empresas, garantindo o futuro dos mais pobres e da classe média.

O problema é que governo e Congresso Nacional já romperam todas as ligações possíveis com a vontade da maioria de seus eleitores. Representam a si mesmos (afinal, a maior bancada é dos deputados-empresários) e a seus patrocinadores. Além das forças políticas que prometeram salvá-los da guilhotina das punições por corrupção. O que mostra que a opinião dos eleitores é considerada como argumento importante apenas quando serve para depor um partido político adversário.

O pior é que o governo federal não precisa do apoio de 308 votos de deputados federais para aprovar a parte da Reforma da Previdência que causará o maior impacto entre os trabalhadores mais vulneráveis. Enquanto a imposição de uma idade mínima de 65 anos, para homens, e 62, para mulheres, depende de emenda ao artigo 201 da Constituição Federal, outras mudanças propostas podem ser desmembradas e passar como leis complementares ou ordinárias, apresentadas na forma de medidas provisórias pelo Palácio do Planalto.

Para os mais pobres, a idade mínima já existe no Brasil uma vez que eles não conseguem se aposentar por tempo de contribuição (35 anos, homens, 30 anos, mulheres). Hoje, é necessário um mínimo de 180 contribuições mensais (15 anos) para poder se aposentar por idade (65, homens, 60, mulheres). Com a reforma, o número salta para uma carência de 300 contribuições (25 anos). Isso não afeta diretamente os extratos superiores da classe média, que já contribuem por mais tempo ao sistema, mas a faixa de trabalhadores mais pobres. Esses, contudo, não se encaixam nas categorias de pobreza extrema, beneficiadas diretamente pela assistência aos idosos carentes. Ficaram no limbo ou perderão qualidade de vida para se encaixar nas faixas do BPC.

A depender da estratégia e da proposta do governo, os projetos poderiam ser apresentados por lei complementar à Constituição, o que demanda maioria absoluta (ou seja, 257 votos na Câmara), ou lei ordinária, que demanda maioria simples – ou seja, maioria dos presentes em sessões deliberativas com, pelo menos, 257 parlamentares. Menos dos que os 308 de uma emenda constitucional.

Ao mesmo tempo, as regras para aposentadoria de trabalhadores rurais da economia familiar, extrativistas, pescadores, coletoras de babaçu, entre outros, também podem sofrer mudanças através de projetos de lei e não por propostas de emenda à Constituição. Nesse sentido está a mudança de 15 anos de comprovação de trabalho (com arrecadação de imposto previdenciário no momento da venda da produção) para 15 anos de comprovação de contribuição, com pagamento mensal de carnê. O que, dada as condições de vulnerabilidade social desse grupo, inviabilizará sua aposentadoria – conquistada cinco anos antes do restantes dos trabalhadores urbanos e rurais, segundo a Constituição.

Enquanto isso, o governo federal concede perdões bilionários a dívidas previdenciárias do agronegócio.

Temos mais opções para além do maniqueísmo e da dualidade rasos. Sempre. Mas querem nos fazer crer que não. Temer não optou por essa formulação de frase: “Ou a Previdência Social é reformulada ou então dividendos voltarão a ser taxados de sócios de empresas.” Há estudos conduzidos pela equipe econômica do governo que preveem isso, o que ajudaria a diminuir a injustiça tributária. Mas atinge diretamente a classe social daqueles que mandam no país.

Outro exemplo: por que o governo preferiu dizer “Ou a CLT é alterada ou então o Brasil não conseguirá gerar empregos” ao invés de “Ou a CLT é alterada ou então teremos que fazer uma ação firme para combater a sonegação de empresas, que representam dezenas de bilhões em prejuízos aos cofres públicos”.

Ou por que preferiu “Ou cortamos recursos para educação e saúde ou o Brasil vai parar” quando poderia ter dito: “Ou cortamos recursos para educação e saúde ou implantamos impostos sobre grandes fortunas, grandes heranças e aplicamos uma alíquota nova no imposto de renda, de 40%, sobre a alta renda dos muito abastados”.

A beleza de uma democracia é que, nela, os caminhos deveriam ser discutidos abertamente e as decisões tomadas coletivamente. E se há um buraco a ser coberto, que ele seja socializado – com os mais vulneráveis pagando menos o pato do que os mais protegidos. Como não há dinheiro em caixa, está sendo dado ao povo uma escolha: ou aceita a revisão de seus direitos, diminuindo seu alcance e efetividade, ou fica sem nada. Isso está longe do que se espera de uma democracia.

O problema é que o “autoritarismo” é como uma “chantagem”: ambos podem ser lustrados com óleo de peroba para perder o jeito opaco, a dureza e a asperez. Mas não perdem sua natureza.

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