Blog do Sakamoto http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política. Cobriu conflitos armados e o desrespeito aos direitos humanos em Timor Leste, Angola e no Paquistão. Mon, 22 May 2017 21:11:09 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Sem uma Justiça do Trabalho eficaz, sobra machismo e preconceito de classe http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/22/sem-uma-justica-do-trabalho-eficaz-sobra-machismo-e-preconceito-de-classe/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/22/sem-uma-justica-do-trabalho-eficaz-sobra-machismo-e-preconceito-de-classe/#respond Mon, 22 May 2017 21:06:29 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=33127

Por Marcus Barberino*, especial para este blog.

A quase totalidade dos brasileiros não sabe o que é um codicilo. Ou mesmo um testamento.

Para não falar em institutos jurídicos ainda mais complexos e seletivos, como uma ação de dúvida inversa, uma reipersecutória e outros termos capazes de causar espanto nos leitores que não falam a hermética e fleumática língua apelidada pelo senso comum de “juridiquês”.

Mas todos os brasileiros, absolutamente todos, sabem o que é um contrato de trabalho. Ou de emprego, para usar o termo estrito e correto – que regulariza e legitima a compra de trabalho humano ou, ao menos, o uso potencial do tempo dos seres humanos em atividades econômicas organizadas pelo empregador, seja ele pessoa física ou jurídica.

É quase impossível estudar a história dos direitos sem se ater às reivindicações dos seres humanos que trabalham por seus direitos civis, políticos, econômicos, sociais e ambientais. Do voto das mulheres ao direito ao trabalho decente, tudo tem uma significação a partir da expansão das condições materiais de viver dos cidadãos que trabalham.

Desde Roma, a seletividade dos direitos dos patrícios serve como base de reivindicação para a universalização de direitos dos demais cidadãos. E a base simbólica desses direitos, inclusive quanto à possibilidade da sua defesa, depende de um sistema de Justiça poroso a essa característica de universalidade e de pertencimento a uma comunidade politica e jurídica.

Em tempos de exceção democrática, as máscaras da Justiça, sua universalidade e afirmatividade, começam a tremer em certos rostos.

Um grupo de magistrados do Paraná publicou um manifesto de repúdio à obra de um juiz substituto que continha um misógino e atravessado comentário sobre um tema caro: o assédio sexual no trabalho.

Em síntese, o magistrado noviço afirmava que as roupas das mulheres vítimas de assédio sexual constituem critério para fixação de reparações, mencionando a jurisprudência como fonte impessoal desse seu raciocínio. Em suma, creditou ao sistema de Justiça e a seus confrades, um critério de dosimetria que é, aparentemente, seu.

Para não externar como seu um pensamento tão retrógrado quanto juridicamente insustentável, escondeu-se no intangível e no incontrastável pois não cita na obra a suposta jurisprudência que lhe daria suporte.

Nem menciona obras doutrinárias ou as autoridades judiciárias que lavraram semelhante misoginia, pois ao tempo em que reconhece a sociopatia do perpetrador do assédio, escolhe as mulheres e seus códigos de vestir como suas verdadeiras insufladoras.

Imagine do que seria capaz este jovem magistrado sem a normatividade constitucional? O que não usaria para conter o ímpeto de liberdade das cidadãs? E imagine o que ele julga que as mulheres do seu entorno familiar fazem quando vão à praia? A máscara de guardião da promessa civilizatória desse magistrado está a tremer em seu rosto.

Mas os comportamentos misóginos ou de confessado preconceito não se limitam à juventude do Poder Judiciário. O Presidente do Tribunal Superior do Trabalho também parece claudicante quanto ao uso da máscara institucional que seus pares lhe concederam temporariamente – e que recomenda serenidade e equilíbrio mesmo quando está a proferir suas convicções pessoais e majoritariamente minoritárias.

Numa sessão das Comissões do Senado Federal que examina a proposta de subversão da CLT, para perplexidade geral, proclamou que o estabelecimento de limites aos valores de reparações por danos aos trabalhadores seria oportuno para desestimular a automutilação. Ou seja, desestimular trabalhador a cortarem partes do corpo em busca de indenização. Invocando, metaforicamente os soldados no front que se imolavam para evitar ir ao campo de batalha e, talvez, morrer.

Embora dito num tom de voz monocórdio e de quase candura, trata-se de crueldade com o Direito, com o comportamento institucional dos seus pares e dos Magistrados das demais instâncias, além de exprimir repulsa e desprezo pela realidade dos que trabalham no Brasil.

Para o Direito, a afirmação simplesmente não faz sentido. Uma hipotética automutilação constitui razão para simples e direta absolvição de qualquer empregador. Desde o corpus juris civilis romano, passando por toda legislação de saúde e segurança no trabalho, direito sanitário e ambiental, os juristas e os Tribunais assentam e reiteram que, sem uma relação de causalidade entre o dano e uma conduta do suposto agressor, não há reparação. É simples assim. É elementar.

O sofrimento psíquico pode levar soldados, magistrados, médicos e qualquer outro segmento de trabalhadores a praticar autolesão. Mas só impiedosos marechais de gabinete são capazes de identificar da exceção e do sofrimento desses seres humanos um padrão a fim de propagar preconceitos contra os que trabalham e subverter o que acontece na maior parte dos casos. Porque a lei geral busca prever comportamentos genéricos e abstratos a partir do que é comum na vida dos cidadãos.

A ocorrência de acidentes no ambiente de trabalho no Brasil tem múltiplas causas e a boa literatura médica e jurídica as elenca frequentemente. Mas a metáfora sugerida pelo ilustre magistrado é constrangedora e significa uma incipiente proposta de antropologia jurídica que nada fica a dever à busca de uma criminalidade inata.

Por fim, a quantidade de processos judiciais no Brasil assusta todos os que se aproximam da realidade brasileira. Mas o ministro Luiz Roberto Barroso, do STF, eminente constitucionalista que já emprestou sua trajetória a causas sensíveis e fundamentais para ampliar os espaços jurídicos da civilização brasileira, inclusive de minorias e vulneráveis, conseguiu proferir uma frase que também lhe desajustou a máscara de humanista.

Gratuitamente, disse que o Brasil possui mais ações trabalhistas do que todas as demais nações somadas, citando como fonte um empresário que já andou às voltas com trabalho degradante – um dos elementos do trabalho escravo contemporâneo – em sua cadeia de valor. E não há notícia de tal estudo complexo (sobre a comparação ações trabalhistas) em nenhum banco de dados relevante.

A partir dessa percepção, que não está ancorada em nenhum dado da realidade institucional, o ministro passou a defender genericamente a Reforma Trabalhista, sem se ater ao fato que a completa subversão do Estado Social de direito é representada pela proposta de alteração da CLT. No limite, ela restringe a vida civil dos cidadãos, ao permitir a intensificação da sua jornada de trabalho e autorizar formas precárias de trabalho.

Sim, a litigiosidade judicial brasileira é assombrosa e parece estar associada à nossa trajetória institucional e a nossa urbanização. Grosseiramente, seria possível afirmar que quanto mais se afasta do mando tradicional, mais o brasileiro entra na Justiça. Mas isso seria grosseria também.

A litigiosidade é igualmente assombrosa em qualquer quadrante da jurisdição. O Brasil tem a sociedade civil mais conflitiva do Ocidente se formos olhar apenas para os dados da Justiça em Números, coletânea de dados oficiais do Conselho Nacional de Justiça.

Litigiosidade tributária, familiar, consumerista, penal. Mas a solução proposta pelo Parlamento para mudança da CLT é tão adequada para uma sociedade democrática e para um Estado Social de direito quanto propor a supressão do divórcio para por fim às ações por alimentos.

A crise institucional brasileira, ao invés de permitir uma construção político-institucional de transição até as eleições gerais de 2018, vem disseminando uma catarse regressiva em que a população é convidada a se convencer que seus direitos civilizatórios são entraves ao processo de acumulação de riquezas e modernização institucional.

Melhor lembrar aos brasileiros que, sem o Estado Social e sem as máscaras de defesa da Justiça, sobra muito pouco além da misoginia, do preconceito de classe e da violência natural dos patriarcas.

(*) Marcus Barberino é juiz do Trabalho da 15a Região, mestre em Economia Social do Trabalho e doutorando em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp. Tem atuado em casos envolvendo grandes empresas e terceirização ilegal.

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Ao apelar à “ingenuidade”, Temer e Aécio se declaram incapazes ao eleitor http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/22/ao-apelar-a-ingenuidade-temer-e-aecio-se-declaram-incapazes-ao-eleitor/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/22/ao-apelar-a-ingenuidade-temer-e-aecio-se-declaram-incapazes-ao-eleitor/#respond Mon, 22 May 2017 14:41:25 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=33121 “Ingenuidade. Fui ingênuo ao receber uma pessoa [Joesley Batista, dono do JBS] naquele momento.”

“Lamento sinceramente minha ingenuidade – a que ponto chegamos, ter de lamentar a boa-fé! Não sabia que na minha frente estava um criminoso sem escrúpulos, sem interesse na verdade, querendo apenas forjar citações que o ajudassem nos benefícios de sua delação.”

As frases são, respectivamente, de Michel Temer e Aécio Neves, que usaram a “ingenuidade” como justificativa diante de conversas gravadas por Joesley Batista, dono do JBS. Ambos os registros estão na Folha de S.Paulo desta segunda (22) – o do primeiro, em uma entrevista, e o do segundo, em um artigo-depoimento.

A utilização da “ingenuidade”, ou seja, declarar-se “café-com-leite” como artifício de defesa diante de um escândalo de corrupção, tráfico de influência e compra de favores é um indicador de desespero. Pois os dois sabem que demandaria uma intensa dose de ignorância da população para acreditar nessa desculpa.

Afinal de contas, o mais esperto dos dois conspirou abertamente pela queda de sua antecessora para ocupar seu lugar. E o outro, “despachava” do Rio de Janeiro apesar de ser governador de Minas Gerais (Aécio usou aeronaves oficiais por 124 vezes para ir ao Rio durante o período em que foi governador).

Pode-se, claro, lembrar as icônicas palavras de Sérgio Machado, em grampo com Romero Jucá (“o primeiro a ser comido vai ser o Aécio”), para contestar que, talvez, o senador mineiro realmente acredite que se autointitular ingênuo pode funcionar. Afinal, nas palavras de Machado, “0 Aécio não tem condição, a gente sabe disso, porra. Quem que não sabe?”

Talvez a esperança de ambos com essa justificativa resida no fato que parte do eleitorado brasileiro já provou que escolhe heróis em todos os partidos políticos, da esquerda à direita, e segue com eles até o fim – independente dos fatos. É uma religião. Temos isso com Lula, Bolsonaro, Doria, Marina, Maluf… Basta que esses heróis reafirmem suas narrativas com um mínimo de convicção. Então, sentindo-se culpados diante de uma desconfiança que dava sinais de nascer, alguns desses eleitores se prostram arrependidos. E pensam “Perdoa-me por me traíres” – apesar de nunca terem ouvido falar de Nelson Rodrigues.

A justificativa pode ter seu valor junto a processos judiciais ou políticos que Temer e Aécio possam vir a sofrer por conta do que foi revelado. É uma versão piorada do “eu não sabia”, muito em uso nos governos do PSDB, do PT e até do próprio PMDB.

Utilizar a ingenuidade é uma espécie de recurso arriscado porque parte da população pode até cair no conto de políticos “mal informados”, mas não aceita aqueles que se declaram fracos e passíveis de serem envolvidos em conversas moles durante os exercícios de seus mandatos. Ou seja, não querem um “mané” no governo.

De qualquer forma, o cinismo adotado por ambos não convence. Pelo contrário, constrange. Se ainda tivessem o dom de Paulo Maluf que, durante anos, deu justificativas que se tornaram folclóricas para o roubo de dinheiro público e, certamente, ria delas e de si mesmo, entender-se-ia.

Ou seja, além da questão ética, a estética da canastrice da “ingenuidade” de Temer e do barroco da “ingenuidade” de Aécio são imperdoáveis.

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Temer, JBS e a promiscuidade que transforma a vida no campo um inferno http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/21/temer-jbs-e-a-promiscuidade-que-transforma-a-vida-no-campo-um-inferno/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/21/temer-jbs-e-a-promiscuidade-que-transforma-a-vida-no-campo-um-inferno/#respond Sun, 21 May 2017 16:11:19 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=33110 Enquanto as elites política e econômica do país analisam se Temer ainda é útil para entregar as Reformas Trabalhista e da Previdência e para segurar as investigações da Lava Jato ou se já passou da hora de substitui-lo por outro que possa, as delações da JBS trouxeram mais um capítulo da promiscuidade entre o poder público e setores do agronegócio brasileiro.

Não é de hoje que a cadeia de produção de proteína animal, por sua natureza, influência política e forma de atuação, tem causado trabalho análogo ao de escravo, superexploração e morte de operários em unidades de processamento de carnes, violência contra populações tradicionais, assassinato de trabalhadores rurais, crimes ambientais, roubo de terras públicas, contaminação de reservas de água, sofrimento desnecessário de animais.

E não é de hoje que a representação política financiada por determinados setores do agronegócio tem atuado para impedir a aprovação de leis ou tornar sem eficácia os instrumentos destinados a fiscaliza-las. Internamente, esses representantes têm suas divisões e diferenças e nem sempre há consenso – basta ver as rusgas entre a senadora Kátia Abreu, o ministro Blairo Maggi e Joesley Batista, dono da JBS. Mas, quando necessário, os diferentes grupos representados nessa cadeia são coesos o suficiente para agir em bloco.

As delações do JBS causaram espanto em muitos quando mostraram como funcionava a entrega de milhões a políticos. Mas bastava olhar para as listas de doações da empresa nas campanhas eleitorais de 2014, disponíveis no Tribunal Superior Eleitoral, para ver como um rio caudaloso de dinheiro fluiu para quase todos os partidos políticos. Incluindo aos “heróis” da esquerda e aos “mitos” da direita.

Como já escrevi aqui antes, nos últimos 20 anos, estive em mais ações de resgate de pessoas escravizadas em fazendas de gado do que gostaria, vi trabalhadores que perderam partes do corpo em frigoríficos que nunca vou esquecer, presenciei a realidade de indígenas vítimas de violência por parte de produtores que fornecem a grandes grupos. Em frente a muitas agroindústrias e fazendas, as mesmas placas avisando sobre o financiamento público. Ao mesmo tempo, tenho dialogado com grandes empresas do setor, verificando que melhorias têm acontecido – mas não no ritmo necessário para garantir que dignidade não seja algo do qual apenas a próxima geração irá se beneficiar.

É possível afirmar que essa promiscuidade entre o setor público e parte do agronegócio tem servido para manter um modelo de desenvolvimento arcaico sob a justificativa da soberania nacional. A mesma usada quando a ditadura civil-militar passou o rolo compressor por cima de famílias do campo. Modelo que não só impossibilita uma reforma agrária ampla, mas leva a mais concentração fundiária. E à concentração do capital.

A ideia era criar um gigante daqui para não ser devorado pelos estrangeiros. Mas o gigante brasileiro (de mudança para os Estados Unidos e a Holanda) também devora brasileiros.

Pois a exploração do grande capital nacional sobre trabalhadores e meio ambiente no Brasil não é diferente do Centro mundial explorar a Periferia. Os resultados são iguais e a história está aí para mostrar. Aliás, o capitalismo na Periferia, por ignorar regras do jogo e as reclamações da sociedade, tem sido mais truculento que o capitalismo no Centro. É inocência pensar que certas empresas brasileiras atuam, necessariamente, em nome de um “interesse nacional”. Atuam no interesse de seus controladores e do mercado.

E a moral que o mercado adota é a moral que ele cria para si mesmo.

Muita coisa mudou desde que os verde-oliva deixaram o poder, mas mantivemos um desenvolvimento a todo o custo para produzir e, assim, exportar, gerar divisas, pagar juros de empréstimos, e assim poder contrair mais empréstimos e investir na produção. Não sem antes pagar e receber propina, para eleger alguns e enriquecer uns poucos. E destruir outro lugar e outra comunidade. Que pode ser indígena, mas também ribeirinha, camponesa, quilombola, caiçara ou mesmo moradores pobres das periferias das cidades. Ou vender carne vencida.

Claro que isso não é monopólio desse setor. A Operação Lava Jato trouxe a público as falcatruas da construção civil e, dentre elas, o projeto de Belo Monte. Muito antes das obras da usina hidrelétrica começarem, movimentos sociais, organizações da sociedade civil e entidades que congregam povos indígenas vieram a público alertar sobre a tragédia que seria essa construção. E, por anos, mantiveram-se protestando, dentro e fora do Brasil, nas ruas, no Congresso, na Justiça, contando apenas com a ajuda do Ministério Público Federal do Pará e de alguns parlamentares que resistiam e defendiam os direitos humanos.

Ao mesmo tempo, eram olhados com desprezo por grande parte do governo federal e da oposição. Pois os dois lados compartilhavam da mesma visão de desenvolvimento predatório. E os dois lados dividiam os mesmo recursos de empreiteiras.

Ninguém aqui está defendendo o fechamento de setores importantes da economia. Essa é a estrutura que temos e vamos ter que trabalhar com ela, quer gostemos ou não, para evitar mais desemprego e problemas sociais.

Mas já passou da hora de nosso capitalismo seguir um mínimo de regras para a compra e venda da força de trabalho, para o respeito ao meio ambiente, para a garantia de direitos a comunidades tradicionais e, claro, na qualidade do produto que ele entrega ao consumidor final.

Momentos como este deveriam servir não apenas para combater a corrupção, mas também para jogar luz sobre o funcionamento da engrenagem abastecida por esse dinheiro. E pensar em como colocar em marcha uma Reforma Política, que consiga repensar o sistema para manter – a uma saudável distância – a relação entre o público e o privado.

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Trocar Temer por seu ministro da Fazenda seria um golpe do poder econômico http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/20/trocar-temer-por-seu-ministro-da-fazenda-seria-um-golpe-do-poder-economico/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/20/trocar-temer-por-seu-ministro-da-fazenda-seria-um-golpe-do-poder-economico/#respond Sat, 20 May 2017 14:14:41 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=33091 A movimentação para colocar Henrique Meirelles como presidente da República via eleição indireta após uma queda de Michel Temer significa que parte da elite cansou do “intermediário” e decidiu entregar o poder político diretamente ao mercado.

Em outras palavras: Temer pode sair, desde que as reformas fiquem.

Filiado ao PSD de Gilberto Kassab, o ministro tem sido apontado pelo mercado financeiro e parte do grande empresariado nacional como um nome que traria tranquilidade, não apenas porque manteria a política econômica, mas – principalmente – porque levaria a cabo as impopulares Reformas Trabalhista e da Previdência.

Por isso, parte da elite econômica e financeira do país engrossa o coro contra a organização de eleições diretas para a Presidência da República, ao invés de defender eleições diretas que poderiam trazer legitimidade a um governo.

Essa alternativa poderia ser viabilizada através de aprovação de emenda constitucional ou por meio de entendimento de que uma cassação da chapa presidencial Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral já seria seguida de diretas, em função do que diz o Código Eleitoral.

Ao mesmo tempo, pela regra eleitoral geral, seria inelegível quem não estivesse fora de cargos no Executivo, Judiciário e Ministério Público por, pelo menos, seis meses antes da escolha. Mas como não há lei complementar que regulamente as eleições indiretas, isso abre caminho para o Congresso Nacional aprová-la no caso de vacância do cargo de presidente. Inclusive deixando de lado a necessidade de desimcompatibilização e abrindo caminho para atuais ministros concorrerem.

O PIB e o mercado sabem que qualquer candidato que defenda uma plataforma de governo que inclua as Reformas Trabalhista e da Previdência não seria eleita para a Presidência no Brasil, nem agora, nem em 2018, considerando que as pesquisas de opinião mostram que a maioria da população tem sido contra ambas.

Cansados das dores de cabeça trazidas por Michel Temer e seu grupo, não por aversão à corrupção em si (uma vez que dirigentes de entidades patronais também foram citados nas delações), mas pelo atraso na aprovação das reformas que elas significam, o PIB discute abertamente um substituto para fazer o serviço. Precisam que o terreno seja limpo por alguém que não se importe em não ser eleito no ano que vem, porque, aprovando as reformas, dificilmente será.

E esse nome pode ser o de Meirelles, que fez sua carreira no sistema financeiro internacional e tem trânsito no PSDB, PMDB e PT. Após ocupar o cargo de presidente do Banco Central no governo Lula (2003-2010), assumiu a presidência do Conselho de Administração do J&F (grupo controlador do JBS) e depois de presidente do banco Original, pertencente ao mesmo grupo. Ao todo, trabalhou para Joesley Batista entre 2012 e 2016.

Enquanto isso, o governo Temer ainda tenta mostrar que é útil e pode tocar as reformas, tanto que articulou para que o Senado avance com a apreciação da Reforma Trabalhista – condição para que deputados caminhem com a Reforma da Previdência.

Vale lembrar que a proposta impopular da Reforma da Previdência partiu das mãos do ministro Henrique Meirelles e de sua equipe. E que a Reforma Trabalhista está em sua órbita.

Apesar das concessões feitas em negociações com o Congresso Nacional, Meirelles segue irredutível quanto ao núcleo duro da Reforma da Previdência, que também provoca o maior impacto negativo: estabelecer em 25 anos o tempo mínimo de contribuição para a aposentadoria de trabalhadores assalariados urbanos e rurais. E 15 anos para trabalhadores rurais da economia familiar. Lembrando que, hoje, são necessários 15 anos, não de contribuição, mas de comprovação de atividade a esse trabalhador rural da economia familiar – que não tem dinheiro para pagar um carnê todo o mês. Além disso, dada à alta taxa de informalidade, cerca de 80% do total dos trabalhadores já não conseguem contribuir por um quarto de século e, em média, contribuem nove meses a cada 12. Ou seja, muitos serão os que não se aposentarão se aprovadas as novas idades mínimas de 65 e 62 anos, para homens e mulheres respectivamente.

Ao mesmo tempo, o ministro propôs o aumento de idade para que idosos pobres possam pedir o auxílio do Benefício de Prestação Continuada (BPC), de 65 para 70 anos – o relator da Reforma da Prevdiiencia na Câmara dos Deputados, Arthur Maia (PPS-BA), abaixou para 68 anos. Ainda assim, três anos são um longo tempo para quem vive na pobreza.

Sem contar que Meirelles defendeu que a integralidade da aposentadoria viesse apenas com 49 anos de contribuição – Arthur Maia propôs exigir 40 anos após pressão de deputados, o que ainda é muito.

Paralelo a isso, a Câmara dos Deputados já aprovou o texto da Reforma Trabalhista, que está sob exame do Senado Federal. O seu núcleo duro é a permissão que a negociação entre patrões e empregados fique acima do que diz a lei. Em sindicatos fortes, como alguns de metalúrgicos ou bancários, isso pode render bons frutos. Em sindicatos fracos ou corruptos, negociações tendem a ser desequilibradas a favor dos patrões, aprovando reduções em direitos que coloquem em risco a saúde e a segurança de trabalhadores.

A reforma também dificulta responsabilidade de empresas que tenham trabalhadores escravos produzindo exclusivamente para elas, via terceirizadas; limita o valor de indenização a 50 vezes o último salário do trabalhador – ou seja, a morte no serviço de quem ganha um salário mínimo valeria, no máximo, R$ 46.850,00; estabelece contratos intermitentes, em que o trabalhador pode ser chamado a qualquer hora, não sabendo quanto ganhará no final do mês e de quanto será seu descanso; acaba com a remuneração do tempo de deslocamento do trabalhador quando não há transporte público disponível; entre outras dezenas de mudanças.

O mercado financeiro e o grande empresariado têm o direito de propor Henrique Meirelles para a Presidência da República e defender sua candidatura. Mas, para tanto, o eleitorado não pode ser apenas 513 deputados federais e 81 senadores de um Congresso Nacional que já demonstrou (com louváveis exceções) que representa apenas seus interesses e o de seus financiadores. A decisão de colocá-lo no Palácio do Planalto deveria partir do voto direto da população, a partir da escolha de sua proposta que mudará profundamente a estrutura do país.

A isso damos o nome de democracia. Ela foi semeada por aqui há um tempo. Mas parece que não pegou.

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PIB vai “renunciar” a Temer por Reformas Trabalhista e da Previdência http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/19/pib-renunciara-a-temer-por-reformas-trabalhista-e-da-previdencia/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/19/pib-renunciara-a-temer-por-reformas-trabalhista-e-da-previdencia/#respond Fri, 19 May 2017 20:52:47 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=33076

Michel Temer está sangrando, em praça pública, por causa da divulgação de mais elementos trazidos pela delação dos donos da JBS (que o envolveram em esquemas de corrupção, organização criminosa e obstrução de Justiça), mas também pelo desembarque de parte do Produto Interno Bruto da sustentação de seu governo.

Este último escândalo, que o trouxe diretamente para o olho do furação, pode adiar, por tempo indeterminado, a aprovação da Reforma Trabalhista (sonho de parte do grande empresariado) e da Reforma da Previdência (sonho de bancos e instituições financeiras). Contudo, ambas as reformas têm prazo de validade. Iniciado o período de discussões eleitorais, em abril do ano que vem, dificilmente se encontrará algum deputado federal ou senador que aceite defendê-las abertamente sob o risco de não ser reeleito. Pesquisas apontam que a maioria da população é contra as mudanças por enxergar nelas uma precarização de sua qualidade de vida.

A manutenção de Michel Temer – e de todo o passivo de corrupção de sua equipe e aliados – depende dos resultados que é capaz de apresentar. Avalia-se, portanto, que se não for mais capaz de levar adiante essas reformas, terá que ser substituído por alguém que seja. Alguém que, como ele, não tenha pretensões eleitorais e, portanto, poderá seguir aplicando uma distribuição de riqueza às avessas para o Brasil sair da crise, em que se tira dos pobres para manter o dos ricos.

Ao mesmo tempo em que ele deixa de ser visto como uma ferramenta útil e passa a ser encarado como um entrave, há um esforço para tentar blindar Henrique Meirelles e sua equipe econômica a fim de garantir uma transição segura para o próximo governo – quando continuarão a tocar esse mesmo projeto.

Temer não pode se queixar disso, pois foi o “acordo” estabelecido quando se propôs a encampar o impeachment e substituir Dilma Rousseff. Não que a ex-presidente acreditasse em um modelo de desenvolvimento sustentável e includente ou que o governo do PT não estivesse até o pescoço envolvido em denúncias de corrupção. Mas apenas alguém que não foi eleito e que não precisaria ser reeleito e, por isso, não estaria preso à viabilidade eleitoral, seria capaz de aprovar uma quantidade grande de propostas e projetos que reduzem direitos.

Pelo menos, é isso no que uma parcela da elite econômica e seus representantes acreditava. Agora, perceberam que o quadro é mais complicado do que planejaram, menos por conta da resistência da oposição (que não demonstrou força e competência para tanto), mas pela própria incompetência e falta de lisura de parte do governo.

A troca de Temer pode ter se tornado necessária para garantir que este período de limbo de representatividade política não seja desperdiçado. Muitos ainda querem que este ano seja usado para refundar a República. Mas, ao invés de garantir que essa repactuação passe por uma Reforma Política que reinvente a representatividade e reforce a democracia, busca-se reduzir o poder de fiscalização e de regulação do Estado ou mesmo de sua presença e ação em nome da competitividade.

Se ele vai conseguir resistir e obter mais um “voto de confiança” desse grupo que, agora, começa a lhe dar as costas, saberemos em breve. Certamente, essa é uma dor de cabeça que o mandatário não precisaria ter se fosse respaldado pelo voto popular.

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Por que Temer foi rifado por seus aliados em apenas um dia? http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/19/temer-foi-rifado-e-abandonado-por-aliados-em-tempo-recorde/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/19/temer-foi-rifado-e-abandonado-por-aliados-em-tempo-recorde/#respond Fri, 19 May 2017 14:17:40 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=33064

Foto: Andre Coelho/Agência O Globo

Foi surpreendente a velocidade com a qual aliados e opositores, grandes empresários, o mercado financeiro nacional e internacional, movimentos e organizações que o apoiam absorveram e processaram as denúncias contra Michel Temer. Mesmo sem acesso aos áudios e baseando-se no furo de reportagem do jornal O Globo, estabeleceu-se um consenso de que era preciso trocá-lo. E rápido.

O próprio Temer ficou em dúvida sobre si mesmo e sobre o que teria dito na conversa com o empresário Joesley Batista, dono do JBS/Friboi. A ponto de dar justificativas questionáveis como chamar a suposta anuência à compra de silêncio de Eduardo Cunha de concordância com uma “ajuda humanitária” ao ex-deputado federal e homem-bomba, hoje preso por conta da Operação Lava Jato. Temer, seus advogados e apoiadores mais próximos precisaram esperar receber os áudios do Supremo Tribunal Federal para bancarem publicamente a decisão do “eu fico”. Depois o consenso se desfez, mas isso diz muita coisa.

Divulgadas no final da tarde desta quinta (18), as gravações realizadas pelo dono da JBS mostram que há material para inviabilizar o governo Michel Temer. Por mais que os áudios em relação à Cunha sejam insuficientes para isso e dependam da investigação autorizada pelo STF, há informação suficiente mostrando condescendência com corrupção, tráfico de influência, “venda” de favores públicos e ataques à própria Lava Jato.

A onda ganhou tal proporção rapidamente por uma razão simples: todos sabem quem é Michel Temer, do que ele é capaz, quem são seus aliados mais próximos e em que circunstâncias ele ocupou a Presidência da República. Todos sabem que não era questão de “se”, mas “quando” esse tipo de comportamento impróprio se tornaria a público.

Tivesse ele o respaldo do voto direto ou a popularidade de quem cumpre um programa de governo escolhido pela maioria da sociedade, teria recebido apoio dos partidos da base aliada ao invés do “salve-se quem puder” que tomou conta do Congresso Nacional nesta quinta. Não passaria pelo constrangimento de saber que uma reunião para decidir os próximos passos após sua queda foi organizada na casa de Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados e próximo na linha sucessória. Aliás, da mesma forma que Temer também organizou esse tipo de reunião quando era o próximo da linha sucessória de Dilma Rousseff.

De acordo com um analista de redes sociais que atua na construção e desconstrução de reputações online, desconstruir é mais fácil, sempre, do que construir. Mas não se desconstrói uma reputação com musculatura em pouco tempo. Nem no tempo de uma eleição, que dirá em um dia. A credibilidade de um político é o seu patrimônio, garantido pela importância do que ele faz e pelo reconhecimento público disso. Esse tipo de reconhecimento, estruturado em rede ou offline, não se ergue do zero ou se arrasa profundamente de um dia para outro.

O comportamento coletivo nesta quinta não mostra que Temer teve sua credibilidade desconstruída, mas sim de que ela é muito pequena até entre seus apoiadores. Mesmo Dilma, no pior da sua popularidade, não foi rifada como Temer foi ontem. Comparações com Fernando Henrique e Lula, então, são desnecessárias.

Tanto que, em seu discurso do “eu não renunciarei”, o principal argumento utilizado foi o “ruim comigo, pior sem mim” – um claro recado à elite econômica para lembrar que poucas pessoas se dispõem a aceitar a fazer o “serviço sujo e impopular” de reduzir o Estado de proteção social através de reformas como a Trabalhista e a da Previdência. Até porque sem essa elite e sem Congresso, ele teria tomado o mesmo caminho de sua antecessora há muito tempo. Ou melhor, nunca teria chegado lá.

A dúvida é se ele conseguirá convencer o pilar econômico (que quer as reformas) e o pilar político (que quer ser protegido dos desdobramentos da Lava Jato) de que ainda é a melhor pessoa para o serviço. Ou se, em meio ao pandemônio de quinta, sua saída já foi precificada pelo mercado, calculada pela política e esperada pela sociedade para reorganizar o cenário. A tal ponto que, sua manutenção como líder, gera apenas mais dessa mesma ansiedade que ele prometeu atacar.

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Temer a Empresários: Estou fazendo o que me pediram. Agora, vão me largar? http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/18/temer-reclama-estou-fazendo-o-que-me-pediram-agora-vao-me-largar/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/18/temer-reclama-estou-fazendo-o-que-me-pediram-agora-vao-me-largar/#respond Thu, 18 May 2017 20:35:15 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=33049

Foto: Alan Marques/Folhapress

“Todo um imenso esforço de retirar o país de sua maior recessão pode se tornar inútil. E nós não podemos jogar no lixo da história tanto trabalho feito em prol do país”, disse Michel Temer, em seu pronunciamento, na tarde desta quinta (18), em que atestou que não renunciaria.

Joesley Batista, dono do JBS, apresentou gravações que provariam que Temer pediu ajuda para a compra do silêncio do ex-deputado e, hoje, homem-bomba Eduardo Cunha. Também mostram Temer conversar com ele sobre tráfico de influência e “venda” de favores à JBS.

Foi um recado direto para uma parcela do grande empresariado nacional e do mercado, que apoiaram sua condução à Presidência da República. Portanto, também poderia ter sido dito de outra forma:

“Eu estou fazendo o que me pediram para fazer. Agora, vão me largar? Olha, que pode ser ruim comigo, mas é pior sem mim.”

A missão de Temer contou com dois objetivos claros: “Combater a crise econômica jogando a fatura para longe do colo dos mais ricos” e “Aproveitar a crise para reduzir o Estado – não na parte que garante subsídios, desonerações e isenções de impostos sobre lucros e dividendos, o que beneficia aos ricos, mas reduzindo a parte que atende às necessidades da xepa humilde”.

Acuado por denúncias de corrupção envolvendo a ele, sua equipe e sua base de apoio, Michel Temer colocou seus aliados para apressar as ditas reformas estruturais assim que substituiu Dilma Rousseff. Quis mostrar que podia ser útil a quem o ajudou a chegar ao poder. Patos Amarelos que não se incomodam tanto com a corrupção desde que a missão seja cumprida. Até porque, pelo que mostram as delações, tem muito Pato Amarelo com lama até o bico.

Daí, veio o show de horrores: PEC do Teto dos Gastos (impedindo o crescimento do investimento para a melhoria do serviço público por 20 anos e afetando áreas como educação e saúde), Reforma da Previdência (em que trabalhadores pobres serão afetados, seja pelo aumento do tempo de contribuição mínimo para 25 anos, seja pelo aumento na idade mínima para obter o auxílio a idosos pobres), Reforma Trabalhista (que pode reduzir a proteção à saúde e à segurança do trabalhador) e a Lei da Terceirização Ampla (precarizando trabalhadores  e impondo a eles perdas salariais e aumentos de jornadas), entre outros.

A Constituição Federal de 1988 prevê que se busque a qualidade de vida de todos, pobres e ricos, e nada diz sobre reduzir direitos do primeiro grupo em nome de privilégios do segundo. As reformas, do jeito que estão propostas, querem exatamente reescrever a Constituição para mudar o que muitos chamam de “erro” dos constituintes pós-ditadura.

O grupo que esperava ver o blockbuster “Querida, encolhi o Estado”, com Michel Temer no papel que era de Rick Moranis, está se frustrando com o tamanho dos problemas que o protagonista e os coadjuvantes trouxeram para o andamento do roteiro. As gravações em áudio seriam, ao que tudo indica, a gota d’água para esse grupo social decida trocar o elenco. Sem desistir, é claro, de sua peça – afinal, apenas um governo que não foi eleito e que não pretende ser reeleito e aceita ser impopular pode fazer as mudanças que Temer faz.

Nesse cenário, o poeta da mesóclise pode estar com os dias contados. Mas é difícil imaginar que o roteiro das reformas terá um final feliz para os mais vulneráveis sem, antes, muita pressão popular. Porque está cheio de ator canastrão louco para entrar em cena e agradar aos patrocinadores.

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Caso Temer/JBS mostra que a reforma que o Brasil precisa é na política http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/18/caso-temerjbs-mostra-que-a-reforma-que-o-brasil-precisa-e-na-politica/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/18/caso-temerjbs-mostra-que-a-reforma-que-o-brasil-precisa-e-na-politica/#respond Thu, 18 May 2017 03:53:58 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=33029

Confirmado o teor das gravações realizadas pelo proprietário do JBS, Joesley Batista, mostrando que Michel Temer pediu ajuda para a compra do silêncio do ex-deputado e, hoje, homem-bomba Eduardo Cunha, sua presença como ocupante do Palácio do Planalto torna-se insustentável. Mesmo sua base de apoio no Congresso Nacional e na elite econômica vai abandoná-lo em nome de um plano B. Cármen Lúcia, Gilmar Mendes, Nelson Jobim, Fernando Henrique. Não importa o nome. O que importa é que a bolsa de apostas está funcionando.

A discussão sobre as possibilidades de uma eleição com o voto popular para a Presidência da República, ao invés da escolha de um nome por deputados e senadores, esbarra nos interesses de parlamentares (que querem alguém que estanque a “sangria” causada pelo combate à corrupção) e de grandes empresários (que desejam ver as Reformas Trabalhista e Previdenciária, reprovadas pela grande maioria da população, aprovadas).

Mais do que isso, o caso Temer/JBS carrega um debate que deveria ser trazido à luz neste momento: a quem a política realmente representa.

Pois a JBS, empresa que envolveu Michel Temer em uma denúncia que pode levar à sua cassação, foi também a maior doadora das campanhas políticas em 2014. Não é possível fechar os olhos e achar que o financiamento eleitoral não é porta de entrada para a promiscuidade com a coisa pública. Mesmo com a mudança na legislação, que proibiu doações de pessoas jurídicas, pessoas físicas donas de empresas milionárias seguem livres para elegerem quem quiserem.

Passou da hora de assumirmos que a prioridade brasileira não é uma Reforma Trabalhista e uma Reforma da Previdência, mudanças profundas nas quais a população não se vê espelhada. Mas uma Reforma Política, que realmente mexa com as estruturas de representação. Para garantir que a massa dos trabalhadores e de pequenos empresários, por exemplo, tenha voz – e que suas demandas não fiquem em silêncio diante das necessidades do mercado. Talvez uma reforma feita por uma assembleia eleita com mandato delimitado para essa, e apenas essa, tarefa, caso o Congresso se mostre mais preocupado com sua reeleição do que com o futuro do país.

Muitos dos jovens que foram às ruas em junho de 2013 queriam mais formas de interferir diretamente nos rumos de sua cidade, estado ou país. Mas não da mesma forma que as gerações de seus pais e avós. Porque a política está sendo radicalmente transformada pela mudança tecnológica e participar do rumo das coisas a cada quatro anos já não é mais suficiente.

Ao invés de encaminhar essa discussão, o Congresso Nacional vai no sentido oposto, tentando implementar fórmulas que beneficiam os parlamentares que já estão no poder ou os que contam com currais eleitorais. E quando há qualquer proposta para aumentar os instrumentos de participação popular, ela é rapidamente taxada de golpe, pois tira poder do Legislativo e devolve ao povo.

Aliás, levando a sério alguns discursos que circulam nos plenários da Câmara e do Senado, a solução para os problemas de representação política no Brasil passa apenas pela mudança do voto proporcional para o distrital e a adoção da lista fechada. Este último caso, o eleitor vota no partido, que escolhe a ordem dos candidatos, faria sentido se tivéssemos um sistema partidário decente. E não acredito que a lista fechada leve à melhora dos partidos na velocidade necessária.

A democracia representativa falhou em garantir o respeito aos anseios de sociedades plurais e complexas. Isso não significa, por outro lado, que a solução seja negar a política e suas instituições. Que podem não ser perfeitas, mas é o que temos neste momento. A alternativa a isso, historicamente, passou por saídas rápidas, vazias, populistas e, não raro, autoritárias e enganosas. Porque não há nada mais político do que algo que se diz não-político. A negação às balizas republicanas abre as portas para quem se coloca, em um momento de crise como este, como “salvador da pátria” a fim de ganhar espaço a fim de nos “tirar das trevas” sem o empecilho da “política”. Ou seja, de regras e limites.

Precisamos discutir como fortalecer os partidos, que ainda são a melhor saída no sistema político – o que passa pela redução drástica do número deles e o fim de coligações proporcionais. Discutir o financiamento, seja ele público ou privado, ou uma mistura dos dois – desde que com limitação do tamanho da doação individual e, portanto, do poder econômico do doador sobre o eleito. Precisamos criar novos caminhos para efetivar direitos. Precisamos reinventar a representação. Precisamos imaginar formas de democracia direta e de ampliar a participação popular.

Mas a única maneira de fazer isso de forma livre é através do diálogo da política. Precisamos debater o sistema urgentemente. Afinal, cidadãos não são consumidores. Eles não querem apenas um bom produto ou um bom serviço. Sua ambição passa por relações mais amplas com outros cidadãos e com o lugar em que vivem, com o seu bem estar no presente, com sua esperança no futuro. Ser cidadão é ter a noção do coletivo, da coisa pública que deve ser compartilhada.

Por fim, aos líderes políticos, econômicos e sociais que gostam mais do cheiro da antiga naftalina do que de gente e que já se articulam para dar um passa-moleque no interesse popular, vale um lembrete: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente.” Constituição Federal, artigo 1o, parágrafo único.

Ato contra Michel Temer e por eleições direta para a Presidência, na avenida Paulista, em São Paulo, logo após a veiculação das denúncias (Foto: Leonardo Sakamoto)

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Deputado repete que reforma não atinge pobre para ver se ele mesmo acredita http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/17/deputado-repete-que-reforma-nao-atinge-pobre-para-ver-se-ele-mesmo-acredita/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/17/deputado-repete-que-reforma-nao-atinge-pobre-para-ver-se-ele-mesmo-acredita/#respond Wed, 17 May 2017 20:33:34 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=33024 Ou o relator da Reforma da Previdência na Câmara dos Deputados, Arthur Maia (PPS-BA), não leu o próprio texto ou acredita que, se parecer convincente, os trabalhadores acreditarão nele. Pois segue na tática de apontar um prato com uma mísero feijão, afirmando que lá há uma bela feijoada.

Repetir seguidas vezes que a Reforma da Previdência não afeta os trabalhadores pobres pode até fazer com que alguns caiam no conto das palavras firmes do parlamentar ou na bela propaganda no rádio e a TV. Mas não mudará a realidade: as mudanças nas aposentadorias afetam sim a vida dos pobres.

Se a imposição de 25 anos de contribuição como tempo mínimo para a aposentadoria de trabalhadores urbanos e rurais e de 15 anos de contribuição para trabalhadores rurais da economia familiar (hoje, basta 15 anos de comprovação de atividade) e a mudança na idade mínima para concessão de auxílio a idosos pobres de 65 para 68 anos não são pancadas nos mais vulneráveis, então a vida do deputado deve ser bastante triste.

Ele, que já manteve aposentadorias especiais para categorias de trabalhadores, não pensa em analisar contrapropostas como adotar o tempo de contribuição mínimo de 15 anos para aposentadoria de trabalhadores urbanos e rurais assalariados com pensões de até dois salários mínimos ou a manutenção da comprovação de atividade de 15 anos para garantir aposentadoria de trabalhadores rurais da economia familiar ou ainda a manutenção do acesso ao benefício para idosos pobres em 65 anos. Pois a expectativa de vida mudou, mas não a empregabilidade de pessoas pobres.

Verdade seja dita, não há muito o que o relator pode fazer além de repetir uma ficção torcendo para que cole como realidade. Estranho seria se, em um rompante de sinceridade, convocasse uma coletiva à imprensa, revelasse tudo o que o governo federal lhe pediu e a quem a reforma realmente beneficia, e depois pegasse um avião para os braços dos seus eleitores.

A Reforma da Previdência precisa de um debate mais aberto, franco e sem pressa para podermos redesenhar, de forma democrática, como será a política de aposentadoria que um Brasil mais velho deverá ter. O governo federal e o Congresso Nacional podem ter se tornado o reino da pós-verdade, mas não podem esperar que a população ignore o que estão querendo aprovar e grite amém.

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Ao falar de Luciano Huck, tucanos e petistas mandam recado a João Doria http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/16/ao-falar-de-luciano-huck-tucanos-e-petistas-mandam-recado-a-joao-doria/ http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/05/16/ao-falar-de-luciano-huck-tucanos-e-petistas-mandam-recado-a-joao-doria/#respond Tue, 16 May 2017 20:17:41 +0000 http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=32985

Ao afirmar “não sou candidato a presidente da República”, em texto publicado pela Folha de S.Paulo, neste domingo (14), o apresentador e empresário Luciano Huck não apenas deixou claro que está à disposição, como confirmou que pode ser uma pedra no caminho de João Doria, caso o prefeito queira concorrer ao Planalto em 2018.

Este blog apurou junto a correligionários do ex-presidente que Fernando Henrique Cardoso não se esqueceu da resposta atravessada que recebeu de João Doria, um novato em termos de tucanato, em março. Ao afirmar, em uma entrevista ao jornal O Globo, que nem todos os gestores viram líderes e que liderança leva tempo para ser construída, em uma referência ao prefeito, FHC ouviu de Doria – também via imprensa – que o ex-presidente havia errado duas vezes: ao dizer que ele não venceria as prévias do partido e que não ganharia a eleição.

O troco veio com a análise de Fernando Henrique, em outra entrevista, na semana passada, sobre quem representaria o “novo” na política nacional. Ele poderia ter jogado luz apenas sobre a estrela ascendente de seu partido. Mas preferiu equiparar João Doria e Luciano Huck, mandando um recado: novato por novato, há outro nome com “charme” popular. Um plano B, por assim dizer.

De acordo com um dos tucanos ouvidos pelo blog, foi um aviso de que o partido tem comando e que Doria não terá vida fácil sem a benção dos líderes maiores. Segundo esse tucano próximo ao governador de São Paulo, uma candidatura passaria por diálogo e muita negociação e não seria escolhida através de constrangimentos digitais ou por exclusão de quem não estivesse ferido pela Operação Lava Jato.

Nesta semana, durante viagem de trabalho a Nova York realizada ao lado de Geraldo Alckmin, o prefeito deixou de lado seu cuidado habitual ao tratar da eleições do ano que vem e afirmou que “será candidato do PSDB aquele que tiver melhor posição perante a opinião pública”. E completou: “Para ser competitivo, para vencer as eleições, vencer o PT, vencer o Lula”.  Poderia ter dito também “e não aquele que os caciques do PSDB apontarem”, mas não era necessário. Tanto Alckmin quanto Doria defendem prévias no partido.

Em Brasília e em São Paulo, tucanos mais antigos ouvidos por este blog, mesmo aqueles que não estão envolvidos em denúncias, temem ser colocados de lado dentro do próprio partido com a ascensão meteórica do prefeito paulistano. Um político que tem como um dos principais apelos o fato de não ter histórico de vida partidária, em um momento de descrença na política institucional. Mas isso também representa uma de suas maiores fraquezas, considerando que partidos são importantes para candidaturas majoritárias de nível nacional.

João Doria vem sendo agressivo em suas críticas ao PT a fim de garantir o posto de anti-Lula no cenário político. E com exceção do próprio Lula que, quando fala à militância não consegue se controlar e acaba caindo nas provocações do prefeito, há membros do Partidos dos Trabalhadores que vêm defendendo que se evite a polarização com ele. Alguns, como a ex-presidente Dilma Rousseff, até desviaram suas críticas a Luciano Huck. Dessa forma, atuam para relativizar a importância do prefeito – que tem crescido com o antagonismo aos petistas na bolsa de apostas para 2018

A indefinição sobre a presença de Lula nas eleições presidenciais do ano que vem, que depende da inegibilidade que seria trazida por uma condenação em segunda instância na Justiça, mantém em compasso de espera a esquerda não-petista e mesmo as correntes petistas insatisfeitas que desejam alternativas a ele. Ninguém acredita em uma candidatura viável à esquerda tendo Lula como adversário. Com isso, debates ocorrem timidamente nesse campo, inclusive sobre a necessidade de reconstruir uma narrativa e ter um projeto para o país. Tudo muito lentamente. Como afirmou uma pessoa ligada ao PSOL, Lula é fortaleza e prisão da esquerda ao mesmo tempo.

Se ele for candidato, muito provavelmente teremos uma eleição polarizada entre Lula e mais alguém. Com Aécio Neves pensando em tentar a Câmara dos Deputados para manter o foro privilegiado e José Serra tendo que responder às delações e cuidar de problemas de saúde, sobraria um caminho livre para Geraldo Alckmin – se as delações não corroerem mais sua popularidade.

Nesse sentido, há espaço para um nome novo. Que se vier com muita sede ao pote, atropelando, pode acabar abatido em pleno voo por fogo amigo. Lembrando que os piores inimigos, seja em qualquer partido, são aqueles que chamamos de “correligionários”.

Se a ação de caciques tucanos vai enquadrar Doria ou se ele vai ser aclamado pela base dos eleitores como candidato, isso depende os resultados de seu mandato como prefeito, dos resultados da economia até lá, das decisões judiciais e, principalmente, de quem será o candidato do outro campo. Afinal, torna-se menos necessário um anti-Lula se Lula não for candidato.

Ainda não é possível afirmar quando a internet será mais relevante que a TV para a decisão do voto. Mas, tomando como base opiniões de pesquisadores que se debruçam sobre o tema, deve ser em algum momento entre 2018 e 2022. Durante este período de transição, candidatos terão que dominar as duas plataformas ao mesmo tempo.

O que é o caso de Doria e Huck: Enquanto Doria conta com quase 2,7 milhões de seguidores no Facebook e 419 mil no Twitter, além do apoio de movimentos pró-impeachment, como o MBL, e – mais recentemente – de algumas igrejas, Luciano Huck tem mais de 16,7 milhões o Facebook, outros 12,7 milhões no Twitter e, o principal: a Rede Globo. Claro que os índices deve ser lidos junto com a capacidade de cada um dos dois de ativar redes, mas se Doria larga na frente por ter passado por uma eleição e ter o que mostrar (ou não), Huck tem um potencial midiático gigantesco.

Diante do cenário, a especulação envolve, inclusive, nomes de outros partidos menores pelos quais os dois poderiam sair caso queiram se candidatar e não consigam legenda pelo PSDB.

Pois independentemente da força das redes sociais e da TV, e a despeito de todos os problemas estruturais que apresentam, é difícil imaginar que a eleição de presidentes prescinda do suporte de grandes partidos. Seus parlamentares, governadores, prefeitos e vereadores ainda são base para garantir capilaridade a uma candidatura.

Mesmo neste cenário de negação da política, com sua perigosa sugestão de que é necessário um “salvador” que nos livre de tudo isso o que está aí.

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