Blog do Sakamoto http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política. Cobriu conflitos armados e o desrespeito aos direitos humanos em Timor Leste, Angola e no Paquistão. Wed, 16 Aug 2017 20:36:33 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Partido de Temer quer mudar de nome. Sugiro “Tomaladacá” http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/16/partido-de-temer-quer-mudar-de-nome-sugiro-tomaladaca/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/16/partido-de-temer-quer-mudar-de-nome-sugiro-tomaladaca/#respond Wed, 16 Aug 2017 19:58:02 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=34709

Foto: Sergio Lima/Poder 360

Agora vai!

A federação patrimonialista de interesses fisiológicos que atende pela alcunha de PMDB está planejando se rebatizar como MDB (Movimento Democrático Brasileiro), nome que ostentou até dezembro de 1979.

Naquele momento, o país dava adeus ao bipartidarismo que vigorou na ditadura. Ao mesmo tempo, a Arena, partido de apoio ao governo civil-militar, tornou-se PDS, de onde brotou o PFL, que também se rebatizou, em 2007, como DEM (Democratas).

Planejam mudar a graça da criança em setembro, quando ocorrerá convenção partidária. Se confirmada, a mudança se somará a outras alterações cosméticas como a do PTN, que virou Podemos – ato que foi considerado uma afronta pelo Podemos espanhol, à esquerda da cópia tupiniquim. E o “ecológico” PEN, que pode virar Prona ou Patriotas.

Mudar o nome de algo para tentar ludibriar o cidadão ou o consumidor e deixar para trás um passivo de problemas é corriqueiro na política e no mundo empresarial. Vale lembrar que a Telefonica, que acumulou montanhas de reclamações, resolveu assumir o nome de uma de suas marcas, tornando-se Vivo.

Porém, se uma mudança não vem acompanhada de alteração da qualidade do que é oferecido à população, o golpe de marketing dá chabu. É como jogar purpurina em cima de um montinho de cocô. Pode até brilhar, mas continuará fedendo. Se achou a comparação escatológica, vale citar a segunda cena do segundo ato da peça Romeu e Julieta, do inglês William Shakeaspeare: “Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume”.

Seja PMDB ou MDB, continuará tendo o mesmo “cheiro”.

Ao que tudo indica, o partido não está pensando em fazer uma grande autocrítica interna e, a partir de uma profunda reflexão, abandonar antigas práticas políticas. Até porque isso significaria uma implosão. É mais fácil que os políticos e militantes éticos e honestos deixem a agremiação diante do que ela passou a representar. Ou o tal do camelo passar pelo tal buraco da agulha.

Um partido que já foi a base da luta pela redemocratização do país e reuniu muita gente que almejou um futuro melhor para a sociedade, hoje se tornou um mercado a céu aberto de parlamentares e uma grande máquina de tomaladacás visando à aprovação de leis. Um monstrengo sem ideologia definida ou projeto claro para o país, que não parece se importar em retirar direitos do povo para manter privilégios dos mais ricos, muito menos em assaltar os cofres públicos à luz do dia, seja em emendas e cargos, seja em perdões de dívidas concedidas a seus próprios parlamentares. Tudo com o objetivo de manter uma cúpula envolvida em denúncias de corrupção, a salvo, no poder.

Ao menos, ninguém no partido teve a ideia de abrir uma licitação para vender os “naming rights”, como acontece em arenas de futebol. Por exemplo, PMDB-Odebrecht ou PMDB-JBS. Pensando bem, isso seria um tanto quanto redundante.

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Diante de um Brasil agonizante, Congresso assume sem pudor o papel de urubu http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/16/diante-de-um-brasil-agonizante-congresso-assume-sem-pudor-o-papel-de-urubu/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/16/diante-de-um-brasil-agonizante-congresso-assume-sem-pudor-o-papel-de-urubu/#respond Wed, 16 Aug 2017 16:17:10 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=34704

Foto: Adriano Machado/Reuters

É difícil eleger qual a maior sacanagem cometida pelo Congresso Nacional contra a população.

A despeito da aprovação de reformas que farão com que trabalhadores comam o pão que o diabo amassou e de leis que reduzem direitos e qualidade de vida, o fundo do poço é quando um deputado ou senador age, descaradamente, para se apropriar de recursos públicos através de projetos no parlamento.

É o que está acontecendo, neste momento, com um grupo de parlamentares que devem R$ 3 bilhões de reais aos cofres públicos e tenta aprovar mudanças especiais que o beneficia. O cidadão comum tem que pagar juro e multa quando atrasa um imposto. Eles querem ganhar perdão e melhores condições de pagamento.

De acordo com Júlio Wiziack, da Folha de S.Paulo, uma fatura está sendo cobrada de parlamentares por ter dado 54 votos a fim de garantir que Michel Temer não fosse afastado da Presidência da República para ser julgado por corrupção pelo Supremo Tribunal Federal. Ao todo, o programa de refinanciamento de dívidas de contribuintes, no qual os deputados querem arranjar um ninho para se aquecer, pode significar um perdão de mais de R$ 220 bilhões.

Exemplos de parlamentares e suas dívidas que puxam o projeto de refinanciamento: Newton Cardoso Jr (R$ 83,5 milhões), Alfredo Kaefer (R$ 52,8 milhões), João Gualberto Vasconcelos (R$ 8,4 milhões), Mendonça Júnior (R$ 1,6 milhão), Arthur Lira (R$ 1,5 milhão), Izalci Lucas (R$ 224 mil).

Vale lembrar que um dos motivos que levou Temer a ter o voto da bancada ruralista foi o perdão a produtores rurais de cerca de R$ 7,6 bilhões com relação a juros, multas e encargos devidos ao Fundo de Assistência do Trabalhador Rural – que ajuda a manter aposentadorias. Isso sem contar a mudança na alíquotas, que que reduzirá a contribuição dos empregadores rurais e aumentará a crise na área. Daí, o governo, com a maior cara de pau do planeta, vem a público dizer que o sistema de aposentadoria rural está em crise e, por isso, esse trabalhador – que muitas vezes já sobrevive de Bolsa Família – terá que ralar mais para ajudar o Brasil.

Por que fazem isso? Porque podem. Grande parte da sociedade até fica indignada, mas não acredita mais em seu país. Outra parte grita e ninguém ouve. Há aqueles que não sabem o que está acontecendo e acham que tudo é uma luta contra a venezuelização do mundo. E uma minoria da minoria da minoria, já rica, parte das elites econômica e política, enche os bolsos com tudo isso, enquanto você discute se o nazismo é de direita ou de esquerda.

Quando alguém diz que Temer se mantém no poder através de emendas, cargos para aliados e perdões de dívidas não conta toda a verdade.

A explicação correta seria outra: um político com 5% de aprovação e que acumula evidências de corrupção consegue livrar o pescoço da guilhotina da Lava Jato porque se mantém entregando dinheiro do contribuinte a parlamentares que conseguem ser tanto quanto ou menos éticos. Por causa disso, pessoas morrem em filas de hospitais públicos, crianças ficam sem merenda e transporte escolar decentes, pesquisadores que produzem nossa ciência deixam de receber remuneração, policiais que deveriam ter tranquilidade para garantir a nossa segurança acabam se entregando a bicos arriscados para manter suas famílias, populações indígenas e quilombolas vão para o vinagre e a qualidade da água que você bebe e do ar que respira vão para o beleléu, pessoas escravizadas correm o risco de continuam assim por falta de operações para libertá-las.

Diante de tudo isso, a Câmara dos Deputados vota, nesta quarta (16), uma Reforma Política, com regras que podem aumentar ainda mais o fosso com a sociedade. Parece piada.

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Pregar racismo não é exercer direito à opinião. É proferir discurso de ódio http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/15/pregar-racismo-nao-e-exercer-direito-a-opiniao-e-proferir-discurso-de-odio/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/15/pregar-racismo-nao-e-exercer-direito-a-opiniao-e-proferir-discurso-de-odio/#respond Wed, 16 Aug 2017 00:24:52 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=34693

Momento em que manifestantes que protestavam contra marcha de racistas e nazistas são atropelados em Charlottesville . Foto: Ryan M. Kelly / AP

Muita gente na internet confunde opinião com discurso de ódio. É um erro bem comum quando não se está acostumado às regras do debate público de ideias.

Retomar essa discussão neste momento – em que racistas e autodeclarados neonazistas carregam tochas e entoam palavras de ordem contra negros, população LGBT, migrantes, islâmicos e judeus, nos Estados Unidos, e a violência cresce contra indígenas, quilombolas, negros, gays, lésbicas, transexuais, população em situação de rua, entre outros, por aqui – é importante.

Na internet, o anonimato traz aquela sensação quentinha de segurança e, por conta disso, não raro, as pessoas extrapolam. Sentem-se livres de punição pelos seus atos. Afinal de contas, na rede é menos simples (mas não impossível) identificar quem falou ou fez algo bizarro.

O direito ao livre exercício de pensamento e o direito à liberdade de expressão são garantidos pela Constituição Federal e pelos tratados internacionais que o país assinou. E, da mesma forma, as pessoas têm o direito a ter suas integridades física e psicológica respeitadas. Ou seja, temos que encontrar o equilíbrio entre o direito a ter opinião e o direito a ver garantida a dignidade.

Nessa balança, deve-se considerar que a liberdade de expressão não é um direito fundamental absoluto. Porque não há direitos fundamentais absolutos. Nem o direito à vida é. Prova disso é o direito à legítima defesa. Porque, a partir do momento em que alguém abusa de sua liberdade de expressão, espalhando o ódio e incitando à violência, isso pode trazer consequências mais graves à vida de outras pessoas.

Alguns políticos, padres, pastores e comunicadores dizem que não incitam a violência. Não é a mão deles que segura a faca, o revólver ou a tocha, mas é a sobreposição de seus discursos ao longo do tempo que distorce o mundo e torna o ato de esfaquear, atirar e atacar banais. Ou, melhor dizendo, “necessários”, quase um pedido do céu. São pessoas assim que alimentam lentamente a intolerância, que depois será consumida pelos malucos que fazem o serviço sujo.

Mas, aí, temos uma informação importante: a liberdade de expressão não admite censura prévia. Ou seja, apesar de alguns juízes não entenderem isso e darem sentenças aqui e ali para calar de antemão biografias, reportagens, propagandas, movimentos sociais, a lei garante que as pessoas não sejam proibidas de dizer o que pensam.

Contudo, há o outro lado da moeda: as pessoas são sim responsáveis pelo impacto que a divulgação de suas opiniões causa. Como é o caso de dirigir a um grupo específico um sentimento de ódio, propondo a restrição de seus direitos e até sua extirpação social.

E toda pessoa que emitir um discurso de ódio, está sujeita a sofrer as consequências trazidas pelo Estado ou pela própria sociedade: pagar uma indenização, ir para a cadeia, perder o emprego, ter sua candidatura cassada. Afinal, o exercício das liberdades pressupõe responsabilidade. Quem não consegue conviver com isso, não deveria nem fazer parte do debate público, recolhendo-se junto com sua raiva e ódio ao seu cantinho.

Como você expõe sua opinião? Privilegiando o diálogo de diferentes e buscando uma convivência pacífica ou conclamando as pessoas, com base no medo e na desinformação, para desrespeitar ainda mais aqueles vistos como diferentes?

Por fim, muitos interpretam opiniões com críticas feitas por terceiros como discursos de ódio. E, ao mesmo tempo, acreditam que os discursos de ódio que eles mesmos proferem são apenas críticas e opiniões. Ou seja, ódio é tudo aquilo com o qual não concordam.

Sei que a discussão é complexa porque há uma carga grande de subjetividade e relatividade que envolvem pontos de vista e lugares de fala. Já tratei aqui uma pancada de vezes sobre a difícil caminhada para aceitarmos o outro ao invés de querermos arrancar seus olhos, fritar seu fígado em óleo quente e usar seus órgãos genitais como isca para peixe.

A gradação dos limites e balizas varia de acordo com cada sociedade, levando em conta seu caldo cultural e sua experiência social. Além disso,  somos seres racionais – pelo menos o bastante para não encarar qualquer contestação às nossas opiniões ou ao nosso modo de vida como um ataque à dignidade da humanidade e o armagedom.

Claro que deixamos escapar, com isso, os profissionais da retórica da provocação do ódio: aqueles que montam seus discursos de forma competente para que seus leitores e ouvintes sintam raiva e queiram exterminar outros grupos sociais sem que, para isso, precise ele próprio dizer nada. Esse tipo de profissional é fascinante por duas razões: primeiro, o discurso de ódio propriamente dito fica não por sua conta, mas de seus comentaristas ou grupos de apoio – formalmente, ele é apenas a faísca que dispara o processo. E, em segundo lugar, pois, quando acusado tende a usar como resposta não a defesa da própria liberdade de expressão, mas que o outro é que está provocando o ódio contra ele.

Devemos dar o braço a torcer porque são geniais. São comunicadores, políticos e religiosos e estão no nosso dia a dia, nos fazendo sentir e proferir ódio pelo que não conhecemos sem que sejamos capazes de perceber.

Cada pessoa que duvida de todos os discursos (inclusive deste que vos escreve), não se deixa enganar pelos que provocam sem sujar as mãos e ouve as razões dos que pensam e vivem de uma maneira diferente sem achar que eles são a representação do mal certamente tem mais facilidade de identificar o que é ódio e o que é opinião.

Porque consegue se colocar no lugar das pessoas que são alvo da agressão e entende que não estamos falando de criar grupos imunes a críticas, mas de evitar que grupos sejam mortos ou violentados nesse processo.

Organizei este “teste” aqui no blog tempos atrás. Vamos lá, respondam rápido só para treinar a reflexão: é discurso de ódio ou é opinião?

1) Um texto propõe exterminar, trucidar, torturar, espancar, linchar uma pessoa ou um grupo de pessoas pelo que são ou representam.
a) É discurso de ódio
b) É opinião

2) Um comentarista faz duríssimas acusações a alguém ou alguma coisa que você respeita, mas não incita violência de terceiros contra ela.
a) É discurso de ódio
b) É opinião

3) Alguém tuíta dizendo que Deus não existe.
a) É discurso de ódio
b) É opinião

4) Aliás, alguém tuíta dizendo que, em sua opinião, Deus é mulher e negra.
a) É discurso de ódio
b) É opinião

5) Um mensagem na lista de discussão convoca as pessoas a perseguirem, assediarem e até atacarem jornalistas.
a) É discurso de ódio
b) É opinião

6) Um post ridiculariza o lugar onde você nasceu, independentemente se com razão ou não.
a) É discurso de ódio
b) É opinião

7) Um político diz que alguém não merece ser estuprada.
a) É discurso de ódio
b) É opinião

8) Alguém defende confiscar livros de história de autores islâmicos e queimá-los em praça pública para proteger as crianças.
a) É discurso de ódio
b) É opinião

9) Um candidato conclama que a população deve ir para cima dos homossexuais que lutam por seus direitos.
a) É discurso de ódio
b) É opinião

10) Alguém ameaça professores por tratarem de gênero em sala de aula.
a) É discurso de ódio
b) É opinião

Respostas: Considerando o ponto de vista de respeito aos direitos humanos conforme prevê a Constituição Federal e a jurisprudência brasileira, os resultados seriam 1) a; 2) b; 3) b; 4) b; 5) a; 6) b; 7) a; 8) a; 9) a; 10) a.

Mas o melhor dessas perguntas não é a resposta, mas o caminho que cada um de nós faz até chegar a ela e a percepção de que o mais importante é entender que nossa liberdade pessoal para falar é tão importante quanto o direito à dignidade dos alvos de nossas críticas.

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Como garantir que o Congresso não seja um clubinho de homens brancos? http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/15/como-garantir-que-o-congresso-nao-seja-um-clubinho-de-homens-brancos/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/15/como-garantir-que-o-congresso-nao-seja-um-clubinho-de-homens-brancos/#respond Tue, 15 Aug 2017 12:37:54 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=34686

Michel Temer dá posse a um ministério de homens brancos em 2016. Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

É difícil defender a existência de partidos políticos atualmente. Contando com popularidade menor que pochetes, viseiras e injeções de benzetacil, eles estão entre as instituições menos confiáveis e as coisas menos agradáveis do país.

Fizeram por merecer, claro. O que deveriam ser agremiações que reúnem pessoas para defender determinada visão de mundo, ideologia e projeto nacional acabaram sendo federações de interesses individuais e mercenários a soldo de quem pagar mais. Nem sempre, nem com todos, mas em quantidade o suficiente para jogar a política na lama da descrença.

Não dizemos, contudo, que a democracia é a menos pior das formas de governo à toa. Apesar de todos os seus defeitos, não foi inventado nada de melhor para colocar no lugar. E considerando que não temos ainda consciência ou mecanismos suficientes para garantir uma ampla democracia direta, teremos que continuar elegendo representantes que falarão e decidirão por nós.

Como retirar os partidos políticos da UTI e garantir que representem não apenas as diferentes opiniões, mas a sua própria diversidade? O número de mulheres, negros, indígenas, população LGBT e trabalhadores no Congresso Nacional, por exemplo, é muito inferior do que sua fatia na sociedade. E isso tem impacto direto na formulação de políticas públicas e na defesa de determinados direitos.

É impossível que uma Câmara composta de homens, brancos, héteros, cis, empresários, por mais boa vontade que tenha (e boa parte não têm) possa entender a realidade de outros grupos historicamente excluídos de sua cidadania e falar por eles. Deputados-patrões abrem mão de seus interesses e defendem os direitos de seus empregados no plenário do Senado? Há cláusulas que obrigam uma porcentagem mínima de candidaturas de mulheres, por exemplo, mas elas ainda não foram capazes de equilibrar a participação.

Dois em cada dez deputados federais eleitos em 2014 se declaravam negros de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral. Enquanto, segundo o Censo 2010, 50,7% da população se considera negra. Não houve deputado que se declarou indígena ao TSE. Isso sem contar que as próprias estruturas partidárias são autoritárias e pouco democráticas, com regras que mudam ao sabor do vento, favorecendo quem está em seu controle. Isso faz com que se pareçam mais com feudos do que com instâncias de debate e construção coletiva.

Quem acredita que a solução para isso depende apenas da mobilização dos grupos excluídos ignora ou quer ignorar que muitas lideranças sociais não contam com recursos e estrutura para se viabilizar eleitoralmente. E, ao invés de criamos políticas para tanto, vamos na direção contrária.

A proposta de implantar o sistema de “distritão”, elegendo os deputados os mais votados em cada estado sem considerar os votos dados à legenda e a outros candidatos do mesmo partido, leva a política ao personalismo, afastando-a ainda mais do campo das ideias. E segue na direção contrária à necessidade de aumento da representação das minorias em direitos, porque tende a dificultar a eleição de novas lideranças, da direita à esquerda, facilitando a reeleição de quem já está lá ou de pessoas famosas.

Hoje a proposta não tem apoio suficiente na Câmara para ser aprovada, então pode estar funcionando como um bode na sala para o fundo público de financiamento de campanhas – tábua de salvação dos parlamentares que estão em pânico diante da impossibilidade de obter doações de empresas e do limite que deve ser impostos a doações de pessoas físicas. Mesmo assim, pela coragem de propor algo como o “distritão” temos a devida proporção do tamanho do isolamento dos parlamentares junto à sociedade.

A criação de um fundo público, aliás, não deve ser descartada na discussão, considerando que a história mostrou que empresas não financiavam campanhas, mas alugavam candidatos. O valor sugerido para o fundo (R$ 3,6 bilhões) e o custo estimado por campanha presidencial (R$ 150 milhões), contudo, são grandes demais para deixar nas mãos das cúpulas partidárias, que é quem decidirão como os recursos serão gastos.

Entrevistei o advogado especialista em direito eleitoral Fernando Neisser, um dos coordenadores da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político, na TV UOL, nesta segunda (14). Ele lembrou que o nosso sistema eleitoral para deputados e vereadores, o proporcional, é considerado bom internacionalmente. O problema é que ele não é implementado corretamente – feito uma incrível TV que não funciona porque alguém, deliberadamente, não conecta os cabos. Para Neisser, a Alemanha é o que é não por seu sistema eleitoral distrital misto, que muitos querem importar por aqui num segundo momento, mas porque é a Alemanha – resultado de um determinado processo histórico, cultural, social, econômico, geopolítico.

Infelizmente, a discussão da Reforma Política está se resumindo a um debate sobre o sistema eleitoral. Que é importante, mas não resume tudo. Segundo Neisser, deveríamos estar discutindo formas de democratizar os partidos políticos, para além de proibir o fim das coligações (que fazem com que alguém que vote no PT ou no PSDB, por exemplo, ajude a eleger candidatos do PMDB ou do DEM, com os quais não tem identificação) ou evitar que partidos de aluguel, sem propostas, possam crescer e prosperar.

Medidas para garantir que representem ideias e falem em nome de uma base, debatendo e discutindo com ela o desenho de sociedade que desejam construir. Pode parecer um pouco longe da realidade, mas não adianta mudar a forma de escolher se não qualificarmos o próprio sistema. Se assim for, as eleições continuarão sendo uma grande injeção de benzetacil nas nádegas. Só com a dor, sem os benefícios do antibiótico.

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Políticos guiam órfãos do ódio e da economia em direção à escuridão http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/14/politicos-guiam-orfaos-do-odio-e-da-economia-em-direcao-a-escuridao/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/14/politicos-guiam-orfaos-do-odio-e-da-economia-em-direcao-a-escuridao/#respond Mon, 14 Aug 2017 14:10:47 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=34676

Racistas e neonazistas marcham em Charlottesville, EUA. Foto: Andrew Shurtleff/The Daily Progress

Políticos que adotam uma narrativa de antagonismo a alguma coisa ao invés de apostar na construção de alternativas fazem sucesso em todo o mundo. Tornam-se ícones da reação de um naco da sociedade que se sente acuado diante das mudanças sociais e culturais que universalizam direitos e deveres.

Eles prometem proteger aqueles que foram educados em determinados princípios e valores que, finalmente, passaram a serem considerados preconceituosos e segregacionistas por conta do atual estágio da evolução humana. Afirmam que seus seguidores não estão errados ao considerar o negro, o gay e a lésbica, o migrante, a trans, como “os outros” que não são iguais a eles, muito menos detentores dos mesmos direitos. Defendem que o mundo deve permanecer no passado e que nada precisa ser revisto para acomodar atores antes excluídos. Acreditam que Deus e o Diabo elegeram seus escolhidos.

Dizem que marchas de homens brancos com tochas na mão, exigindo a manutenção dos direitos e privilégios que eles já têm e se assumindo racistas e nazistas, como a ocorrida na última sexta (11), em Charlottesville, nos Estados Unidos, são apenas liberdade de expressão.

Ao mesmo tempo, bilhões de pessoas ao redor do mundo não foram beneficiadas pelas políticas liberais dos últimos 25 anos. Viram as economias crescerem, ricos ficarem mais ricos e seu quinhão de felicidade dessa festa nunca vir do tamanho prometido. Com isso, passaram a acreditar fácil no discurso que culpa o “outro”, o “de fora”, o “diferente” por sua situação. O desconhecimento do outro torna-se medo, que deságua em ódio.

O problema é que a sociedade civil, a mídia e o poder público não foram competentes de trazer esse público para a esfera pública e ajudar a construir coletivamente a noção de que a inclusão social e o respeito à diferença não são coisas que tolhem a liberdade porém, pelo contrário, reafirmam-na.

E de que a responsabilidade pela situação da economia não é do imigrante, do refugiado, da minoria em direitos, mas do próprio sistema, que concentra, violenta e exclui. E que o discurso de ódio contra aqueles que são os mais vulneráveis é usado para domar a população, mantendo-a longe da discussão sobre mudanças no sistema que democratizem os ganhos da mesma forma com a qual os prejuízos já são socializados hoje. Para falar a verdade, parcelas da sociedade civil e da mídia nem quiseram travar esse debate.

Esses políticos possuem o aparente frescor da novidade em suas figuras, outsiders do jogo político partidário tradicional, apesar do discurso que empunham defender a permanência do mundo de sempre.

Parte da elite intelectual seja de esquerda, de centro e de direita, é vítima de uma arrogância na análise de conjuntura enviesada. Em quantas conversas nós, jornalistas, não rimos desses políticos, acreditando que a sua campanha seria fogo de palha? Não raro, tratamos como piada ou folclore figuras que sabem muito bem o que fazer e que entendem como parcelas do eleitorado estão divididas, utilizando essa percepção a seu favor. No Brasil, nos Estados Unidos, na Europa.

Por conta da extrema polarização, algumas figuras tornam-se importantes para um grupo significativo que os vê como “aliado” diante de um “inimigo” comum. Uma simplificação perigosa que tende a cobrar seu preço no futuro, quando constata-se – tarde demais – que a serpente que brotou do ovo morde a mão daquele que o chocou com carinho.

Tantos os trabalhistas quantos os socialdemocratas brasileiros caíram nesse canto da sereia e, hoje, lutam para sobreviver. Alimentaram corvos que comeram ou comerão seus olhos através da traição.

A democracia representativa é cheia de defeitos mas, com seus freios e contrapesos, ainda é melhor do que a tirania que pode ser imposta por pessoas que cheguem ao poder desprezando os direitos fundamentais. Porque a garantia do pacote mínimo de dignidade a minorias de direitos não deve ser feita com base em consultas de marqueteiros junto à opinião pública. Pois a massa, quando incendiada de forma ignorante, pode ser tão violenta quanto os piores ditadores e fundamentalistas religiosos.

Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos ou na Europa, a polarização política burra e a violência contra as minorias segue bem, obrigado. A polícia mata mais negros do que brancos, as bolhas sociais físicas e digitais se multiplicam, garantindo que você não conviva com o terrível contraditório, a questão ambiental é preocupação da boca para fora dos governantes.

Enquanto isso, o conhecimento superficial, suficiente para uma conversa de bar, segue sendo o mais difundido. Se o debate público fosse mais qualificado, a pessoa se sentiria motivada a ler determinados textos até para não ser humilhada coletivamente no Facebook ou no Twitter ao expor argumentos ruins, preconceituosos e superficiais.

Como já escrevi aqui mais de uma vez, o discurso violento e opressor – mais palatável e que mexe com nossos sentimentos mais primitivos e simples – ecoa e repercute. Esse discurso basta em si mesmo. Não precisa de nada mais do que si próprio para ser ouvido, entendido e absorvido. Em um debate qualificado quem usa esses argumentos toscos nem seria ouvido. Contudo, fazem sucesso na rede. Dão respostas fáceis e rápidas. Ajudam a escolher presidentes.

Cabe a todos que fazem parte do debate público a ajudar a qualificá-lo o melhor possível e não esperar para a iminência de uma catástrofe para fazer isso. O cronômetro corre para trás. E não espera o tempo da autocrítica, nem do amadurecimento de ideias. E ri da cara de quem espera uma conjuntura melhor para agir.

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Diante do ódio e da intolerância, o silêncio não é neutro http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/13/diante-do-odio-e-da-intolerancia-o-silencio-nao-e-neutro/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/13/diante-do-odio-e-da-intolerancia-o-silencio-nao-e-neutro/#respond Mon, 14 Aug 2017 00:24:35 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=34664

Centenas de supremacistas brancos e neonazistas marcham em Charlottesville, nos Estados Unidos. Foto: Samuel Corum/Anadolu Agency via Getty Images

Tanto a eleição presidencial brasileira de 2014 quanto o pleito que escolheu Donald Trump presidente dos Estados Unidos, em 2016, podem ser vistos como momentos nos quais a frágil costura dos plurais e contraditórios retalhos sociais de ambos os países se rompeu. Traduzindo: deu chabu.

O ódio e a intolerância não foram criados nas eleições, mas fermentam, desde as fundações, dessas que “foram” as duas maiores sociedades escravistas modernas. E que seguem seus genocídios de jovens pobres e negros pela ação direta do Estado ou por sua anuência. E tratando populações LGBT, migrantes e indígenas como cidadãos de segunda classe.

A incapacidade de colocar-se no lugar do outro e entender que ele ou ela merece a mesma dignidade que sonhamos pra nós mesmos esteve sempre presente. A diferença é que não era distribuída pela internet, conectada pelas redes sociais e amplificada pela popularização de smartphones. A rede trouxe maravilhas, mas também organizou a ignorância que estava dispersa.

Na última campanha presidencial, PSDB e PT quase levaram o país às vias de fato, incitando a população e municiando-a para o confronto digital. Esse conflito deflagrado e fermentado pelo rancor do resultado das urnas (um susto para muita gente por desmentir o que a bolha do algoritmo da rede social vendia na timeline) foi apenas o início. Na sequência, a escalada de violência durante o processo que levou ao impeachment levou pessoas a apanharem na rua por usarem bicicletas ou camisas da “cor errada”.

E vermelho se tornou a cor errada por um longo tempo. Da mesma forma, a perseguição ideológica de um certo “macarthismo à brasileira” se instalou, bem como um clima de caça às bruxas a toda ideologia que não fosse aquela que não se afirma como ideologia. E que, por isso, mais ideológica é. Desde então, debater História em algumas salas de aula tem se tornado delito passível de perseguição, assédio ou demissão no Brasil. O problema é que, quando as pessoas não aprendem História, ela cisma em se repetir.

Leia também:
Marcha racista e neonazista nos EUA deve ter animado muita gente no Brasil

Ao mesmo tempo, muito chorume circulou nas eleições norte-americanas, principalmente aquele incitado por seguidores do presidente e seus discursos. E a campanha de sua adversária, se não destilou preconceito e ódio na mesma monta, também não pode ser inocentada pelo clima de conflito estabelecido. 

Após esses momentos eleitorais, o preconceito deflagrado não retornou para a caixinha. E gente que havia se sentido mais à vontade do que nunca para transformar seu medo em ódio, e espalhá-lo, seguiram em marcha. Claro que prefiro que a realidade sobre nós mesmos venha à tona. Manter tudo no armário tem a vantagem de oferecer aos cidadãos uma tranquilidade forjada suficientemente ampla para que cada um toque sua vida. Mas como todo processo que não é natural, uma hora esse represamento explode. E machuca.

Tanto o Brasil quanto os Estados Unidos deveriam olhar para suas entranhas e discutirem que tipo de sociedade querem ser após a era digital ter embaralhado as coisas. Devido à pluralidade de sua composição, não é possível imaginar que o melhor modelo não seja o de seguir a vontade da maioria, garantindo, contudo, o respeito à dignidade de todas as minorias. Ou seja, uma democracia real. A política existe para ser a instância de mediação dos conflitos na sociedade, então que ela seja fortalecida e não abandonada.

Por fim, o discurso violento e opressor – mais palatável e que mexe com nossos sentimentos mais primitivos e simples – ecoa e repercute. Esse discurso basta em si mesmo. Não precisa de nada mais do que si próprio para ser ouvido, entendido e absorvido. O problema é que para qualificar o debate público – única forma de combater esse discurso violento – precisamos de ações em grande escala. O que só é possível através do Estado, que regula os parâmetros educacionais. Ou seja, precisamos usar o ensino como forma de melhorar o debate público contra o ódio.

Como fazer isso em um tempo em que o Estado está tomado por quem não vê o esgarçamento do tecido social como um problema, mas que surfa nesse medo e nessa insegurança, e que acha que o modelo de educação pública está fadado ao fracasso, é um desafio que teremos que responder. O mais rápido possível, se quisermos ter um futuro.

“Vagabunda”, “Essa corja tem que morrer”, “Essa raça deve ser exterminada”, “Vadia”, “Tinha que esfolar viva”, “Quem vota neles devia ser preso”, “Bando de nordestino ignorante que votou errado”. Pela internet circulam casos de pais e mães orgulhosos de seus filhos que desenham, com o dedo, na tela de tablets, assassinatos de políticos. Ou de crianças que fizeram bullying em amiguinhos que usavam cores diferentes daquelas que são “autorizadas” socialmente.

Durante as eleições de 2014, entrevistei Telma Vinha, professora da Faculdade de Educação da Unicamp, que ressaltou que a percepção sobre o coletivo, bem como o aprendizado sobre justiça, diversidade e tolerância ocorre na escola. E que esse é o ambiente onde devem conviver opiniões diferentes. Portanto, por mais que alunos e alunas tragam de casa uma visão intolerante, a escola deve transformar e ressignificar essa visão. Não para doutrinar ou censurar, mas garantir o respeito à divergência.

Na escola, aprendemos a lidar com a igualdade e a diferença. Se um pai diz para não andar com gays porque eles são “sujos”, na escola a pessoa terá a oportunidade de aprender que, na verdade, as coisas não são assim e que as diferenças entre as pessoas representam uma vantagem e não uma desvantagem para a sociedade.

Uma possibilidade é a escola promover debates e reuniões para que todos entendam que tipo de mensagem estão passando para seus filhos durante as eleições, por exemplo. Dois pais ou duas mães que defendam o voto em um candidato X e dois pais ou duas mães que defendam o voto em um candidato Y podem ser convidados para apresentar seus pontos de vista para os alunos em uma turma, de forma respeitosa. Pois a discussão de valores e de respeito a ideias divergentes é tão importante quanto o do conhecimento técnico.

Com a popularização das redes sociais e a quantidade de tempo em que os mais jovens passam conectados, é de se esperar que a família não seja a sua única fonte de formação fora da escola, talvez nem a principal. Mas a escola tem que estar preparada para entender isso e convidá-los à reflexão sobre tudo. “A escola sempre vai transmitir valores. Quando ela fecha os olhos, está transmitindo valores. A intolerância para com o outro é um valor”, lembra Telma.

Em outras palavras, o silêncio não é neutro.

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Marcha racista e neonazista nos EUA deve ter animado muita gente no Brasil http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/12/marcha-racista-e-neonazista-nos-eua-deve-ter-animado-muita-gente-no-brasil/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/12/marcha-racista-e-neonazista-nos-eua-deve-ter-animado-muita-gente-no-brasil/#respond Sun, 13 Aug 2017 00:37:44 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=34652

Centenas de supremacistas brancos e neonazistas marcham em Charlottesville. Foto: Alejandro Alvarez/Reuters

Sabe a humanidade? Então, ela deu errado.

Centenas de racistas e neonazistas marcharam, na noite desta sexta (11), em Charlottesville, nos Estados Unidos, carregando tochas e entoando palavras de ordem contra negros, migrantes, homossexuais, judeus, como relata o repórter Ricardo Senra, pela BBC Brasil. Bradaram que “Vidas brancas importam”, uma referência ao movimento “Black Lives Matter”, contra a morte de negros pelas mãos do poder público. Sem pudor algum.

Considero um insulto alguém dizer que brancos são vítimas de preconceito estrutural e se compararem a negros ou outros grupos historicamente explorados, tanto aqui como lá. Aliás, quando alguém reclama de “racismo contra brancos” na verdade está insatisfeito com a reação desses grupos contra a opressão. Ou se manifestando contra a aplicação das já tímidas políticas públicas, adotadas por pressão da sociedade civil, para reverter um quadro de injustiça social crônica.

A marcha foi lá, mas deve ter animado muita gente por aqui. No Brasil, há um genocídio de jovens pobres e negros nas periferias das grandes cidades, homossexuais são vítimas preferenciais de assassinatos e espancamentos e migrantes sofrem preconceito e são escravizados – sejam em grandes fazendas, na construção civil ou em oficinas de costura.

Há um pessoal que não se indigna diante do fato da mulher negra ganhar, em média, muito menos que o homem branco para uma mesma função. Indigna-se com quem diz que racismo existe. Não fica revoltado diante da morte de jovens pobres e negros. Revolta-se com a filha negra da empregada se sentar no mesmo banco de faculdade que eles. Não acha preconceito dar porrada no sujeito que foi acusado de roubar o próprio carro no estacionamento de um supermercado por ser negro. Para ele, preconceito são cotas.

Seria cômico se não fosse trágico o perigo representado por um grupo branco (com direitos assegurados) que se manifesta de forma organizada – e, por vezes, violenta – diante da luta de outros grupos por sua dignidade.

Lembrando que “maioria” e “minoria” não são uma questão numérica, mas dizem respeito ao nível de efetivação da cidadania, uma maioria reivindica a manutenção de privilégios, garantindo, dessa forma, o espaço que já é seu (conquistado por violência, a ferro e fogo).

Ir contra a programação que tivemos a vida inteira, através da família, de amigos, da escola, da mídia e até de algumas igrejas em que pastores pregam que “africanos são amaldiçoados por Deus” é um processo longo pelo qual todos nós temos que passar. Mas necessário.

Todos nós, nascidos neste caldo social de sociedades de herança escravista, como os Estados Unido e o Brasil, somos potencialmente idiotas a menos que tenhamos sido devidamente educados para o contrário. Pois os que ofendem uma jornalista de forma tão aberta, como foi o caso da apresentadora Maria Júlia Coutinho, da TV Globo, só fazem isso por estarem à vontade com o anonimato (Hanna Arendt explica) e se sentirem respaldados por parte da sociedade.

Toda a vez que alguém trata da questão da desigualdade social e do preconceito que negros e negras sofrem no Brasil (herança cotidianamente reafirmada de um 13 de maio de 1888 que significou mais uma mudança na metodologia de exploração da força de trabalho, pois não permitiu bases para a autonomia real dos trabalhadores africanos e seus descendentes), é linchado em redes sociais.

Pois, como todos sabemos, não há racismo no Brasil. “Isso é coisa de negro recalcado.” Ou exploração sexual de crianças e adolescentes. “As meninas é que pedem e depois a culpa é dos homens?” O machismo? Uma mentira “criada por feminazis para roubar nossos direitos”. E a homofobia, uma invenção “daquela bicha do Jean Wyllys”. Não há assassinatos relacionados a questões étnicas. “Eles é que estão no lugar errado e na hora errada, pois os ‘homens de bem’ seguem a lei e nada acontece com eles.”

“Nós devemos manter o ‘mal’ fora de nosso país!”. Em fevereiro deste ano, Donald Trump respondeu dessa forma, em sua conta no Twitter, a uma decisão do Tribunal Federal de Seattle que suspendeu temporariamente o seu decreto impedindo a entrada de pessoas de sete países de maioria islâmica.

A ideia de “mal” usada por ele tem significados que se desdobram: A princípio representa o terrorismo de algumas organizações que ele afirma tentar evitar – apesar de nenhuma pessoa dos países barrados ter cometido atentados nos EUA. Mas ao baixar uma proibição indiscriminada a todos os cidadãos desses países, Trump os torna suspeitos simplesmente porque foram proibidos de entrar. E a percepção do que seja o “mal” se estende, metonimicamente, aos inocentes. É a tática do linchamento: se adoto uma punição contra você é porque você fez algo errado.

Mesmo que isso esteja longe de corresponder à realidade. Mayra Cotta, pesquisadora da New School for Social Research, em Nova York, mostrou, em artigo neste blog, que 64% dos ataques com armas em espaços públicos nos Estados Unidos foram causados por homens brancos que nasceram naquele país. Homens brancos, frequentemente supremacistas brancos, que entraram armados com sua ideologia racista em jardins de infância, escolas, universidades, cinemas, igrejas, repartições e escritórios e começaram a matar as pessoas ao se redor, sem necessariamente um alvo específico.

E Trump não se refere a eles como o “mal”. Até porque seria muito difícil explicar a seus eleitores – pelo menos os que buscam soluções fáceis para o medo que sentem – que parte da violência em seu país está ligada a desvios e questões mal resolvidas de sua própria sociedade. Como o racismo que segue sendo uma chaga aberta, tornando, mais de 150 anos após a abolição da escravidão por lá, necessária uma campanha a fim de deixar claro que “Black Lives Matter” – vidas negras importam.

Ou as intervenções militares norte-americanas em outras sociedades que, sob a justificativa de garantir o respeito aos direitos humanos, criam montanhas de cadáveres e fluxos de refugiados para, ao final, sair com vantajosos contratos para extração de petróleo e de recursos naturais e exploração de mercados consumidores. Em maior ou menor grau, esse é o modus operandi de sucessivas administrações norte-americanas, incluindo a festejada e já saudosa gestão Obama.

O problema de Trump é que ele escancara isso sem mediações e estica a corda, ultrapassando o limite da racionalidade e atingindo pilares da democracia. E, num cálculo racional, ao eleger inimigos e tachá-los (mexicanos ladrões e estupradores, muçulmanos terroristas, chineses desleais…) e afirmar que eles estão apodrecendo a sua sociedade, transfere o problema para terceiros e enfraquece a possibilidade de reflexão sobre os problemas causados pelo país e sua elite dominante. O “mal” é sempre o outro, o islâmico, o negro, o migrante, o homossexual, o que não se parece com a nossa elite, nunca nós mesmos.

E isso, por fim, empodera muita gente. Que sai às ruas com tochas. Cultivando ódio. Lembrando a abominável Ku Klux Klan. E, sem que o ato seja devidamente repudiado pelo governo, o monstro cresce. Sem sabermos até onde ele pode ir.

Um sentimento de vergonha alheia, muito maior do que sair pelado na rua, com purpurina dourada no corpo, com um cabrito imolado nas mãos, toma conta de mim quando vejo esse povo branco, hétero e homem dizer que se sente oprimido por negros, gays, lésbicas, transexuais, migrantes, judeus.

Nessas horas, só posso citar a sabedoria presente na mitologia cristã, uma das melhores passagens de toda a bíblia, em minha humilde opinião.

Evangelho de Lucas, capítulo 23: Pai, perdoai. Eles não sabem o que fazem.

 

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Por uma Reforma Política que retire poder do Congresso e devolva ao povo http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/12/por-uma-reforma-politica-que-retire-poder-do-congresso-e-devolva-ao-povo/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/12/por-uma-reforma-politica-que-retire-poder-do-congresso-e-devolva-ao-povo/#respond Sat, 12 Aug 2017 18:27:38 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=34642

A polêmica Reforma Política que está tramitando no Congresso Nacional, com seu “distritão” e seu fundo de financiamento público de campanhas de R$ 3,6 bilhões, acabou por ajudar a desviar o foco de um debate que tem potencial para resgatar a própria política: criar novas formas de participação popular direta.

Na última vez em que isso entrou em pauta, ainda no primeiro governo Dilma Rousseff, deputados e senadores vieram a público dizer que isso nos tornaria uma União Soviética, transformaria o país em uma ditadura bolivarianista venezuelana ou instalaria o regime cubano por aqui. O que é ridículo porque o receituário adotado por esses países foi na direção contrária, com concentração de poder em um núcleo central, ferindo a democracia.

O mimimi dos parlamentares brasileiros era medo por ter que devolver um pouco do poder que, por direito, pertence ao povo.

A discussão não tem como objetivo trocar a democracia representativa (em que elegemos políticos que falariam por nós) pela democracia direta. Até porque não somos uma sociedade suficientemente desenvolvida, com acesso pleno à informação e consciência de seus direitos e deveres, para aposentar nossos representantes. Isso é um sonho ainda distante e talvez impossível.

Mas há como abrir espaço para mais participação popular. E temos boas experiências que ganharam o mundo, como a questão do orçamento participativo ou a implementação de conselhos – que são espaços em que governo e sociedade discutem políticas públicas e seu monitoramento. Eles já estão presentes desde o âmbito local (na escola, no posto de saúde) até o federal, onde reúnem representantes de entidades empresariais, organizações da sociedade e governo. Alguns são obrigatórios, exigidos por leis federais, mas cada município e estado pode criar os que julgar necessários.

É óbvio que, para essas arenas de participação popular serem mais efetivas, precisam deter poder real, ou seja, decisão sobre orçamento, e não serem apenas locais de discussão e aconselhamento. E isso gera conflito entre novas instâncias de representação e as convencionais. Além do mais, são eleitos representantes que não precisam estar em partidos políticos, o que tira mais poder da política tradicional.

Afinal, senadores, deputados, vereadores, membros das esferas federal estadual e municipal e quem sistematicamente ganha com a proximidade a eles, enfim, o grupo de poder estabelecido, tende a não gostar da ideia de ver outros atores ganharem influência, outros que não fazem parte do velho jogo. Há gente que teme, com o monitoramento por parte do povo, ficar sem o instrumento clientelista. Por exemplo, se o próprio povo decide onde os recursos disponíveis devem ser alocados, reduz-se a margem de manobra dos políticos tradicionais para atender reivindicações e se manter no controle.

A proposta discutida em 2014, que acabou sendo travada pelo Congresso, era tímida demais. Na prática, regulamentava conselhos e comissões e abria a possibilidade (não a obrigação) de criar outros para ajudar a propor e monitorar políticas públicas. Ou seja, não trazia nada de novo do que já está previsto na Constituição Federal (aquele documento de 1988 que ninguém gosta de levar muito a sério) e nem respondia a demandas das manifestações nas Jornadas de Junho.

Muitos jovens que foram às ruas em 2013, reivindicando participar ativamente da política, não estavam pedindo a mudança do sistema proporcional para o distrital misto. Queriam mais formas de interferir diretamente nos rumos da ação política de sua cidade, estado ou país. Não da mesma forma que as gerações de seus pais e avós, claro. Porque, naquela época, ninguém em sã consciência poderia supor que criaríamos outra camada de relacionamento social, que ignorasse distância e catalisasse processos. Pelo menos, o início das manifestações, antes delas serem fagocitadas por outros interesses.

Com o desenvolvimento da internet, as possibilidades de interação popular deram um salto. Podemos analisar, por exemplo, as experiências de “democracia líquida” envolvendo certos partidos na Europa – com seus sistemas que utilizam representantes eleitos pelo voto direto, mas também ferramentas possibilitando ao eleitor desse representante ajudá-lo a construir propostas e posicionamentos de votação a partir de onde estiver. Muitas das experiência europeias não aforam adiante, mas isso é uma mostra que chegaremos a um momento em que a representação política convencional mude de sentido. E reinventemos a política.

O caminho não vai ser fácil, até porque alguns políticos acham que reinventar a política é governar para as suas redes sociais. Provando que eles podem ser bons comunicadores, mas não entendem ou não gostam do que significa democracia.

Por exemplo, o que pode acontecer se um político passa a medir o sucesso da implementação de suas ações através do número de curtidas, retuitadas, compartilhamentos e comentários positivos em suas redes sociais? Considerando que o total de seus seguidores representam apenas uma parte da população, os que fazem isso contam com uma avaliação parcial e insuficiente da realidade, desconsiderando a opinião do restante dos cidadãos para os quais governa.

E mais: para além da possibilidade de manipulação da “opinião da maioria” através do uso de robôs e perfis falsos por pessoas mal-intencionadas ou pelo próprio político e seus aliados, existe a natureza de “bolha” criada pelos algoritmos nas redes sociais. Em torno desse político vão se agregar pessoas que, em sua maioria, pensam como ele. Dessa forma, o que eles chamam de “opinião dos cidadãos” pode ser apenas a opinião daqueles que concordam com ele. Portanto, sua própria opinião.

Muito se discute como a tecnologia irá alterar a forma como ocorre a representatividade política ou mesmo a gestão da coisa pública. Mas não se encontrou ainda uma solução inclusiva ao invés de excludente. Porque ninguém governa apenas para seus seguidores nas redes sociais. Nem mesmo para aqueles com os quais divide uma visão de mundo. Nem apenas para a maioria. Pois democracia é um sistema em que são adotadas as decisões da maioria, desde que garantida a dignidade das minorias. Caso contrário, ela não é democracia, mas ditadura da maioria.

Plebiscitos, referendos, projetos de iniciativas populares, conselhos com representantes por tema ou distrito são primeiros passos, não os últimos. Quando a geração que nasceu na era da banda larga e do 4G chegar ao poder, a política será radicalmente transformada pela mudança tecnológica. Participar do rumo das coisas a cada quatro anos não será mais suficiente. Pois, em verdade, nunca foi.

A tecnologia tem papel-chave na reinvenção da democracia representativa. Podemos, com seu auxílio, desenvolver uma sociedade mais participativa, justa e igualitária. Ou ela também pode ser instrumento para facilitar a implementação de políticas públicas baseadas no preconceito ou para espalhar o medo, a intolerância e a desinformação.

Por isso, os debates públicos nacionais sobre o futuro da representatividade deveriam estar norteando a Reforma Política. Que deve contar com medidas de curto prazo, como as mudanças no sistemas eleitoral e no financiamento de campanha, mas também de médio e longo prazos, englobando a a natureza da própria representação. O projeto traz algumas propostas para a simplificação da democracia direta, mas o debate para o aprofundamento delas é interditado devido às outras questões. Ignorar isso mostra que seguimos incapazes de planejar o futuro.

Por fim, aos líderes políticos, econômicos e sociais que acham que todo poder emana deles próprios, um lembrete: o poder que usufrem não pertence a vocês. Ele emana do povo, como prevê as primeiras linhas de nossa Constituição.

E, pode não ser hoje, mas a gente vai querer ele de volta.

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Temer reclama de animosidade. Isso tem remédio, chama-se renúncia http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/11/temer-reclama-de-animosidade-isso-tem-remedio-chama-se-renuncia/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/11/temer-reclama-de-animosidade-isso-tem-remedio-chama-se-renuncia/#respond Fri, 11 Aug 2017 20:54:51 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=34630

Cotton Fields (by Creedence Clearwater Revival): Antes do evento, Michel Temer e Blairo Maggi participam da abertura da colheita do algodão. Foto: Alan Santos/PR

Algum agrotóxico pesado deve ter afetado Michel Temer na plantação de algodão de Lucas do Rio Verde. Em visita à cidade matogrossense, junto com o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Blairo Maggi, nesta sexta (11), ele reclamou do clima de brigas entre os brasileiros.

“Instalou-se uma animosidade, uma divergência, uma litigância, uma litigiosidade entre os brasileiros que não se encontrava no passado. Então nossa tarefa hoje com o crescimento do país é exata e precisamente fazer com que não haja brasileiro contra brasileiro, mas brasileiro com brasileiro.”

É necessário muito óleo de peroba para não determinar o sujeito na frase. Como assim “instalou-se”? O próprio Michel Temer conspirou a céu aberto para substituir Dilma Rousseff, vendendo-se ao poder econômico, à velha política e a bancadas retrógradas no Congresso Nacional como sendo a solução.

Prometeu aprovar reformas que tirassem dos pobres para garantir aos ricos, salvar a cabeça de políticos da guilhotina da Lava Jato e garantir a aprovação de mudanças propostas por bancadas como a ruralista, a do fundamentalismo religioso e a da bala.

Para possibilitar a retirada de Dilma Rousseff, um país que já estava rachado por conta das eleições gerais de 2014 foi incendiado. Optou-se for forçar um impeachment com elementos fracos ao invés de esperar um julgamento de cassação da chapa eleitoral por caixa 2, muito mais consistente. Portanto é muita inocência, para não dizer cinismo, esperar que, uma vez esgarçadas as instituições e enfraquecido o que nos une como país, as coisas voltariam de uma hora para outra à estabilidade.

E tão grave quanto a crise econômica é a crise de legitimidade do atual governo. A população não confia nele (5% de aprovação) e só não sai em massa às ruas porque o desalento, a descrença e a falta de fé atingiram níveis incapacitantes. Esse caldo de desgosto se mistura ao apoio de parte das elites política e econômica, que seguem interessadas na manutenção do governo enquanto ele for útil.

“Nós temos que eliminar uma cultura política que se instalou nos últimos tempos, muito negativa para o brasileiro e incompatível com o espírito do brasileiro, que é o da animosidade”, também disse Temer.

Mas a animosidade é a consequência, não a causa. É como febre – que, na maior parte das vezes, não é doença, mas sintoma. Neste caso, sintoma de um governo que trata a coisa pública como se fosse a Casa da Mãe Joana, gastando bilhões em recursos do contribuinte para comprar parlamentares e se manter no poder.

Isso tem remédio e ele se chama renúncia. Seguida de aprovação pelo Congresso Nacional, com sinal verde do Supremo Tribunal Federal, de eleições diretas para Presidente da República. Se fizesse isso, Temer ficaria conhecido como a pessoa que ajudou, com um ato de desapego, a pacificar o Brasil. Mas como é possível alguém ministrar o tratamento quando é, ele próprio, parte da infecção?

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Se prendesse corruptos com a sanha com que caça pobres, Rio estaria melhor http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/11/se-prendesse-corruptos-com-a-sanha-com-que-caca-pobres-rio-estaria-melhor/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/08/11/se-prendesse-corruptos-com-a-sanha-com-que-caca-pobres-rio-estaria-melhor/#respond Fri, 11 Aug 2017 18:12:31 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=34621

Soldado no complexo da Maré em 2014, ano da Copa. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Quase 60% dos novos detentos ingressaram no sistema penitenciário do Rio de Janeiro entre 2013 e 2016, quando o Estado recebeu a Copa das Confederações, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. A informação é de reportagem de Paula Blanchi, do UOL, publicada nesta sexta (11). As 16.788 pessoas que foram presas neste período representam um terço do total.

Promotores e defensores públicos ouvidos pela reportagem afirmam acreditar que há uma relação direta entre os megaeventos que a cidade recebeu e o aumento do encarceramento. Ou seja, para garantir a sensação de segurança na parte da cidade que é um cartão postal, muita gente do morro e da periferia foi recolhida.

Faço a distinção porque apenas muito recentemente, com os desdobramentos da Operação Lava Jato, um grupo das elites política e econômica cariocas experimentaram o xadrez. Até então, a política de segurança pública voltada ao encarceramento e ao controle da população era focada na xepa pobre. Ironicamente, o ex-governador Sérgio Cabral, hoje hóspede do setor prisional, foi ele próprio um dos artífices dessa política.

É um absurdo a forma como foram feitas as ocupações e ações policiais em bairros pobres no Rio de Janeiro, nesse período, com o objetivo de garantir a segurança sob a justificativa dos grandes eventos na cidade. Nelas, os direitos fundamentais foram tratorados pela “tranquilidade”. Como se um bairro inteiro fosse constituído de meliantes.

Isso quando o próprio bairro não foi removido em nome da especulação imobiliária, ops, das Olimpíadas.

O triste é que boa parte das classes média e alta não mexeu um músculo de preocupação por conta disso durante a farra dos grandes jogos. Pergunto-me qual seria o comportamento das mesmas pessoas caso os bairros nobres fossem ocupados e seus moradores vítimas de esculachos policiais na busca por corruptos e corruptores – que causam um impacto muito maior à sociedade do que um pequeno vendedor de drogas. O ato, certamente, causaria comoção.

O Estado fortemente armado agindo contra uma parcela da população em nome de outra tornou-se tão corriqueiro quanto o fechamento de uma pista da avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, aos domingos, para o lazer. Afinal, antes a pimenta nos olhos dos outros do que nos meus. Adotamos o pressuposto de que morros, comunidades pobres e favelas são um risco porque nelas estão alguns indivíduos ou organizações envolvidas em violência armada organizada. Dane-se a maioria pacífica. Agimos preventivamente para evitar o pior. O pior para nós que não somos dessa classe social.

Nós ajudamos a gestar essa política de segurança pública ao não exigir que o Estado garantisse qualidade de vida e cidadania através de serviços básicos como educação, saúde e lazer nesses locais. Ou mesmo uma perspectiva de futuro à juventude que, dessa forma, acaba empurrada para o tráfico. Ao invés de gastar em prevenção, gastamos em encarceramento.

Por essa lógica, então, também podemos considerar que prisões arbitrárias realizadas em bairros ricos de São Paulo, Rio, Salvador e Brasília, entre outros lugares, onde moram empresários, banqueiros e políticos que lucraram horrores com superfaturamentos e maracutais relativas à construção e realização dos jogos, poderia ser usada para estancar o desvio de bilhões dos cofres públicos. Pois dane-se a maioria honesta. Agiríamos preventivamente para evitar o pior. Dessa forma, a gente democratiza o absurdo.

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro negou, nesta terça (8), um habeas corpus para Rafael Braga. Preso durante as manifestações de junho de 2013 pela acusação de portar artefato explosivo (ele carregava água sanitária e Pinho Sol), foi condenado e depois liberado para cumprir prisão domiciliar. Mas foi preso novamente, acusado de envolvimento com o tráfico de drogas. Segundo a polícia, ele carregava 0,6 g de maconha e 9,3 de cocaína e um rojão – o que ele nega, afirmando que o flagrante foi forjado. Mesmo assim, com base na palavra dos policiais e sem outras evidências, foi condenado a 11 anos e três meses de prisão. Detalhe desnecessário: Rafael é jovem, negro e morador de uma comunidade pobre.

Agora, temos nova chegada de tropas ao Rio de Janeiro para ajudar a conter o surto de violência decorrente da crise econômica cuja responsabilidade é dos governos estadual e federal. Em última instância, militares são treinados para matar. E, até onde eu saiba, em uma democracia, eles não estão em guerra com seu próprio povo. Por isso, parte das próprias Forças Armadas não quer ocupar comunidades pobres, pois sabe que elas serão apontadas como responsáveis se houver problemas.

Em suma, o poder público utilizou os megaeventos para limpar o Rio das “classes indesejáveis”. Triste é que parte da população e dos governantes apoia esse tipo de ação. Gosta de se enganar e acha que estará mais segura com o Estado agindo “em guerra” contra a violência – como se isso não fosse, em si, um contrassenso.

Isso é ótimo para desviar onde estão os verdadeiros problemas relacionados do Rio de Janeiro: não nos morros e periferias, mas dentro dos palácios.

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